A fala, interpretada nos bastidores como uma tentativa de enquadrar e isolar o deputado federal Eduardo da Fonte (União Brasil) no cenário estadual, foi vista por aliados e observadores como uma narrativa desastrosa, que ignorou o peso real do parlamentar na política pernambucana. Mais do que isso: acabou aproximando ainda mais o grupo político de Eduardo da Fonte da governadora Raquel Lyra (PSD), fortalecendo um eixo que já vinha sendo construído de forma gradual e pragmática.
Ao chegar ao evento acompanhado de Miguel Coelho, João Campos buscou simbolizar a consolidação de sua aliança com o ex-prefeito de Petrolina e com setores do União Brasil em nível nacional, apostando na interlocução direta com a presidência do partido, comandada por Antônio Rueda. No entanto, ao separar publicamente Miguel e Eduardo em campos opostos, João expôs uma leitura apressada do tabuleiro político e subestimou a força do comando local do União Brasil em Pernambuco.
Na prática, o efeito foi claro. Lideranças ligadas a Eduardo da Fonte interpretaram a declaração como um gesto de rompimento definitivo e, longe de enfraquecer o deputado, o episódio solidificou ainda mais sua convergência com o projeto político da governadora Raquel Lyra. O que antes era tratado com cautela passou a ganhar contornos mais nítidos: há hoje uma sintonia crescente entre o grupo de Eduardo e o Palácio do Campo das Princesas.
Essa movimentação não surpreende quem acompanha a política estadual de perto. Eduardo da Fonte é, há anos, o fiel da balança das eleições em Pernambuco, com bases consolidadas em todas as regiões do Estado, forte presença municipalista e capacidade comprovada de transferir apoio político. Tentativas de reduzi-lo a um coadjuvante ou tratá-lo como peça descartável costumam produzir o efeito oposto: reforçam sua centralidade no jogo.
Enquanto João Campos aposta em gestos públicos, frases de impacto e na construção de um campo político ancorado em alianças nacionais, Eduardo segue operando no território onde as eleições se decidem: os municípios, as bases eleitorais e as articulações silenciosas. É nesse ambiente que sua força se traduz em poder real, e não em discursos.
O resultado imediato da declaração foi acelerar definições. Ao tentar empurrar Eduardo da Fonte para um lado do tabuleiro, João acabou facilitando a consolidação de um bloco político robusto ao redor da governadora Raquel Lyra, com musculatura eleitoral e capilaridade suficientes para pesar decisivamente em 2026.
Assim, o cenário que se desenha é claro: de um lado, João Campos tenta organizar sua frente e dar sinais de controle do jogo; do outro, Eduardo da Fonte emerge ainda mais fortalecido, agora com vínculos mais estreitos com o governo estadual. No xadrez da política pernambucana, a jogada que pretendia isolar acabou unindo — e quem soube capitalizar o erro foi a governadora e o grupo que, hoje, ninguém ignora quando o assunto é eleição em Pernambuco.
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