Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) perceberam que, numa disputa apertada, não basta conquistar voto. É preciso também tentar impedir que o adversário conquiste espaço.
E aí entra o jurídico.
A cada movimento político, surge uma ação. A cada denúncia, uma representação. A cada pesquisa, um questionamento. A cada propaganda, uma lupa dos advogados.
O TRE-PE virou quase uma extensão dos comitês eleitorais.
A briga mais recente envolve a Federação PSDB/Cidadania. A Frente Popular tentou tirar a federação da coligação de Raquel. Perdeu no TRE-PE, que manteve os partidos na aliança governista. Agora, o caminho é o TSE.
Traduzindo do juridiquês para o eleitor: é briga por tempo de televisão.
E em eleição grande, televisão é poder.
Cada segundo pode servir para vender um candidato, atacar o adversário ou responder a uma pancada. Portanto, ninguém está brigando por segundos por esporte.
Está brigando porque sabe que tempo de propaganda também é munição eleitoral.
PESQUISA AGORA TAMBÉM VAI PARA O TRIBUNAL
Outra coisa que chama atenção é a transformação das pesquisas em verdadeiras armas de campanha.
Se o número agrada, vira comemoração.
Se incomoda, vira suspeita.
Se aponta vantagem, é celebrado.
Se mostra desvantagem, aparece imediatamente uma lupa sobre metodologia, amostra, questionário, registro e instituto.
Fiscalizar pesquisa é legítimo. O problema é quando o eleitor começa a perceber que, para algumas campanhas, pesquisa boa é a que ajuda e pesquisa ruim é a que precisa ser derrubada.
Aí a coisa fica perigosa.
Porque pesquisa eleitoral deve ser instrumento de informação, não objeto de guerra política.
O “GABINETE DO ÓDIO” ENTROU NO CENTRO DO PALCO
Mas o capítulo mais pesado dessa disputa é outro.
João Campos resolveu transformar a denúncia sobre o suposto “gabinete do ódio” em uma das principais armas contra Raquel Lyra.
A acusação é grave e envolve a suposta existência de uma estrutura organizada para atacar adversários políticos nas redes sociais.
Raquel nega qualquer participação e afirma que também é alvo de ataques coordenados.
Ou seja: um acusa, o outro contra-ataca e os dois dizem ser vítimas.
É a velha política brasileira em versão digital.
A diferença é que agora não basta o ataque político. É preciso descobrir quem criou o perfil, quem pagou, quem compartilhou, quem coordenou e quem eventualmente se beneficiou.
E isso não se resolve com postagem no Instagram.
Vai parar na Justiça.
João já anunciou reação jurídica. O grupo de Raquel também afirma ter levado denúncias aos tribunais.
E assim Pernambuco assiste a uma situação curiosa: os dois principais grupos políticos do Estado estão disputando quem consegue provar primeiro que é vítima do outro.
A POLÍTICA DO “EU FUI ATACADO”
Tem algo ainda mais interessante nesse jogo.
Na política moderna, ser vítima também rende dividendos eleitorais.
Quem é atacado pode se apresentar como perseguido.
Quem denuncia parece estar combatendo uma máquina.
Quem responde tenta mostrar que também sofre.
E o eleitor fica no meio dessa guerra de narrativas.
É uma estratégia perigosa porque, se tudo virar “gabinete do ódio”, “fake news”, “ataque coordenado” e “perseguição”, existe o risco de o debate sobre saúde, segurança, estradas, emprego, educação e desenvolvimento econômico ficar em segundo plano.
O eleitor quer saber quem vai governar Pernambuco.
Mas as campanhas parecem cada vez mais interessadas em explicar quem deve ser responsabilizado pelo próximo ataque na internet.
O TAPETÃO ESTÁ LOTADO
Não é exagero dizer que o jurídico ganhou status de protagonista.
Marqueteiro pensa na propaganda.
Advogado pensa em como derrubar a propaganda do adversário.
Coordenador de campanha pensa na agenda.
Jurídico pensa em qual agenda pode gerar representação.
O candidato discursa.
O advogado anota.
O adversário responde.
O advogado protocola.
E o ciclo recomeça.
É campanha eleitoral com um pé no palanque e outro no processo.
E AINDA NEM COMEÇOU A FASE MAIS PESADA
O mais curioso é que tudo isso acontece antes de a eleição entrar no seu momento mais agressivo.
Ainda vem propaganda eleitoral.
Ainda vêm os debates.
Ainda vêm novas pesquisas.
Ainda vêm os ataques nas redes.
Ainda vêm as alianças de última hora.
Ainda vêm os vídeos cuidadosamente editados.
Ainda vêm os direitos de resposta.
E, provavelmente, muitas outras ações judiciais.
Porque se hoje, com a campanha começando, já existe essa temperatura, imagine quando os dois lados perceberem que alguns décimos de ponto podem decidir o segundo turno.
NA LUPA
A impressão é que Pernambuco está assistindo a uma eleição onde ninguém quer apenas ganhar do adversário. Quer também impedir que o adversário tenha espaço para ganhar.
A disputa pelo Governo virou uma guerra de narrativa, de pesquisa, de televisão, de redes sociais e, agora, de petições.
Raquel tenta preservar seu espaço.
João tenta quebrar esse espaço.
E os advogados de ambos já estão trabalhando em ritmo de campanha presidencial.
No fim das contas, a pergunta é simples:
quem vai conquistar o eleitor — e quem vai conquistar o tribunal?
Porque, pelo andar da carruagem, em 2026 Pernambuco terá duas eleições acontecendo ao mesmo tempo.
Uma nas urnas.
E outra nos autos.
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