Pesquisa divulgada ontem coloca João Campos na frente de Raquel Lyra, mas resultado destoa de uma sequência de levantamentos e ressuscita um histórico que acompanha o instituto desde São Paulo
A pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Badra em Pernambuco fez muito mais do que colocar números numa tabela eleitoral. O levantamento mexeu com o cenário político porque apresentou um resultado que contraria a tendência observada em pesquisas recentes de institutos de grande repercussão nacional e, ao mesmo tempo, trouxe de volta ao debate um velho personagem conhecido do meio político: o próprio histórico da Badra e suas controvérsias envolvendo o PSB.
Segundo o levantamento, João Campos aparece com 44,2% das intenções de voto, enquanto Raquel Lyra registra 41,1%. A diferença de 3,1 pontos recoloca o candidato socialista em vantagem numérica na disputa pelo Governo de Pernambuco.
O problema não está em um instituto apresentar um número diferente. Pesquisa eleitoral não é sentença judicial, muito menos resultado de eleição. Institutos podem chegar a resultados diferentes porque utilizam metodologias, amostras, períodos de coleta e modelos de ponderação distintos.
A questão começa quando um levantamento isolado aparece na contramão de uma sequência de pesquisas que vinha apontando outro movimento na corrida eleitoral.
E é aí que a Badra precisa explicar mais do que os números.
Precisa explicar sua história.
O PASSADO QUE VOLTA A BATER À PORTA
A relação entre a Badra e o universo político do PSB paulista não é uma invenção criada agora em Pernambuco. O assunto já foi parar na Justiça Eleitoral e também foi amplamente noticiado pela imprensa.
Em 2020, durante a disputa pela Prefeitura de São Paulo, uma pesquisa do instituto foi suspensa pela Justiça após questionamentos apresentados pela chapa de Bruno Covas. Na ocasião, foram apontados problemas relacionados à ordem das perguntas e aos critérios utilizados no levantamento. A decisão posteriormente foi revertida e a pesquisa acabou liberada.
Mas a história não terminou ali.
Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que Maurício Juvenal, ligado à direção da Badra, mantinha relação de amizade e proximidade profissional com Márcio França, então uma das principais figuras do PSB paulista. Juvenal havia ocupado funções em estruturas comandadas por França quando este esteve à frente do governo paulista.
Em 2020, a Justiça Eleitoral também chegou a suspender uma propaganda da campanha de França após suspeitas de que a peça pudesse ter utilizado informações de uma pesquisa ainda não divulgada. A acusação foi negada, e os envolvidos sustentaram que não havia qualquer interferência ou irregularidade.
O assunto voltou a ganhar repercussão anos depois. Em 2024, a Folha noticiou que Márcio França havia nomeado para um cargo em seu ministério um aliado que também trabalhava para a Badra, retomando justamente o histórico das controvérsias envolvendo o instituto e o político socialista.
É importante fazer a ressalva: nada disso autoriza afirmar que a pesquisa atual em Pernambuco tenha sido manipulada ou que exista fraude. Não há base para essa acusação.
Mas também seria ingenuidade fingir que esse histórico não existe.
O PROBLEMA NÃO É A PESQUISA SER DIFERENTE
Pesquisa diferente não significa pesquisa errada.
O eleitor pernambucano, entretanto, tem o direito de perguntar por que determinados números aparecem justamente quando outros levantamentos apontam uma direção distinta.
E essa pergunta ganha ainda mais força porque a disputa entre Raquel Lyra e João Campos está extremamente apertada.
O levantamento da RealTime Big Data divulgado em junho, por exemplo, mostrou João Campos com 45% e Raquel com 40%, dentro de uma disputa bastante competitiva.
Ou seja: a eleição está longe de estar definida.
Mas existe uma diferença entre reconhecer uma disputa apertada e simplesmente aceitar qualquer número como fotografia definitiva do momento.
É justamente por isso que instituto de pesquisa precisa ter credibilidade.
Não basta apresentar percentuais, margem de erro e registro eleitoral. Pesquisa também vive de confiança.
E quando o instituto possui um histórico público de questionamentos envolvendo um determinado campo político, a responsabilidade sobre a transparência precisa ser ainda maior.
EM PERNAMBUCO, A PERGUNTA É INEVITÁVEL
João Campos é presidente nacional do PSB e candidato ao Governo de Pernambuco. Portanto, qualquer levantamento que coloque o socialista na frente naturalmente terá grande repercussão dentro da própria estrutura partidária.
Isso, por si só, não significa absolutamente nada de irregular.
O que chama atenção é a combinação de três elementos: um instituto com histórico de questionamentos envolvendo figuras do PSB, uma pesquisa que surge destoando de parte relevante do ambiente de pesquisas e um resultado imediatamente transformado em munição política.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas matemática.
Passa a ser política.
E política, como se sabe, vive também de percepção.
QUEM MEDE A CORRIDA TAMBÉM ENTRA NA CORRIDA
Há uma frase que deveria acompanhar toda pesquisa eleitoral: o eleitor não vota na pesquisa.
Ele vota na urna.
Por isso, nem a liderança de João Campos na Badra significa vitória do socialista, nem uma eventual liderança de Raquel em outros institutos significa que a governadora já ganhou a eleição.
A pesquisa é uma fotografia.
Mas, quando várias fotografias começam a mostrar determinado movimento e uma delas apresenta uma imagem completamente diferente, o mínimo que se espera é que o fotógrafo esteja disposto a explicar como chegou àquele enquadramento.
É isso que a Badra precisa fazer em Pernambuco.
Não basta divulgar números.
É preciso abrir a metodologia, explicar a amostra, detalhar os critérios e permitir que especialistas possam analisar o levantamento.
Quanto mais questionamentos existem em torno de um instituto, maior deveria ser sua disposição para prestar esclarecimentos.
Porque credibilidade não se exige.
Credibilidade se constrói.
A ELEIÇÃO AINDA ESTÁ ABERTA
O mais curioso de toda essa história é que ninguém precisa acreditar cegamente na Badra — nem nos outros institutos.
O eleitor pode comparar.
Pode olhar os levantamentos anteriores.
Pode observar tendências.
Pode verificar metodologia.
Pode esperar as próximas pesquisas.
E, principalmente, pode desconfiar de quem trata pesquisa como resultado eleitoral antecipado.
A Badra voltou ao cenário pernambucano e conseguiu produzir um efeito imediato: além de medir a disputa, colocou em discussão o próprio instituto que fez a medição.
E talvez essa seja a parte mais incômoda da história.
Quando uma pesquisa precisa dividir as manchetes com as perguntas sobre a credibilidade de quem a realizou, o debate deixa de ser apenas quem está na frente.
Passa a ser também:
quem está fazendo a conta, como está fazendo a conta e por que essa conta está tão diferente das outras?
Em uma eleição que promete ser decidida no detalhe, essas perguntas não são periféricas.
São centrais. É desse jeito!
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