Por Greovário Nicollas.
O cálculo é simples e duro, quando se observa a disputa pelo Senado em Pernambuco. A matemática eleitoral indica que cerca de 45% do eleitorado tende a concentrar seus votos entre a direita e o centro. Na eleição mais recente, a direita alcançou aproximadamente 30%, enquanto o centro ainda reuniu outros 10% a 15%. Esse dado, por si só, já impõe uma barreira significativa para qualquer projeto que pretenda eleger dois nomes do mesmo campo ideológico à esquerda.
Em uma eleição com duas vagas para o Senado, a conta se torna ainda mais complexa. Em um país cada vez mais polarizado de norte a sul, a divisão do eleitorado torna improvável que um único campo político consiga ocupar os dois espaços disponíveis sem enfrentar forte concorrência dos demais blocos.
Nesse contexto, a chapa anunciada pelo prefeito do Recife, João Campos, chama atenção. A composição prevê o senador Humberto Costa em busca da reeleição e a ex-deputada federal Marília Arraes disputando a segunda vaga. No papel, a estratégia busca consolidar a força do campo progressista. Na prática, porém, pode produzir o efeito inverso: dividir votos e abrir espaço para adversários.
Há quem enxergue, inclusive, uma lógica política menos evidente nessa equação. Nos bastidores, não é segredo que o Partido Socialista Brasileiro jamais teve uma relação plenamente harmoniosa com o Partido dos Trabalhadores em Pernambuco. Assim, para alguns analistas, a movimentação poderia acabar empurrando Humberto Costa para uma disputa mais difícil, algo que, silenciosamente, setores do PSB não veriam com desgosto.
Do outro lado do tabuleiro aparece a governadora Raquel Lyra. Com índices de aprovação que superam a marca dos 60%, seu grupo político tende a concentrar o eleitorado de centro e de direita. Em um cenário de polarização, isso pode resultar em uma transferência natural de votos para os candidatos ao Senado que estejam alinhados com seu palanque.
Se essa dinâmica se confirmar, a eleição tende a se transformar em uma disputa fortemente polarizada, na qual os dois nomes apoiados pela governadora poderiam capturar a maior parte do eleitorado que não se identifica com a esquerda.
A grande questão, portanto, está na pressa de João Campos em assegurar o apoio de Marília Arraes. A decisão, que busca consolidar alianças antecipadamente, pode acabar produzindo um efeito adverso ao planejado, fragmentando votos em um campo político que já enfrenta limitações matemáticas para conquistar duas vagas.
No Partido dos Trabalhadores, a apreensão é evidente. Afinal, Humberto Costa é hoje considerado por muitos observadores o político mais habilidoso de Pernambuco em atividade. Experiente, conhece profundamente o funcionamento das engrenagens eleitorais e do jogo político.
Aliados próximos do senador, no entanto, adotam cautela. Como costuma ocorrer na política pernambucana, lembram que o cenário ainda está longe de estar definido. Até a abertura oficial da campanha, muita coisa pode acontecer, inclusive nada.
*Articulista, Periodista e Colaborador do Blog do Edney*
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