quarta-feira, 19 de agosto de 2026

JOÃO CAMPOS FOGE DO PRÓPRIO PASSADO E ESCOLHE A MEMÓRIA QUE INTERESSA À CAMPANHA

Socialista reivindica o legado de Eduardo Campos, destaca a amizade com Lula, mas evita defender os oito anos de Paulo Câmara — governo do qual foi chefe de gabinete — e deixa para trás as críticas que fez ao PT em 2020

Na política, memória também é estratégia. E, na sabatina concedida ao Sistema Jornal do Commercio, João Campos (PSB) deixou claro que pretende escolher cuidadosamente quais páginas do passado estarão presentes em sua campanha — e quais ficarão convenientemente esquecidas.

Quando o assunto é Eduardo Campos, o passado volta com força total. Hospitais, UPAs, escolas técnicas, investimentos e realizações são lembrados como parte de um legado que João pretende apresentar como referência para o futuro de Pernambuco. O nome do pai aparece como patrimônio político, símbolo de capacidade administrativa e inspiração para o projeto que o socialista tenta construir.

Mas basta a conversa chegar aos oito anos de Paulo Câmara para o retrovisor mudar de direção.

Questionado sobre os 16 anos de governos do PSB em Pernambuco e, principalmente, sobre a gestão de Paulo Câmara, João preferiu falar em futuro. A justificativa é simples: a eleição, segundo ele, deveria discutir o que vem pela frente, e não ficar presa ao passado.

O problema é que esse argumento não vale para todos os personagens.

O PASSADO QUE CONVÉM

João Campos não chegou agora ao PSB. É filho de Eduardo Campos, preside nacionalmente a legenda e, sobretudo, foi chefe de gabinete de Paulo Câmara durante o governo socialista em Pernambuco.

Esse detalhe muda completamente o peso da discussão.

João não pode ser apresentado como alguém que apenas assistiu de longe aos oito anos de Paulo Câmara. Ele estava dentro do governo. Ocupou uma função estratégica e acompanhou de perto a rotina política e administrativa da gestão.

Por isso, quando o candidato afirma que prefere olhar para o futuro e não discutir o passado, surge uma pergunta inevitável: qual passado João Campos quer esquecer?

Quando se fala em Eduardo Campos, o passado é patrimônio.

Quando se fala em Paulo Câmara, o passado vira assunto inconveniente.

E aí está a contradição.

João pretende reivindicar para si o legado positivo do ciclo socialista, especialmente aquele associado ao pai, mas evita assumir a mesma responsabilidade política quando aparecem os resultados e as críticas relacionadas ao governo de Paulo Câmara.

É uma operação eleitoral compreensível, mas politicamente vulnerável.

Afinal, João não era um observador externo. Era chefe de gabinete do governador.

EDUARDO É LEGADO. PAULO É PASSADO.

Na entrevista, Eduardo Campos apareceu também quando João explicou como pretende construir uma relação administrativa com Brasília. Recordou que o pai dizia aos governadores que, além de ser amigo do presidente Lula, sabia “fazer o dever de casa”.

A frase é conveniente para a narrativa eleitoral. Eduardo aparece como exemplo de gestor, articulador e político capaz de dialogar com o Governo Federal.

Mas, novamente, o partido fica em segundo plano.

João parece querer apresentar Eduardo como uma experiência individual de sucesso, e não necessariamente como parte de um ciclo maior do PSB em Pernambuco.

Só que existe uma dificuldade nessa narrativa: Eduardo governou pelo PSB. Paulo Câmara também. Geraldo Julio também.

E João esteve dentro desse ciclo.

Mais do que isso: João foi chefe de gabinete de Paulo Câmara.

Portanto, não se trata apenas de dizer que ele pertence ao mesmo partido ou que fazia parte de um grupo político. Ele ocupou uma posição de confiança no governo que agora prefere não avaliar.

Não dá para colocar apenas Eduardo na fotografia quando a legenda interessa e retirar Paulo Câmara da imagem quando chegam as perguntas difíceis.

LULA É AMIGO. O PT, NEM TANTO.

A mesma engenharia narrativa aparece quando o assunto é Lula e o PT.

João fez questão de ressaltar sua relação pessoal com o presidente. Falou em proximidade, confiança e amizade. Disse considerar Lula um amigo e resumiu a parceria eleitoral como uma “dobradinha de João e Lula, Lula e João”.

Mais uma vez, a estratégia é separar a pessoa do partido.

