Por Greovário Nicollas
Há episódios que não apenas chamam atenção — eles escancaram estratégias. O recente embate protagonizado pelo deputado estadual Romero Albuquerque contra o vereador Eduardo Moura, na Câmara do Recife, não parece ter sido um simples rompante emocional. Pelo contrário: há sinais claros de cálculo político, daqueles friamente desenhados para gerar manchete, reação e, quem sabe, consequências mais graves.
Ao deixar sua função na Assembleia Legislativa — onde exercia, inclusive, a relatoria de comissão — Romero Albuquerque não apenas cruzou uma linha institucional. Ele pode ter cruzado também uma linha ética. A movimentação, ao que tudo indica, buscava pegar carona na repercussão das denúncias levantadas por Eduardo Moura, que vinham ganhando tração política e visibilidade.
E mais: o roteiro sugere algo ainda mais preocupante — a tentativa de criar um ambiente de tensão proposital dentro do plenário, uma espécie de armadilha política. A lógica seria simples e perigosa: provocar até o limite, forçar uma reação mais dura do vereador e, a partir daí, construir a narrativa de quebra de decoro que pudesse abrir caminho para um processo de cassação.
Se essa leitura estiver correta, estamos diante de um jogo baixo. Muito baixo. Não se trata mais de debate político, divergência ou defesa de aliados como o agora ex-prefeito e pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos. Trata-se de instrumentalizar o próprio ambiente legislativo como palco de emboscada institucional.
O mais grave é que esse tipo de prática corrói a essência da democracia. O parlamento deixa de ser espaço de confronto de ideias para se transformar em terreno de armadilhas. A crítica — elemento essencial em qualquer regime democrático — passa a ser tratada como algo a ser neutralizado não no campo argumentativo, mas no campo da desestabilização pessoal e política.
Ao tentar surfar na popularidade das denúncias de Eduardo Moura, Romero Albuquerque corre o risco de sair menor do que entrou. Porque, no fim das contas, a população percebe quando o debate é legítimo — e quando é encenado.
Agora, com João Campos fora da Prefeitura do Recife e já posicionado como candidato ao Governo do Estado, o episódio ganha contornos ainda mais amplos. O que antes parecia uma defesa localizada passa a ter implicações eleitorais diretas, levantando dúvidas sobre até onde vai o limite entre lealdade política e uso indevido das instituições.
A política pode até ter seus jogos, mas quando a estratégia substitui a integridade, o resultado costuma ser o descrédito. E não há projeto de poder que se sustente quando a confiança pública começa a ruir.
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