segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

USINA DO GRUPO JOÃO SANTOS É APONTADA COMO VÍTIMA DE ESQUEMA BILIONÁRIO ENVOLVENDO O BANCO MASTER

Uma das mais tradicionais unidades industriais do setor sucroenergético do Nordeste voltou ao centro do noticiário nacional após revelações sobre um suposto esquema de fraudes financeiras que teria utilizado créditos judiciais milionários como lastro para operações consideradas irregulares. A Companhia Agroindustrial de Goiana (CAIG), conhecida historicamente como Usina Santa Tereza e integrante do Grupo João Santos, aparece como peça central em uma engrenagem que teria movimentado cifras bilionárias no balanço do Banco Master ao longo da última década.

De acordo com investigações divulgadas pela imprensa nacional, títulos precatórios pertencentes à companhia pernambucana teriam sido utilizados como base para operações financeiras que transformaram usinas em dificuldades econômicas em verdadeiras “fábricas de crédito”. O caso envolve cifras expressivas: um crédito que, originalmente, foi reconhecido em decisão do Supremo Tribunal Federal no valor superior a R$ 983 milhões, teria sido negociado anos depois por menos de 20% do montante devido.

O precatório em questão tem origem em disputas judiciais relacionadas à política de controle de preços exercida durante o regime militar pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool. Nas décadas de 1970 e 1980, o tabelamento do preço do açúcar e do álcool teria provocado distorções que reduziram a remuneração da cana-de-açúcar, gerando perdas bilionárias às usinas em todo o país. Diversas empresas recorreram ao Judiciário, e, anos depois, decisões reconheceram o direito à indenização.

No caso da CAIG, o crédito judicial evoluiu ao longo dos anos e, atualizado, ultrapassa atualmente R$ 1,78 bilhão — valor que constava nos demonstrativos financeiros do banco envolvido. Entretanto, segundo as denúncias, a cessão desses direitos creditórios ocorreu em meio a um cenário de grave crise financeira do grupo empresarial.

Em 2017, quando acumulava dívidas fiscais, trabalhistas e comerciais milionárias, a antiga gestão do conglomerado teria transferido os precatórios a fundos de investimento — Luna, Horizon, Atenas e Dublin — administrados por gestoras privadas. O negócio teria sido fechado por cerca de R$ 171 milhões. Contudo, conforme apontado, apenas R$ 30 milhões teriam efetivamente ingressado nas contas da companhia agroindustrial, sem que os recursos fossem utilizados para quitar débitos relevantes, como salários atrasados e obrigações com fornecedores.

Os administradores desses fundos passaram a ser alvo de investigações conduzidas pela Polícia Federal, com cumprimento de mandados autorizados pela Justiça Federal. O foco das apurações está na estruturação das operações financeiras, na origem dos recursos e na eventual prática de crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.

A atual diretoria do Grupo João Santos sustenta que a empresa foi lesada e tenta reverter judicialmente as cessões realizadas na gestão anterior. A disputa tramita no Tribunal de Justiça de Pernambuco, onde foram protocoladas ações com o objetivo de recuperar a titularidade dos precatórios e impedir a liberação definitiva dos valores atualizados aos envolvidos nas operações.

Especialistas em direito financeiro explicam que precatórios — dívidas reconhecidas judicialmente contra o poder público — podem ser negociados no mercado com deságio. Contudo, alertam que a legalidade dessas transações depende de critérios formais rigorosos, transparência contratual e ausência de vícios de consentimento ou fraude. Quando empresas em recuperação judicial ou em situação de insolvência alienam ativos estratégicos por valores muito abaixo do mercado, o negócio pode ser questionado por credores e pelo próprio Judiciário.

O episódio lança nova luz sobre a derrocada de um grupo que, por décadas, figurou entre os maiores complexos industriais do Norte-Nordeste, com atuação nos setores de cimento, açúcar, etanol e comunicação. O caso também amplia o debate sobre a securitização de créditos judiciais e os riscos de sua utilização como instrumento de engenharia financeira em operações de alta complexidade.

Enquanto as investigações avançam, o desfecho jurídico poderá redefinir o destino de um crédito bilionário e estabelecer precedentes relevantes para o mercado financeiro e para empresas que buscam capitalizar ativos judiciais em momentos de crise.

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