Greovário Nicollas
Não houve comemoração, tampouco estouro de champanhe. O clima no entorno de João Campos mudou. Se meses atrás a confiança beirava a euforia, agora o tom é de alerta. A primeira pesquisa Datafolha/CBN de 2026 caiu como um balde de água fria no campo que se acostumou a liderar com folga e, sobretudo, a ditar o ritmo do debate. O recado é direto e indigesto: a eleição em Pernambuco não será passeio, será clássico. E clássico não admite soberba.
Os números são claros e incômodos. João Campos aparece com 47% das intenções de voto, enquanto Raquel Lyra soma 35%. A diferença, que já foi confortável, encolheu para 10 pontos. No levantamento anterior, o prefeito tinha 52% contra 30% da governadora. A trajetória é inequívoca: João desce, Raquel sobe. Quem insiste em tratar isso como “oscilação natural” escolhe fechar os olhos para o movimento real do eleitorado.
A governadora segue ancorada na gestão, com uma aprovação robusta de 61%. O eleitor reconhece esforço, organização e entrega, ainda que Raquel Lyra não tenha conseguido converter plenamente esse capital administrativo em intenção de voto. O desafio é político, não gerencial. Transformar governo em campanha exige narrativa, presença e enfrentamento. E, ainda assim, o dado mais perturbador para o adversário não está no cenário estimulado, mas na espontânea.
Pela primeira vez, Raquel Lyra aparece à frente de João Campos na pesquisa espontânea, aquela que mede o que vem à cabeça do eleitor sem qualquer indução. Ela tem 24%, ele 18%, com 39% ainda indecisos. No levantamento anterior, ambos estavam empatados com 23%. Esse detalhe desmonta o discurso de favoritismo incontestável. A espontânea revela lembrança, pulsação e crescimento orgânico — e ali o vento já não sopra a favor do prefeito.
João Campos ainda larga na frente, impulsionado pelo eleitor do Recife e da Região Metropolitana, pela força das redes sociais e pela memória afetiva do pai, o ex-governador Eduardo Campos, ativo político permanente em sua trajetória. Mas há um limite para viver de herança simbólica. Quando a disputa se nacionaliza no Estado e o interior entra no jogo com mais peso, o conforto diminui. A liderança permanece, sim, mas agora sob vigilância constante.
O favoritismo, apontado pela própria pesquisa, vem acompanhado de uma condição clara: não errar. E errar, em política, não é apenas tropeçar em escândalos, mas subestimar o adversário, atrasar a formação da chapa, hesitar em alianças e acreditar que a vantagem se mantém por inércia. A “gordura” acumulada está sendo queimada em ritmo acelerado, e a largada folgada já ficou para trás.
O Datafolha ouviu 1.022 pessoas entre os dias 2 e 4 de fevereiro, com margem de erro de 3% e grau de confiança de 95%. O levantamento foi divulgado pela CBN Recife, CBN Caruaru e pelo Blog de Elielson, devidamente registrado no TSE. Além de João e Raquel, Eduardo Moura, do Novo, aparece com 5%, e Ivan Moraes, do PSOL, com 1%. Os coadjuvantes seguem distantes, mas o protagonismo do duelo principal está mais afiado do que nunca.
Em Pernambuco, eleições costumam ser clássicos duros, resolvidos no detalhe, na virada, no erro não forçado. A pesquisa não encerra a disputa, mas muda o clima do jogo. Quem lidera parou de sorrir. Quem corre atrás ligou o sinal. E quando o sinal toca, o ataque começa.
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