Por trás da promessa de vender avião e helicópteros para pagar IPVA das motos existe uma pergunta que João Campos ainda não respondeu: e os milhões gastos com táxi aéreo pelos governos do próprio PSB?
João Campos resolveu colocar o avião no palanque.
Em discurso durante agenda política em Xexéu, na Mata Sul, o candidato do PSB ao Governo de Pernambuco afirmou que poderá vender um avião e dois helicópteros pertencentes ao Estado para ajudar a financiar sua promessa de isenção do IPVA para motocicletas utilizadas por trabalhadores.
A frase é forte. O apelo popular é evidente. Afinal, quem está na ponta, pagando combustível, manutenção, prestação da moto e trabalhando de sol a sol, certamente gostaria de ouvir que o dinheiro economizado pelo Governo será utilizado para aliviar seu bolso.
Mas, quando João Campos fala em vender aeronaves oficiais, surge uma pergunta que não pode ser escondida debaixo do tapete eleitoral:
onde estava essa preocupação com os gastos aéreos quando o PSB governava Pernambuco?
É aí que a história começa a ficar interessante.
Um levantamento baseado em dados do Portal da Transparência apontou que as administrações de Eduardo Campos e Paulo Câmara, ambos do PSB, gastaram cerca de R$ 33 milhões com locação e fretamento de aeronaves durante os períodos analisados. Somente na gestão Paulo Câmara, entre 2015 e 2022, o levantamento aponta aproximadamente R$ 10,69 milhões destinados a esse tipo de despesa.
Agora João Campos aparece no palanque dizendo que pode vender avião para pagar IPVA.
Convenhamos: a régua mudou ou simplesmente mudou o lado de quem está sentado na cadeira?
Porque quando o PSB estava no comando do Palácio do Campo das Princesas, aeronave oficial não parecia ocupar o mesmo espaço no discurso político que ocupa agora.
E aqui não se está dizendo que todo gasto com aeronave é desperdício. Seria irresponsabilidade afirmar isso.
Helicópteros e aviões podem ser fundamentais para segurança pública, operações policiais, transporte de equipes, resgate, atendimento aeromédico, defesa civil e outras atividades de Estado.
A questão é outra.
Se vender aeronaves é apresentado hoje como uma solução inteligente para colocar dinheiro no bolso do trabalhador, por que João Campos não apresenta também uma revisão crítica dos gastos realizados pelos governos do próprio PSB?
Essa é a pergunta que incomoda.
João Campos não é um político recém-chegado à vida pública. É herdeiro de uma das mais tradicionais estruturas políticas de Pernambuco e pertence ao partido que governou o Estado por quase duas décadas, considerando os governos de Eduardo Campos e Paulo Câmara.
Portanto, quando ele fala em “vender os danados” para pagar o IPVA das motos, não está falando de uma máquina pública que surgiu ontem.
Existe uma história administrativa por trás desse discurso.
E nessa história estão justamente os governos do PSB.
A campanha eleitoral, porém, parece ter descoberto uma fórmula conveniente: quando uma aeronave é comprada pela adversária, ela vira símbolo de desperdício. Quando o assunto é lembrar quanto o próprio grupo político gastou com táxi aéreo, o silêncio parece ganhar altitude.
E silêncio, em política, também comunica.
João diz que vai andar de carro, moto, bicicleta, cavalo e até jumento.
Tudo muito popular.
Mas Pernambuco precisa de mais do que frases de efeito. Precisa saber quanto custa a promessa.
Quanto o Estado deixará de arrecadar com a isenção do IPVA das motocicletas?
Quantas motos serão beneficiadas?
Qual será o impacto anual nas contas públicas?
Quanto efetivamente poderá ser arrecadado com a venda das aeronaves?
E, depois da venda, quem fará as operações que atualmente dependem desses equipamentos?
São perguntas simples. Mas fundamentais.
Porque vender patrimônio público para financiar uma despesa permanente ou recorrente exige uma conta muito bem explicada.
Uma aeronave pode ser vendida uma única vez. O benefício do IPVA, se permanente, gera impacto todos os anos.
A matemática eleitoral não pode ser diferente da matemática do governo.
E há outro detalhe que merece atenção: os valores citados por João Campos durante o discurso — R$ 63 milhões pelo avião e R$ 35 milhões por cada helicóptero — precisam ser confrontados com os valores oficiais de aquisição e com o real valor de mercado dos equipamentos. Afinal, patrimônio público não pode ser tratado como se fosse carro usado colocado à venda em classificado.
No fundo, João Campos abriu uma porta.
Ao prometer vender aeronaves para economizar dinheiro público, ele colocou em debate não apenas os aviões da atual gestão, mas todo o modelo de utilização de aeronaves pelos governos de Pernambuco.
E se essa discussão for realmente levada a sério, ela precisa olhar para frente e também para trás.
Precisa olhar para Raquel Lyra.
Mas precisa olhar também para Eduardo Campos e Paulo Câmara.
Porque não dá para querer governar Pernambuco prometendo cortar despesas do adversário enquanto se passa uma borracha seletiva sobre os gastos do próprio partido.
O eleitor pode até gostar da ideia de pagar menos IPVA. O trabalhador pode até aplaudir. Mas também pode perguntar quem pagou a conta do táxi aéreo durante os anos em que o PSB esteve no poder.
E essa pergunta, João Campos, não se responde com avião.
Responde-se com números.
NA LUPA: a campanha colocou o avião no centro do palanque. Agora falta colocar a lupa sobre a conta. E, quando a lupa é colocada sobre o passado, o problema é que ela não escolhe partido.
Ela mostra tudo.
E Pernambuco está olhando.
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