A chegada da governadora à Casa de Joaquim Nabuco teve simbolismo. Cercada por auxiliares e recebida por parlamentares que a acompanharam da escadaria até o plenário, Raquel mostrou que pretende manter diálogo institucional, mas sem deixar de marcar posição. O gesto ganhou ainda mais peso político diante da ausência de João, que não compareceu à sessão, ampliando o contraste entre posturas num momento considerado decisivo para a relação entre Executivo e Legislativo.
O ambiente na Alepe está longe de ser protocolar. O clima é de tensão crescente, alimentado principalmente pelo pedido de impeachment protocolado pelo deputado Romero Albuquerque (UB). A iniciativa tem como base denúncias sobre supostas irregularidades na prestação de serviço de transporte intermunicipal por uma empresa de ônibus ligada ao pai da governadora. A acusação elevou a temperatura do debate político, embora aliados de Raquel sustentem que não há ilegalidade e classificam o movimento como tentativa de desgaste político.
Mesmo sob esse cenário adverso, a governadora optou por não se esconder atrás de notas oficiais ou articulações reservadas. Sua ida ao Legislativo foi interpretada como demonstração de coragem política e disposição para enfrentar a crise de frente, olhando nos olhos de aliados e adversários. A mensagem implícita foi de que o governo não se considera acuado e seguirá defendendo sua agenda administrativa e suas ações.
Do outro lado da Praça da República, o presidente da Alepe, deputado Álvaro Porto (PSDB), também sinaliza que o Legislativo terá protagonismo. Ainda que os discursos tenham evitado ataques diretos, a leitura geral é de que as falas foram carregadas de recados indiretos, em um jogo político em que cada palavra é medida e cada gesto tem destinatário certo. A sessão deixou no ar a sensação de que o diálogo institucional continuará, mas sob vigilância e com espaço aberto para confrontos mais duros.
A tensão deve aumentar já nesta terça-feira (3), quando a Casa analisará a admissibilidade do pedido de impeachment. O tema promete mobilizar corredores, gabinetes e plenário, testando a base do governo e a força de articulação da oposição. Nesse contexto, a presença de Raquel Lyra na abertura dos trabalhos legislativos não foi apenas um ato protocolar, mas uma declaração política em si: a de que pretende resistir, disputar narrativa e sustentar sua posição mesmo sob forte turbulência.
Ao escolher comparecer e discursar diante de um Parlamento dividido, a governadora transforma um momento de fragilidade em palco de afirmação. A cena que se desenha em Pernambuco é a de uma legislatura que começa sob alta voltagem, com embates duros no horizonte. E, no centro desse tabuleiro, uma governadora que decidiu não baixar a cabeça diante da tempestade.
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