Por trás do anúncio do maior hospital público do Nordeste, uma pergunta básica precisa ser feita: João Campos já é governador de Pernambuco?
O primeiro dia oficial da campanha eleitoral começou com um anúncio de peso feito por João Campos (PSB): quatro novos hospitais para Pernambuco, incluindo o chamado Hospital Geral Metropolitano, projetado para ter 900 leitos, cinco mil profissionais e investimento estimado em R$ 750 milhões, em parceria com o Governo Federal.
A proposta é grandiosa. O problema não está em querer construir hospitais. Pernambuco precisa, sim, ampliar sua rede de saúde, abrir leitos, reduzir filas e descentralizar atendimentos. A questão é outra — e ninguém deveria ter medo de fazê-la:
João Campos não é governador de Pernambuco. Ainda não foi eleito. Não tem mandato estadual. Então, quem vai construir?
É importante colocar os pingos nos “is”.
O que foi apresentado neste domingo é uma proposta de campanha, não uma obra em execução. Não há, neste momento, governador João Campos assinando ordem de serviço, lançando licitação ou colocando máquinas no terreno. Ele está apresentando aquilo que pretende fazer caso o eleitor pernambucano lhe entregue o comando do Estado.
E essa diferença não é pequena.
Uma coisa é anunciar uma intenção. Outra, completamente diferente, é transformar uma promessa em obra pública.
Entre o discurso e a inauguração existe um caminho longo: projeto executivo, estudos técnicos, definição da área, licenciamento, orçamento, fonte de recursos, licitação, contratação, execução e, finalmente, funcionamento da unidade.
E quando se fala em um hospital de 900 leitos e R$ 750 milhões, não estamos falando de pintar uma praça ou construir uma pequena unidade de saúde.
Estamos falando de um empreendimento gigantesco.
O próprio material divulgado pela campanha coloca o Hospital Geral Metropolitano como uma unidade que deverá superar, em capacidade instalada, o Hospital da Restauração. A promessa é de centro de trauma, UTIs, centro cirúrgico de alta capacidade, diagnóstico por imagem e atendimento de alta complexidade.
Tudo muito bonito no papel.
Mas campanha eleitoral é justamente o momento em que o eleitor precisa perguntar: como será feito? Quando será feito? Com qual dinheiro? Em quanto tempo? E quem vai pagar a conta?
João Campos também apresentou propostas para Caruaru, Araripina e Petrolina, com mais 500 leitos no interior e investimento anunciado de R$ 500 milhões. Em Caruaru, também falou em reformar e reabrir o Hospital Jesus Nazareno e reestruturar o Hospital Geral do Agreste.
São compromissos eleitorais relevantes.
Mas continuam sendo compromissos eleitorais.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto político mais interessante desse anúncio.
João Campos começou sua campanha apresentando o Pernambuco que pretende construir caso seja eleito.
Não é errado.
Mas também não pode ser vendido ao eleitor como se as obras já estivessem contratadas ou como se ele tivesse atualmente a caneta do Palácio do Campo das Princesas.
Não tem.
A caneta, hoje, pertence à governadora Raquel Lyra.
João Campos deixou a Prefeitura do Recife para disputar o Governo de Pernambuco e agora começa oficialmente uma corrida eleitoral que só será decidida pelo eleitor. Portanto, antes de apresentar grandes obras como futuro gestor, terá primeiro que conquistar o direito de executá-las.
E esse detalhe parece pequeno, mas é fundamental.
Porque Pernambuco já conhece muito bem o discurso de grandes anúncios.
O eleitor precisa aprender a diferenciar anúncio de campanha, promessa de governo, projeto pronto, obra licitada e obra entregue.
São cinco coisas completamente diferentes.
O anúncio de João Campos pode ser politicamente forte, pode render manchetes e pode estabelecer uma agenda para a campanha. Mas a pergunta que fica para o candidato é simples e direta:
João, se o senhor ainda não é governador, por que anunciar como se já estivesse governando?
A resposta provavelmente virá na forma de uma frase: “é o que faremos se o povo nos der a oportunidade”.
E essa é justamente a resposta correta.
Porque, até outubro, hospital não será construído.
Até outubro, não haverá 900 leitos novos.
Até outubro, não haverá cinco mil profissionais contratados para esse hospital.
Até outubro, não haverá R$ 750 milhões aplicados nessa obra.
Haverá uma eleição.
E somente depois dela é que o vencedor terá a responsabilidade de transformar discurso em realidade.
O eleitor pernambucano, portanto, não precisa rejeitar a proposta. Também não precisa aceitá-la de olhos fechados.
Precisa apenas fazer aquilo que deveria fazer diante de qualquer candidato:
perguntar de onde vem o dinheiro, qual é o cronograma, qual é o projeto e quando a promessa deixa de ser promessa para virar obra.
Porque anunciar hospital durante uma campanha é fácil.
Difícil mesmo é entregar hospital funcionando.
E Pernambuco não precisa apenas de quem saiba anunciar um novo hospital.
Precisa de quem consiga construí-lo, equipá-lo, contratar profissionais e fazê-lo funcionar, não deixar por décadas as moscas e abandono.
Essa é a diferença entre uma promessa de campanha e uma obra de governo.
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