terça-feira, 24 de março de 2026

PERNAMBUCO E O FANTASMA DAS FAMÍLIAS NO PODER

Por Greovário Nicollas 

Quando se fala em democracia, a imagem que vem à mente é a de pluralidade, renovação e oportunidade para novas vozes. Mas em Pernambuco, essa fantasia encontra um muro de concreto: a política ainda é, em grande parte, território das famílias tradicionais. E ninguém encarna melhor esse fenômeno do que João Campos, neto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos, que agora se lança à pré-candidatura ao governo do estado.

Não se trata de um jovem político buscando espaço. Trata-se da continuidade de um ciclo hereditário que atravessa gerações, se infiltrando em todos os cantos do poder estadual. A máquina política da família Campos‑Arraes não é apenas influente, é capilar, onipresente e praticamente imbatível em certos setores. Pergunta-se: isso é democracia ou um reino disfarçado de pluralidade?

João Campos pode falar em modernização, gestão eficiente e juventude. Mas o que a modernidade significa quando as decisões políticas ainda passam pelas mãos de uma mesma linhagem que já controla Pernambuco há décadas? Quando o debate político não é sobre ideias novas, mas sobre quem carrega o sobrenome certo?

O Brasil, é claro, está acostumado a esse espetáculo de hereditariedade política — de Tancredo a Collor, de Sarney a Maluf. Mas a capilaridade da influência arraisiana é impressionante. Prefeitos, vereadores, deputados, secretários: muitos têm suas carreiras pavimentadas ou pelo sobrenome, ou pela proximidade com ele.

E o eleitor? Entre o discurso de inovação e o peso da tradição familiar, ele é constantemente convidado a escolher entre “o novo” e “o velho que nunca sai de cena”. A pergunta que fica é simples: uma democracia plural sobrevive quando o poder se herda como se fosse patrimônio de família?

Em resumo, João Campos não é apenas mais um candidato. Ele é a prova viva de que, em Pernambuco, a política ainda brinca de herança, enquanto a democracia assiste à margem, impotente. E como diz o ditado, com algumas famílias: não se teima, não se brinca.

— Greovário Nicollas

Nenhum comentário: