terça-feira, 8 de setembro de 2026

NA LUPA 🔎 | A GUERRA PELO SENADO QUE COMEÇA A TESTAR A IMAGEM DE RAQUEL LYRA


A disputa pelo Senado em Pernambuco entrou em uma fase diferente. Já não se trata apenas de saber quem vai conquistar uma das duas cadeiras disponíveis, mas de entender quem conseguirá ocupar o maior espaço político ao redor da governadora Raquel Lyra.

De um lado estão Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD), oficialmente integrantes da chapa majoritária da governadora. Do outro, Mendonça Filho (PL), que decidiu disputar o Senado de forma independente, mas vem mantendo uma aproximação pública com Raquel e participando de agendas ao lado dela.

É justamente aí que mora o problema.

A fotografia política começou a ficar desconfortável para todos os envolvidos. E nesta segunda-feira, 7 de setembro, a disputa subiu mais um degrau: Túlio Gadêlha e Eduardo da Fonte acionaram o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco para pedir a retirada de uma propaganda de Mendonça Filho que, segundo os autores da representação, associa sua candidatura à governadora Raquel Lyra. O pedido também busca impedir novas peças que estabeleçam esse vínculo. 

A questão jurídica, porém, é apenas a ponta mais visível de uma disputa política muito maior.

O PROBLEMA É A IMAGEM

Raquel Lyra montou sua chapa ao Senado com Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha. Essa é a composição oficialmente registrada.

Mendonça Filho não está nessa chapa.

Mas Mendonça construiu outra estratégia: disputar o Senado sem candidato próprio ao Governo do Estado e, ao mesmo tempo, declarar apoio à reeleição de Raquel.

Politicamente, é uma estratégia inteligente.

Mendonça preserva sua identidade, mantém o discurso de direita e aproxima-se de uma candidata que liderava pesquisas recentes, sem necessariamente ficar preso à estrutura formal da chapa governista.

O problema é que Eduardo e Túlio também precisam da imagem de Raquel.

E precisam dela bastante.

A governadora é o principal ativo eleitoral da chapa que reúne os dois candidatos. Por isso, quando um terceiro candidato aparece ao lado de Raquel, participa de agendas e explora essa proximidade em sua comunicação eleitoral, surge uma pergunta inevitável nos bastidores:

até onde vai a parceria institucional e onde começa a disputa pelo voto?

Essa fronteira ficou ainda mais delicada com o início do guia eleitoral.

MENDONÇA ENXERGOU UMA BRECHA

Mendonça Filho percebeu uma coisa que talvez seja uma das maiores particularidades desta eleição: Raquel conseguiu construir uma relação política bastante ampla.

A governadora recebe apoios de setores diferentes da política pernambucana e tenta manter uma imagem de independência em relação à disputa presidencial.

Isso permite que um candidato de direita, como Mendonça, esteja próximo dela sem necessariamente integrar sua chapa.

O próprio Túlio Gadêlha reconheceu essa realidade ao afirmar, em agosto, que não tinha incômodo com a presença de Mendonça nas agendas da governadora.

Na ocasião, Túlio declarou que não fazia política com ódio e defendeu a convivência democrática entre diferentes correntes políticas. 

Na política, entretanto, uma coisa é não demonstrar incômodo publicamente.

Outra é aceitar que o eleitor possa enxergar os três como parte de um mesmo projeto eleitoral.

E é exatamente essa segunda hipótese que Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha agora tentam evitar.

O ELEITOR PODE CONFUNDIR?

Essa é a grande discussão.

Eduardo e Túlio sustentam que a propaganda questionada pode induzir o eleitorado a uma compreensão equivocada sobre as coligações oficialmente registradas.

A representação pede que a peça seja retirada do horário eleitoral gratuito e que novas propagandas que estabeleçam vínculo político entre Mendonça e Raquel sejam proibidas. 

A leitura política é ainda mais interessante.

Se Mendonça consegue aparecer como candidato ao Senado apoiado por Raquel, ele ganha algo que Eduardo e Túlio possuem formalmente: a associação direta com a governadora.

E associação, em eleição majoritária, vale muito.

Principalmente quando o eleitor ainda está formando sua decisão.

AS PESQUISAS EXPLICAM A TENSÃO

Os números ajudam a entender por que essa guerra ganhou intensidade.

No Datafolha realizado entre 18 e 20 de agosto, Marília Arraes apareceu com 15%, Humberto Costa com 14%, Mendonça Filho com 12% e Eduardo da Fonte com 11%. Túlio Gadêlha marcou 5%.

Os quatro primeiros estavam tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais. 

Ou seja: Eduardo está no jogo. Mendonça está no jogo. Túlio está atrás, mas ainda existe uma enorme quantidade de eleitor a conquistar.

E existe outro detalhe importante: na pesquisa espontânea do Datafolha, nada menos que 72% dos entrevistados disseram não saber em quem votar para o Senado.

Isso significa que a fotografia ainda está longe de ser definitiva. 

É justamente nesse eleitor indeciso que a guerra pela imagem de Raquel ganha importância.

A PESQUISA MAIS NOVA MUDOU O HUMOR

O Real Time Big Data, realizado entre 29 de agosto e 2 de setembro, apresentou outro desenho.

Marília Arraes apareceu com 29%, Mendonça Filho com 20%, Humberto Costa com 19%, Eduardo da Fonte com 13% e Túlio Gadêlha com 12%.

Foram 1.600 entrevistados, com margem de erro de dois pontos percentuais. 

Aqui está talvez o dado mais importante para a análise:

Mendonça cresceu para uma posição que o coloca diretamente na briga pelas duas vagas.

E Eduardo e Túlio aparecem logo atrás.

Portanto, a disputa não é mais apenas uma questão de preferência ideológica.

É uma corrida por espaço.

EDUARDO TEM UMA CARTA FORTE: ESTRUTURA

Eduardo da Fonte possui uma característica que não pode ser ignorada: estrutura política.

O deputado federal construiu ao longo dos anos uma ampla rede de alianças municipais e partidárias. Sua candidatura ao Senado não depende apenas da exposição televisiva.

Depende também de prefeitos, deputados, lideranças locais e da capacidade de transformar alianças em voto.

Nos últimos dias, Eduardo vem aparecendo ao lado de Raquel em grandes agendas.

Em Garanhuns, por exemplo, participou de uma caminhada que reuniu uma grande mobilização popular ao lado da governadora, da vice Priscila Krause e também de Túlio Gadêlha. O ato foi apresentado como demonstração de força da chapa governista no Agreste. 

A estratégia é clara: mostrar Eduardo dentro da fotografia principal da campanha de Raquel.

TÚLIO TEM OUTRO DESAFIO

Túlio Gadêlha precisa transformar presença política em intenção de voto.

O deputado conseguiu sobreviver a uma crise que poderia ter retirado sua candidatura do tabuleiro. Em agosto, sua permanência na chapa chegou a ser colocada em dúvida, mas ele acabou reafirmando a candidatura.

Naquele momento, o problema já estava exposto: a estrutura política construída ao redor de sua candidatura era maior que os números apresentados pelas pesquisas. 

Agora, porém, o cenário começa a mudar.

No Real Time, Túlio apareceu com 12%, apenas um ponto atrás de Eduardo.

É uma diferença pequena o suficiente para manter a disputa completamente aberta.

E isso explica por que o deputado precisa estar presente em todos os espaços possíveis da campanha de Raquel.

E MENDONÇA?

Mendonça Filho talvez seja o candidato que mais alterou o tabuleiro.

Ele entrou na disputa sem estar oficialmente amarrado a uma chapa majoritária para o Governo do Estado e passou a ocupar um espaço político próprio.

Ao mesmo tempo, mantém proximidade com Raquel e se apresenta como nome identificado com a direita e com o eleitorado bolsonarista.

Essa combinação é poderosa.

Mendonça pode conversar com o eleitor de direita sem necessariamente carregar o peso de uma candidatura ao Governo do Estado.

E, ao mesmo tempo, pode aparecer em ambientes políticos próximos de Raquel.

Foi justamente essa presença que levou Túlio a ser questionado sobre o assunto. O deputado, na ocasião, preferiu adotar uma postura conciliadora e disse não se incomodar com a presença do adversário nas agendas da governadora. 

Mas agora Eduardo e Túlio decidiram reagir judicialmente.

A política cordial terminou?

Não necessariamente.

Mas a disputa eleitoral ficou mais dura.

RAQUEL VIROU O CENTRO DO TABULEIRO

Talvez esse seja o ponto mais importante desta eleição.

Raquel Lyra não está apenas disputando a própria reeleição.

A imagem da governadora virou também um ativo eleitoral disputado pelos candidatos ao Senado.

Quem aparece ao lado de Raquel ganha exposição.

Quem é apresentado como aliado de Raquel ganha associação política.

E quem consegue transformar essa associação em voto pode conquistar uma das duas cadeiras.

O problema é que a governadora precisa administrar interesses diferentes.

Eduardo quer o voto da chapa.

Túlio precisa crescer.

Mendonça quer manter sua independência e, ao mesmo tempo, aproveitar a proximidade com Raquel.

E Raquel precisa impedir que essa disputa pelo Senado se transforme em um problema para sua própria candidatura.

A GOVERNADORA NÃO PODE PERDER O CONTROLE DA NARRATIVA

Existe uma diferença fundamental entre ter muitos aliados e permitir que todos os aliados contem a mesma história.

Raquel construiu uma coalizão ampla.

Isso é uma força.

Mas também pode virar uma vulnerabilidade se o eleitor não conseguir distinguir quem está efetivamente na chapa e quem apenas apoia sua candidatura ao Governo do Estado.

A ofensiva judicial de Eduardo e Túlio mostra que essa preocupação deixou de ser uma questão de bastidor e chegou à campanha oficial.

E aqui está a leitura política:

Mendonça não precisa necessariamente romper com Raquel para enfrentar Eduardo e Túlio.

Pelo contrário.

Quanto mais próximo ele estiver da governadora, maior será o potencial de disputar o mesmo eleitorado dos dois candidatos oficiais da chapa.

Essa é a equação que incomoda.

UMA ELEIÇÃO DE DUAS VAGAS E MUITOS CANDIDATOS

Outro fator torna tudo ainda mais imprevisível.

O eleitor pernambucano terá dois votos para o Senado.

Isso muda completamente a lógica da campanha.

Não existe necessariamente a obrigação de escolher apenas um nome.

Um eleitor pode votar em Eduardo e Mendonça.

Outro pode votar em Túlio e Marília.

Outro pode escolher Mendonça e Humberto.

Outro pode combinar nomes de diferentes campos políticos.

É por isso que os percentuais não devem ser tratados como uma corrida tradicional de primeiro colocado contra segundo colocado.

A disputa é pela formação de duplas eleitorais.

E quem conseguir ser escolhido como segundo voto poderá surpreender.

O QUE ESTÁ EM JOGO PARA RAQUEL

A governadora tem hoje dois desafios simultâneos.

O primeiro é manter sua própria candidatura competitiva. O Real Time divulgado no início de setembro apontou empate numérico de 43% entre Raquel e João Campos no primeiro turno, enquanto o Datafolha de agosto havia mostrado Raquel à frente com 47% contra 40%. 

O segundo é evitar que a guerra pelo Senado divida sua base.

Se Eduardo e Túlio começarem a disputar espaço entre si, podem enfraquecer a chapa.

Se Mendonça ocupar o mesmo espaço político dos dois, pode retirar votos da composição oficial.

Se Raquel tentar agradar a todos, corre o risco de não conseguir entregar a nenhum deles uma identidade eleitoral suficientemente forte.

É um equilíbrio delicado.

A GUERRA ESTÁ SÓ COMEÇANDO

A ofensiva judicial desta segunda-feira mostra que a eleição entrou em outra etapa.

A disputa deixou de ser apenas por prefeitos, palanques e fotografias.

Agora é também uma guerra pela imagem, associação e narrativa.

Eduardo da Fonte quer ser visto como o nome forte da chapa de Raquel.

Túlio Gadêlha precisa provar que sua estrutura política pode virar voto.

Mendonça Filho quer mostrar que não precisa estar formalmente na chapa para estar dentro do campo político da governadora.

E Raquel Lyra precisa administrar os três movimentos sem permitir que a disputa pelo Senado contamine sua própria campanha.

No fim das contas, a grande pergunta não é apenas quem serão os dois senadores eleitos por Pernambuco.

A pergunta que começa a ganhar força nos bastidores é outra:

quem conseguirá sair da campanha presidencial de Raquel com a maior fatia da imagem da governadora?

Porque, em uma eleição tão aberta, a fotografia ao lado de Raquel pode valer tanto quanto um programa eleitoral inteiro.

E a partir de agora, cada agenda, cada fotografia, cada declaração e cada segundo de televisão terá peso redobrado.

A guerra pelo Senado pernambucano entrou definitivamente na fase em que ninguém quer dividir o mesmo espaço — muito menos o espaço que pode levar diretamente ao eleitor de Raquel Lyra.

Nenhum comentário: