Antes do levantamento, a governadora já vinha operando uma virada estratégica longe dos holofotes eleitorais. As redes sociais deixaram de ser protocolares e passaram a cumprir um papel mais ativo na construção de narrativa. Os eventos ganharam ritmo e organização, os discursos ficaram mais objetivos e a agenda institucional passou a ser tratada com maior controle — movimento que, embora cause desconforto à imprensa, revela uma compreensão mais madura do jogo político contemporâneo. Não é coincidência que essa blindagem da agenda se aproxime do modelo adotado pelo prefeito do Recife, João Campos, seu principal adversário potencial em 2026.
O “depois” da pesquisa começa quando os números colocam João Campos com 47% das intenções de voto e Raquel Lyra com 35%. A diferença permanece significativa, mas o dado mais relevante está na tendência: pela primeira vez, a movimentação da governadora pelo estado parece encontrar eco mensurável junto ao eleitorado. Não se trata de uma virada, mas de um encurtamento simbólico da distância, suficiente para animar o núcleo político do Palácio do Campo das Princesas.
A fala da governadora na véspera da divulgação da pesquisa é reveladora. Ao afirmar que 2026 deve ser encarado como o “primeiro ano dos próximos cinco”, Raquel Lyra rompeu, ainda que de forma sutil, com o discurso estritamente administrativo. Foi um gesto calculado. Não mencionou eleição, não citou adversários, mas lançou a ideia de continuidade como projeto. Em política, isso raramente é acidental.
Esse reposicionamento também ajuda a explicar por que Raquel evita comentar pesquisas, enquanto seu entorno reage com entusiasmo contido. O governo entende que os números não autorizam comemoração, mas sinalizam que a estratégia adotada — mais presença, mais narrativa e menos improviso — começa a produzir efeitos. A antecipação da disputa, embora negada no discurso oficial, já está em curso nos fatos.
Do outro lado, o campo da oposição observa com atenção redobrada. Nos bastidores, aliados de João Campos receberam a pesquisa com cautela. Há quem relativize o impacto, lembrando que outros levantamentos ainda virão e que comparações são necessárias. Ainda assim, o incômodo existe. O crescimento de Raquel Lyra era esperado, mas não tão cedo. E, em política, timing costuma ser tão importante quanto volume.
O cenário que se desenha não é o de uma eleição definida, mas o de um jogo que entrou em nova etapa. A governadora deixou de ser apenas a gestora que busca consolidar um mandato e passou a ser, de forma mais explícita, uma candidata em construção. A pesquisa não muda o tabuleiro, mas altera o ritmo da partida. E, a partir de agora, cada passo, cada fala e cada ausência serão lidos sob a lupa de 2026.
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