quinta-feira, 5 de março de 2026

CÂMARA APROVA PEC DA SEGURANÇA COM 487 VOTOS E PROJETO RELATADO POR MENDONÇA FILHO ENDURECE REGRAS CONTRA CRIME ORGANIZADO, FEMINICÍDIO E PEDOFILIA

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta-feira (4), um dos projetos mais amplos de mudança na área de segurança pública das últimas décadas. Por expressivos 487 votos favoráveis, os parlamentares deram aval ao relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, relatada pelo deputado federal Mendonça Filho. A proposta estabelece um conjunto de novas regras voltadas ao endurecimento penal contra criminosos considerados de alta periculosidade e também promove mudanças estruturais no modelo de segurança pública do país.

O texto aprovado cria um regime especial de combate ao crime organizado e estabelece mecanismos para reforçar o direito das vítimas à Justiça, princípio que passa a nortear a política criminal proposta. Entre os principais alvos das novas medidas estão líderes e integrantes de facções criminosas, milícias, redes de pedofilia, traficantes de pessoas e autores de crimes violentos como o feminicídio.

Segundo Mendonça Filho, a proposta representa uma mudança profunda na forma como o Estado brasileiro enfrenta a criminalidade. O parlamentar destacou que a reforma busca corrigir uma percepção que, segundo ele, se consolidou ao longo dos anos. “A PEC promove a maior reforma do sistema de segurança pública já discutida no país. De um lado protege a sociedade e a vítima, do outro endurece com quem comete crimes graves. Precisamos acabar com a lógica de que no Brasil o crime compensa”, afirmou.

O substitutivo apresentado pelo relator foi estruturado em quatro grandes pilares: política criminal, sistema policial, sistema prisional e política de segurança pública. Cada eixo estabelece novas diretrizes para reforçar o combate à criminalidade e melhorar a articulação entre os entes federativos.

No campo da política criminal, a proposta prevê o endurecimento das penas para crimes classificados como de alta periculosidade ou alta lesividade social. Entre as mudanças está a possibilidade de reduzir drasticamente ou até eliminar a progressão de regime para determinados crimes. Além disso, a proposta autoriza que suspeitos desses delitos sejam encaminhados diretamente para presídios de segurança máxima, inclusive em casos de prisão preventiva.

Outro ponto que chama atenção no texto aprovado é a restrição à soltura em audiências de custódia para crimes considerados mais graves. A PEC também prevê a apreensão de bens e valores obtidos de forma ilícita por organizações criminosas, com a destinação desses recursos para fundos voltados ao fortalecimento da segurança pública.

Um dos mecanismos considerados inovadores na proposta é a criação de um programa especial de denúncias, inspirado em modelos adotados em outros países. O sistema prevê proteção e até compensação financeira para cidadãos que denunciem atividades criminosas, especialmente quando envolvem facções, redes digitais de exploração infantil, tráfico humano ou grupos armados organizados. O benefício poderá se estender aos familiares do denunciante, ampliando as garantias de segurança.

No eixo da política de segurança pública, o texto promove uma mudança importante ao constitucionalizar diretrizes para a área, estabelecendo que a cooperação entre União, estados, Distrito Federal e municípios passe a ser regra. A ideia é fortalecer a integração entre as diferentes forças de segurança e ampliar as fontes de financiamento para fundos voltados ao setor.

A proposta também abre caminho para a criação de polícias municipais com atuação comunitária, voltadas para a segurança cotidiana da população, como patrulhamento local e prevenção de pequenos delitos. Com isso, segundo o relatório, as polícias estaduais e federais poderiam concentrar seus esforços no combate a crimes mais complexos, como organizações criminosas e delitos violentos.

O texto ainda amplia as atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, fortalecendo a atuação dessas instituições na investigação e repressão de crimes organizados que atuam em escala interestadual ou nacional.

Outro eixo relevante trata do sistema prisional. A PEC autoriza os estados a estabelecer regras disciplinares próprias para a gestão de presos dentro das unidades prisionais, buscando maior controle sobre facções que atuam dentro dos presídios. O relatório também prevê a suspensão dos direitos políticos de presos provisórios, medida que, segundo Mendonça Filho, pretende impedir que facções utilizem a população carcerária para influenciar processos eleitorais por meio de coerção.

De acordo com o relator, o texto aprovado foi resultado de uma série de debates com especialistas, representantes das forças de segurança, juristas e parlamentares de diferentes partidos. O relatório alterou pontos centrais da proposta original enviada ao Congresso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que priorizava a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e previa maior coordenação federal das ações de segurança.

A versão aprovada na Câmara aposta em um modelo de governança federativa mais articulada, com cooperação entre diferentes instituições e fortalecimento das estruturas locais de segurança. Além da repressão ao crime, o texto busca criar instrumentos para enfraquecer financeiramente as facções criminosas e ampliar a responsabilização de agentes públicos envolvidos em corrupção.

Com a aprovação expressiva no plenário, a PEC agora segue para análise no Senado Federal. Caso também seja aprovada pelos senadores, a proposta poderá representar uma das maiores mudanças constitucionais já realizadas na política de segurança pública do país, redefinindo a atuação do Estado no enfrentamento ao crime organizado e na proteção das vítimas.

Nenhum comentário: