Greovário Nicollas.
Nos últimos meses, parte da oposição em Pernambuco tem intensificado os ataques à gestão da governadora Raquel Lyra. Entretanto, chama atenção a dificuldade do PSB em lidar com a própria herança administrativa, especialmente na área da saúde pública, um dos setores mais sensíveis para a população pernambucana.
Hospitais tradicionais como o Getúlio Vargas, o Barão de Lucena e o Hospital da Restauração atravessaram sucessivos governos socialistas sem que fossem realizadas, segundo críticos, reformas estruturais compatíveis com as necessidades dessas unidades. São equipamentos fundamentais para a rede estadual que, ao longo dos anos, acumularam problemas de infraestrutura amplamente conhecidos pelos usuários do sistema público de saúde.
Agora, com apenas três anos e meio de gestão, o atual governo assumiu o desafio de promover intervenções nessas unidades, além de ampliar a oferta de equipamentos de diagnóstico, leitos hospitalares e blocos cirúrgicos. Trata-se de uma agenda que vem sendo destacada pelo governo estadual como uma das prioridades da administração. Diante desse cenário, a estratégia de concentrar o discurso político exclusivamente em críticas à atual gestão parece cada vez menos eficaz. A impressão que fica é a de que alguns setores do PSB apostam na ideia de que o eleitor pernambucano possui uma espécie de amnésia seletiva, esquecendo facilmente quais grupos políticos comandaram o Estado durante os últimos anos.
Basta acompanhar os noticiários para perceber que a saúde pública continua sendo alvo de investimentos e ações que buscam melhorar tanto a infraestrutura quanto o abastecimento de insumos e a capacidade de atendimento. Evidentemente, desafios permanecem, mas é impossível ignorar que mudanças estão em curso. Não se trata de defesa partidária. Trata-se de reconhecer a realidade. Não é necessário ser eleitor de Raquel Lyra nem adversário de João Campos para admitir que a coerência deveria ser um elemento central do debate político.
Talvez uma das dificuldades enfrentadas pela pré-campanha socialista esteja justamente na forma como foi estruturada. Ao que parece, o PSB optou por reduzir o espaço de figuras experientes que participaram de campanhas vitoriosas do passado, desde os tempos de Eduardo Campos até períodos mais recentes da gestão Paulo Câmara. A política, afinal, não é feita apenas de renovação. É também construída pela experiência acumulada. Governar um estado complexo como Pernambuco exige conhecimento profundo das diversas realidades regionais, especialmente do Agreste e do Sertão.
Há uma percepção crescente de que parte do núcleo político que conduz a pré-campanha socialista possui pouca vivência eleitoral fora da Região Metropolitana do Recife. Muitos ainda estão construindo relações políticas no interior e conhecendo lideranças locais que há décadas influenciam os rumos da política pernambucana. Os reflexos dessa estratégia começam a aparecer nos levantamentos de opinião. Pesquisas divulgadas por diferentes institutos apontam oscilações que indicam a necessidade de revisão de rota. Mais do que números, os sinais emitidos pelo eleitorado parecem demonstrar que algo não está funcionando como o esperado.
Desprezar a experiência acumulada dentro do próprio partido pode se revelar um erro estratégico. Da mesma forma, apontar falhas que também carregam a marca de administrações anteriores do PSB corre o risco de transformar o discurso político em uma grande contradição. A realidade política costuma ser implacável com aqueles que ignoram seus sinais. E os sinais estão postos. A cada pesquisa quantitativa e a cada levantamento qualitativo, cresce a impressão de que o PSB pernambucano vive uma espécie de fantasia política, distante dos fatos e da percepção de parte significativa da população.
A pergunta que fica é simples: o partido não está conseguindo ler o que acontece nas ruas ou simplesmente escolheu não enxergar?
*Articulista, Periodista e a colaborador do Blog do Edney.
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