NA LUPA ESPECIAL: A HISTÓRIA DA FERREIRA COSTA, O GIGANTE QUE NASCEU EM GARANHUNS E CONQUISTOU O NORDESTE
Existem empresas que vendem produtos. E existem empresas que contam a própria história de um povo. A Ferreira Costa é uma delas.
Quem passa hoje pelas enormes lojas da rede, corredores gigantescos, milhares de produtos e estruturas modernas talvez nem imagine que tudo começou de forma simples, dentro de um pequeno armazém em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, ainda no século XIX.
Muito antes de existir o conceito de Home Center, antes da tecnologia dominar o varejo e antes do Nordeste viver o crescimento econômico das últimas décadas, um português chamado João Ferreira da Costa decidiu apostar em trabalho, coragem e visão de futuro.
Era 1884.
Naquela época, Garanhuns ainda crescia lentamente, impulsionada pelo comércio regional e pela força da agricultura. Foi nesse cenário que João Ferreira abriu um pequeno estabelecimento para vender ferragens, ferramentas e utensílios domésticos. Um comércio modesto, daqueles construídos na base da confiança, da palavra e do atendimento próximo.
Sem imaginar, ele estava iniciando uma das histórias empresariais mais importantes do Nordeste brasileiro.
Décadas depois, a história da empresa ganharia um personagem decisivo: Cyro Ferreira da Costa.
Filho de João Ferreira da Costa, Cyro cresceu praticamente dentro do comércio da família. Começou a trabalhar ainda muito jovem, por necessidade e também por compromisso com o legado construído pelo pai.
Quem conviveu com ele costumava dizer que Cyro tinha um olhar diferente. Enquanto muitos empresários da época enxergavam apenas uma loja de ferragens, ele enxergava futuro.
E foi exatamente isso que ele construiu.
Ao assumir a presidência da empresa em 1947, após a morte do pai, Cyro começou um processo silencioso — mas extremamente ousado — de modernização da Ferreira Costa.
Ele ampliou setores, diversificou produtos e transformou um antigo armazém familiar em uma empresa preparada para competir em um mercado que mudava rapidamente.
Uma das características mais marcantes de Cyro Ferreira era sua capacidade de pensar à frente do tempo.
Na década de 1970, quando poucas empresas do Nordeste utilizavam sistemas informatizados, a Ferreira Costa já implantava computadores na contabilidade. Para a realidade do interior pernambucano daquela época, aquilo parecia algo quase inimaginável.
Mas Cyro entendia que crescer exigia modernização.
Anos depois, em 1989, veio outra decisão revolucionária: a construção da nova sede da empresa em Garanhuns dentro do conceito de auto-serviço, modelo que ainda engatinhava no Brasil.
O cliente passou a circular livremente pelos corredores, escolhendo produtos diretamente das prateleiras. Hoje isso parece comum, mas naquele período era inovação pura.
E talvez esteja justamente aí um dos maiores segredos da Ferreira Costa: nunca abandonar suas raízes, mas nunca ter medo de mudar.
O crescimento da empresa acompanhou também o crescimento econômico do Nordeste.
Depois de consolidar sua força no Agreste pernambucano, a Ferreira Costa iniciou uma expansão que mudaria completamente o tamanho da marca.
A chegada ao Recife, em 1995, colocou a empresa definitivamente entre as gigantes do varejo nordestino. Depois vieram Salvador, Aracaju, João Pessoa e Natal.
Hoje, a Ferreira Costa está presente em cinco estados — Pernambuco, Bahia, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte — oferecendo mais de 80 mil itens para construção, decoração, utilidades e tecnologia.
Mais do que vender produtos, a empresa se transformou em referência de experiência de compra no Nordeste.
UMA EMPRESA QUE CARREGA A IDENTIDADE NORDESTINA
Talvez o aspecto mais interessante da história da Ferreira Costa seja justamente o fato de ela nunca ter perdido sua identidade regional.
Mesmo crescendo nacionalmente e ocupando hoje posição de destaque entre as maiores empresas de material de construção do Brasil, a essência construída em Garanhuns continua viva.
A empresa mantém forte ligação com Pernambuco, valoriza sua origem familiar e carrega uma cultura empresarial muito associada ao trabalho, proximidade e respeito às pessoas.
Cyro Ferreira costumava defender valores como disciplina, persistência e humildade. Sua frase mais conhecida — “insistir, persistir e nunca desistir” — acabou virando símbolo interno da companhia.
Em 2023, Cyro Ferreira da Costa partiu aos 92 anos.
Sua morte repercutiu muito além do meio empresarial porque ele representava uma geração de empreendedores que ajudou a transformar o Nordeste com visão, coragem e trabalho.
Mas algumas pessoas deixam algo maior que patrimônio.
Deixam legado.
E talvez o maior legado de Cyro tenha sido provar que uma empresa nascida no interior do Agreste pernambucano poderia conquistar o Nordeste inteiro sem perder sua alma.
Mais de 140 anos depois daquele pequeno armazém fundado em Garanhuns, a Ferreira Costa segue crescendo, atravessando gerações e mostrando que grandes histórias não começam necessariamente nas capitais.
Às vezes, começam numa pequena loja do interior, construída com coragem, esforço e visão de futuro.
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