Lula entra pela porta da frente. O PT parece ficar do lado de fora.

A estratégia tem uma explicação política. Em Pernambuco, Lula possui forte capital eleitoral, e João quer associar sua candidatura à proximidade com o presidente. Ao mesmo tempo, essa relação pessoal ajuda a evitar que a campanha precise revisitar com profundidade os ataques feitos ao PT durante a eleição municipal de 2020.

Naquela disputa, quando enfrentou Marília Arraes, então candidata pelo PT, João adotou um discurso duro contra a legenda e seus dirigentes. A rejeição ao partido foi explorada eleitoralmente e o socialista chegou a alertar para o risco de os petistas voltarem a comandar o Recife.

Agora, alguns anos depois, a narrativa mudou.

João não precisa necessariamente explicar uma reaproximação com o PT porque prefere destacar que sempre teve uma relação de amizade com Lula.

É uma maneira inteligente de mudar o foco da conversa: sai o partido, entra a pessoa. Sai o confronto de 2020, entra a amizade com o presidente.

Mas a política tem memória — principalmente quando os adversários e os próprios aliados têm interesse em lembrá-la.

A CONTA QUE O PASSADO PODE COBRAR

O que ficou evidente na sabatina é que João Campos quer ocupar dois lugares ao mesmo tempo.

Quer ser o herdeiro de Eduardo Campos, carregando o peso simbólico de uma das maiores lideranças políticas recentes de Pernambuco.

Mas também quer ser o candidato da renovação, evitando assumir integralmente a responsabilidade por tudo que aconteceu durante os 16 anos em que o PSB esteve no comando do Estado.

O problema é que João participou diretamente desse período.

Ele foi chefe de gabinete de Paulo Câmara.

Essa informação torna mais difícil vender a ideia de que os oito anos do ex-governador são apenas um capítulo distante da história do PSB.

João estava dentro do governo.

Acompanhou aquele governo.

Fez parte daquela estrutura.

E hoje, quando questionado sobre aquele período, prefere dizer que é hora de olhar para frente.

A questão, portanto, não é impedir João de falar sobre o futuro. É lembrar que quem pretende governar Pernambuco precisa também responder pelo caminho político que percorreu.

HERDEIRO E RENOVADOR AO MESMO TEMPO

João quer ser herdeiro de Eduardo e renovador ao mesmo tempo.

É herdeiro quando fala do pai.

É candidato do futuro quando é questionado sobre Paulo Câmara.

É aliado histórico quando apresenta a amizade com Lula.

Mas procura manter distância quando a lembrança chega ao PT e às críticas que fez ao partido em 2020.

A estratégia é clara: ficar com os ativos do passado e deixar os passivos para trás.

Eduardo serve para reivindicar legado.

Paulo Câmara vira passado.

Lula aparece como amigo.

O PT fica escondido atrás da fotografia do presidente.

E o próprio João tenta se apresentar como novidade, apesar de já carregar uma trajetória política construída dentro do próprio ciclo que agora evita discutir.

O RETROVISOR

João Campos não quer que a eleição seja um julgamento dos 16 anos do PSB em Pernambuco, embora queira que ela seja uma celebração dos anos de Eduardo Campos.

As duas coisas pertencem ao passado.

A diferença é que uma oferece votos e a outra cobra explicações.

O candidato não abandona o retrovisor. Apenas escolhe o que aparece nele.

E existe uma pergunta que pode acompanhá-lo durante toda a campanha: se o passado de Eduardo Campos pode ser lembrado como legado, por que o período de Paulo Câmara não pode ser discutido com a mesma disposição?

Principalmente porque João não estava distante daquele governo.

Ele era chefe de gabinete de Paulo Câmara.

Na política, ninguém consegue escolher completamente quais lembranças o eleitor deve guardar.

João pode falar do futuro. Pode reivindicar Eduardo. Pode celebrar a amizade com Lula.

Mas os adversários certamente farão questão de lembrar que, antes de ser candidato ao Governo de Pernambuco, ele já esteve dentro do governo que agora prefere não comentar.

No fim das contas, a questão não é apenas sobre olhar para frente.

É sobre saber se João Campos conseguirá construir um futuro eleitoral sem precisar responder pelo passado político que ajudou a construir.

Porque, dessa vez, o passado não está tão distante assim. Ele tem nome, cargo e função: João Campos, chefe de gabinete de Paulo Câmara.

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