quinta-feira, 30 de julho de 2026

PREFEITURA DO RECIFE ENTRA NA MIRA DA JUSTIÇA ELEITORAL POR CAMPANHA PUBLICITÁRIA COM OBRAS DE JOÃO CAMPOS

A campanha institucional da Prefeitura do Recife intitulada "Faz gosto mostrar pro mundo" passou a ocupar o centro de uma investigação da Justiça Eleitoral após surgirem fortes indícios de que a publicidade oficial possa ter extrapolado os limites da promoção turística para favorecer politicamente o ex-prefeito João Campos (PSB), hoje pré-candidato ao Governo de Pernambuco.

Ao analisar o caso, o desembargador eleitoral Fernando Braga Damasceno reconheceu a existência de "séria suspeita de irregularidade", entendimento que reforçou a ação movida pelo PSD no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). A principal dúvida levantada é que, embora financiada pela Secretaria de Turismo e Lazer do Recife, a campanha não priorizou os tradicionais atrativos turísticos da capital, como praias, centros históricos, gastronomia ou eventos culturais.

Em vez disso, os outdoors espalhados por municípios do interior do Estado exibiam imagens de pontes, parques, praças e outras obras executadas durante a gestão de João Campos. As peças foram identificadas em cidades como Caruaru, Vitória de Santo Antão e Sairé, todas utilizando a identidade visual oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Turismo, mas destacando exclusivamente intervenções administrativas realizadas pelo então prefeito.

Na avaliação apresentada à Justiça, o magistrado observou que uma campanha genuinamente voltada à promoção do turismo dificilmente deixaria de alcançar mercados estratégicos, como João Pessoa, Natal e Maceió, concentrando sua divulgação justamente em cidades pernambucanas onde o ex-prefeito busca ampliar sua projeção política.

Outro ponto que passou a chamar atenção é a movimentação orçamentária realizada em maio deste ano. Pouco mais de um mês após João Campos deixar o comando da Prefeitura para disputar o Governo do Estado, a Secretaria de Turismo e Lazer recebeu reforço financeiro por meio do remanejamento de recursos originalmente destinados ao pagamento de pensionistas e inativos do sistema previdenciário municipal.

Segundo a representação apresentada pelo PSD, o atual prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), teria autorizado e mantido a continuidade da campanha institucional, enquanto João Campos figuraria como o principal beneficiário político da iniciativa.

O tema já vinha sendo acompanhado antes mesmo da manifestação da Justiça Eleitoral. O jornalista Manoel Medeiros havia levantado questionamentos sobre o uso da publicidade institucional da Secretaria de Turismo para promoção de caráter político. Levantamento publicado anteriormente apontou ainda que as campanhas publicitárias da pasta já consumiram mais de R$ 19 milhões apenas no primeiro semestre de 2026, ultrapassando o valor originalmente previsto na Lei Orçamentária Anual para essa rubrica.

Diante dos indícios apresentados, o TRE-PE determinou que a Prefeitura do Recife e a Secretaria de Turismo e Lazer encaminhem, no prazo de cinco dias, toda a documentação relacionada à campanha. Entre os documentos exigidos estão contratos, planos de mídia, notas fiscais, relação dos municípios contemplados e a identificação dos agentes públicos responsáveis pela autorização e execução da publicidade. A Corte também determinou a preservação de e-mails, vídeos, arquivos digitais e respectivos metadados ligados à ação.

Por enquanto, o Tribunal ainda não decidiu sobre a retirada imediata dos outdoors, optando por aguardar as manifestações dos órgãos envolvidos. Paralelamente, o PSD solicita que a investigação avance para apurar eventual abuso de poder político, hipótese que, caso comprovada ao final do processo, poderá resultar em pedido de inelegibilidade dos responsáveis.


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