POLÍTICA NA LUPA - Edney Souto
A campanha de João Campos chegou ao momento da verdade. Com Raquel Lyra à frente nas pesquisas e o calendário eleitoral apertando o cerco, a Frente Popular parece ter decidido colocar na mesa sua última grande aposta: Lula.A presença do presidente em Pernambuco passou a ser tratada como um trunfo capaz de incendiar a campanha, mobilizar as ruas, consolidar o eleitorado de esquerda e, principalmente, tentar mudar uma fotografia eleitoral que hoje não é a que João gostaria de apresentar.
Mas existe um detalhe que a euforia dos palanques não pode apagar: Lula já entrou em campo por um candidato da Frente Popular em Pernambuco e o resultado não foi exatamente o esperado.
Em 2022, Lula foi o candidato oficial de Danilo Cabral. O apoio foi explícito, houve agendas, imagens, discurso, propaganda eleitoral e uma operação política para tentar transferir a popularidade do então candidato à Presidência para o socialista. Em determinado momento, a própria Justiça Eleitoral determinou mudanças na propaganda de Danilo porque a participação de Lula havia ultrapassado o limite permitido.
E qual foi o resultado?
Danilo Cabral terminou aquele primeiro turno em quarto lugar, com 18,06% dos votos, atrás de Marília Arraes, Raquel Lyra e Anderson Ferreira. Lula, por sua vez, havia alcançado 65% dos votos válidos em Pernambuco na disputa presidencial.
Ou seja: o tamanho de Lula não se transformou automaticamente no tamanho de Danilo.
É justamente esse fantasma que ronda a estratégia de João Campos agora.
A diferença é que João possui uma relação política muito mais consolidada com o eleitorado do Recife e tem uma estrutura própria de campanha. Mas a pergunta continua pertinente: até onde vai a força de Lula quando o voto é para governador?
Porque uma coisa é o eleitor votar em Lula para presidente. Outra é esse mesmo eleitor decidir que precisa votar no candidato indicado por Lula para comandar Pernambuco.
Em 2022, essa transferência encontrou limites bastante claros.
Agora, a Frente Popular aposta que a história será diferente.
João Campos precisa que seja.
A vinda de Lula pode produzir uma enorme fotografia política, reunir militância, lotar ruas e gerar uma avalanche de imagens nas redes sociais. Pode também reforçar a identidade da chapa com o eleitorado lulista.
Mas campanha não termina na fotografia.
O desafio será transformar o abraço, o palanque e o discurso em números.
E o tempo é curto.
Raquel Lyra, enquanto isso, tem uma estratégia diferente: manter a eleição no terreno estadual, falar de governo, obras, entregas e tentar evitar que a disputa seja transformada em uma espécie de plebiscito sobre Lula.
É aí que a reta final ganha contornos interessantes.
João aposta no peso nacional de Lula para tentar alterar o jogo.
Raquel tenta fazer o eleitor olhar para Pernambuco.
E no meio dessa disputa está a grande pergunta da eleição: Lula conseguirá fazer por João Campos o que não conseguiu fazer por Danilo Cabral?
Em 2022, o presidente teve força suficiente para vencer a eleição presidencial em Pernambuco, mas seu candidato ao governo não chegou sequer ao segundo turno.
Agora, quatro anos depois, a Frente Popular coloca novamente o nome de Lula no centro da operação.
Pode ser uma cartada poderosa.
Pode ser apenas uma grande mobilização política.
O que não existe mais é tempo para esperar.
João precisa que Lula não seja apenas o maior nome do palanque. Precisa que a força de Lula atravesse o palanque, atravesse a campanha e chegue à urna.
Porque, no fim das contas, Pernambuco já viu esse filme em 2022.
E sabe que Lula pode ser gigante nas urnas para presidente sem necessariamente carregar junto o candidato que está ao seu lado na fotografia.
POLÍTICA NA LUPA — BLOG DO EDNEY
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