domingo, 5 de abril de 2026

ENGENHEIRO DESAFIA A LÓGICA DO MERCADO E LEVA FORD VERONA A MAIS DE 1 MILHÃO DE KM COM CUSTO SURPREENDENTE

Creso Peixoto, engenheiro civil com mestrado em Transportes, professor em quatro cidades do interior paulista e piloto de pequenas aeronaves, tem o perfil de quem documenta tudo com precisão. Quando adquiriu um Ford Verona GLX 1990, em 1992, manteve um diário de bordo com todos os gastos e serviços feitos no veículo, assim como fazia com os aviões. A ideia original era simples: rodar até 200 mil quilômetros, trocar de carro e seguir em frente. Mas decidiu manter o Verona até os 500 mil km para verificar se a curva de manutenção subiria muito, o que não ocorreu. Então iniciou um novo desafio e resolveu rodar com ele até o hodômetro alcançar 1 milhão de quilômetros. Como ele mesmo resumiu: "Eu queria conhecer a evolução dos custos."

Com quatro empregos em cidades diferentes e uma rotina de deslocamentos intensos, Creso rodava cerca de 4 mil quilômetros por mês, principalmente em rodovias, e encerrou o projeto ao alcançar 1.077.948 km no hodômetro. Os números acumulados ao longo de 27 anos impressionam por sua precisão: o Verona consumiu quase 100 mil litros de etanol, 235 litros de óleo no motor, fez 46 trocas de pneus em duplas e passou por revisões a cada seis meses com o mesmo mecânico. O motor original do carro passou por duas retíficas, aos 247 mil e aos 531 mil quilômetros, mas continuou funcionando bem até o final. O custo total calculado pelo próprio Creso foi de US$ 0,14 por quilômetro rodado, totalizando aproximadamente R$ 810 mil ao longo de todo o período, incluindo combustível, peças e manutenção.

A história chamou atenção muito além do círculo de entusiastas. Como reconhecimento a essa lealdade, Creso Peixoto foi recebido pelo presidente da Ford América do Sul, Lyle Watters, na sede da empresa em São Paulo e presenteado com uma placa em homenagem ao marco de 1 milhão de quilômetros. O Verona era um produto da era Autolatina, a joint venture entre Ford e Volkswagen, equipado com o motor AP 1.8 de origem Volkswagen. Ver aquele motor ultrapassar a casa do milhão de quilômetros com apenas duas retíficas no motor original foi algo que a própria montadora não esperava comprovar tão concretamente.

Apesar de todo o feito, Creso considerava aposentar o Verona, reconhecendo que a falta de recursos modernos de segurança, como airbags e proteção a colisões, pesava na decisão. Depois de encerrar o experimento com o Verona, ele passou a acompanhar o Hyundai HB20S 2014 de sua esposa, com o objetivo de atingir 300 mil quilômetros e comparar custos e desempenho com as tecnologias mais modernas. A conclusão que ficou de tudo isso é simples e contraintuitiva: num mercado que empurra o consumidor a trocar de carro a cada poucos anos, um Ford Verona de 1990, com motor Volkswagen, manutenção rigorosa e um dono que documentava cada litro de etanol abastecido, provou que a equação pode ser completamente diferente.

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