sexta-feira, 22 de maio de 2026

TRANSNORDESTINA VIRA NOVO CABO DE GUERRA ENTRE RAQUEL LYRA E TCU APÓS SUSPENSÃO DE CONTRATO MILIONÁRIO

A disputa em torno da retomada da Transnordestina em Pernambuco ganhou novos capítulos e elevou a tensão entre o Governo do Estado, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Governo Federal. Em meio à suspensão de novos compromissos financeiros relacionados ao trecho pernambucano da ferrovia, a governadora Raquel Lyra reagiu publicamente e afirmou que sequer teve acesso ao estudo técnico usado pelo tribunal para questionar a viabilidade econômica da ligação entre Salgueiro e o Porto de Suape.

A declaração foi dada nesta quinta-feira (21), durante agenda oficial de anúncios de investimentos em abastecimento de água e saneamento na Região Metropolitana do Recife. O posicionamento da governadora veio após o TCU determinar a suspensão de novos atos financeiros ligados ao projeto até que sejam apresentados estudos atualizados sobre a viabilidade técnica, econômica e ambiental do trecho ferroviário.

Segundo Raquel, o questionamento do tribunal se baseia em um parecer elaborado pela consultoria Mackenzie, documento que, de acordo com ela, não foi disponibilizado ao Governo de Pernambuco. A governadora criticou o foco exclusivo na rentabilidade direta da obra e defendeu que a Transnordestina precisa ser tratada como uma infraestrutura estratégica de integração nacional.

Na avaliação da chefe do Executivo estadual, a discussão vai muito além do lucro operacional de uma ferrovia. Para ela, o projeto representa uma peça-chave na reorganização logística do Nordeste e na ampliação da competitividade de Pernambuco diante de outros estados brasileiros.

Raquel Lyra destacou que a conexão entre o Sertão pernambucano e o Porto de Suape poderá transformar o estado em um corredor logístico nacional, ligando a produção agrícola e industrial do Centro-Oeste e do Vale do São Francisco à costa atlântica. A governadora também ressaltou a importância da integração com a Ferrovia Norte-Sul, considerada uma das principais espinhas dorsais do transporte ferroviário brasileiro.

Enquanto o embate técnico se intensifica, o Governo Federal já se movimenta para tentar destravar o processo. A União entrou com embargos de declaração no TCU buscando esclarecer que a decisão da corte impediria apenas novas contratações futuras, e não a assinatura do contrato já concluído da retomada das obras em Pernambuco.

Segundo Raquel, o objetivo é garantir segurança jurídica para que o contrato possa ser formalizado nos próximos dias na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A assinatura estava prevista inicialmente para esta semana, em Brasília, mas acabou sendo adiada após solicitação do Palácio do Planalto.

O contrato em questão envolve R$ 312,8 milhões e será executado pela empresa portuguesa Alberto Couto Alves, vencedora da licitação promovida pelo Governo Federal. O lote prevê a elaboração dos projetos executivos e a execução das obras de infraestrutura em um trecho de 73 quilômetros entre os municípios de Custódia e Arcoverde, no Agreste pernambucano.

A retomada da Transnordestina em Pernambuco ocorre após anos de paralisação e incertezas. O ramal estadual está praticamente abandonado há mais de uma década e sofreu um duro golpe em 2022, quando a concessionária Transnordestina Logística S.A. formalizou a devolução do trecho pernambucano ao Governo Federal. A empresa optou por priorizar o eixo ferroviário entre Piauí e Ceará, deixando Pernambuco fora do planejamento operacional da concessionária.

Desde então, o governo pernambucano intensificou a pressão política em Brasília para garantir que o estado não fosse excluído definitivamente do traçado da ferrovia. A defesa da retomada ganhou reforço nesta semana com a atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, que entregou ao Ministério dos Transportes uma nota técnica sustentando a viabilidade econômica do trecho entre Salgueiro e Suape.

O documento produzido pela Sudene busca justamente confrontar os argumentos levantados pelo TCU e fortalecer a defesa institucional da continuidade dos investimentos. Técnicos ligados ao desenvolvimento regional argumentam que o impacto econômico da Transnordestina não pode ser medido apenas pela operação ferroviária isolada, mas sim pelo potencial de atração industrial, geração de empregos, ampliação da competitividade logística e fortalecimento do Porto de Suape.

Nos bastidores políticos, o episódio também evidencia o peso estratégico da Transnordestina para o futuro econômico de Pernambuco. O projeto passou a ser tratado pelo Palácio do Campo das Princesas como uma das principais bandeiras estruturadoras da gestão Raquel Lyra, sobretudo diante da disputa política em torno do protagonismo regional no Nordeste.

A expectativa agora gira em torno da análise dos embargos apresentados pela União e da possível assinatura do contrato ainda na próxima semana. Caso o impasse seja superado, Pernambuco poderá finalmente assistir à retomada de um empreendimento que há anos simboliza promessas interrompidas, bilhões represados e uma disputa permanente entre desenvolvimento regional, burocracia técnica e interesses econômicos.

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