quarta-feira, 9 de setembro de 2026

NA LUPA: QUAEST MANTÉM RAQUEL NA FRENTE, MAS ACENDE O SINAL AMARELO PARA A DISPUTA COM JOÃO CAMPOS

A nova pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta terça-feira (8) coloca mais combustível na disputa pelo Governo de Pernambuco e confirma aquilo que vem se desenhando nos últimos levantamentos: Raquel Lyra continua na liderança, mas João Campos não está fora do jogo. A governadora aparece com 43% das intenções de voto, contra 37% do ex-prefeito do Recife. A diferença, portanto, caiu de oito para seis pontos em relação à pesquisa anterior da própria Quaest, quando Raquel tinha 44% e João aparecia com 36%. 

À primeira vista, pode parecer uma mudança pequena. E, estatisticamente, é exatamente isso. Raquel oscilou um ponto para baixo e João subiu um ponto, ambos dentro da margem de erro de três pontos percentuais. A pesquisa ouviu 1.302 eleitores entre os dias 4 e 7 de setembro, tem nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PE-00285/2026. 

Mas eleição não se resume à fotografia. É preciso olhar para o filme.

E o filme mostra uma disputa que continua extremamente competitiva, mas que, neste momento, ainda favorece Raquel Lyra.

O dado mais importante talvez esteja escondido atrás dos 43% da governadora. Quando se considera apenas os votos atribuídos aos candidatos, Raquel alcança aproximadamente 52,4% dos votos válidos no cenário pesquisado. Isso significa que, mantido exatamente o retrato apresentado pela Quaest, a governadora estaria acima da metade dos votos válidos e poderia vencer ainda no primeiro turno. É importante destacar: isso não significa que a eleição esteja decidida. A margem de erro permite outros cenários e ainda existe uma parcela significativa do eleitorado em movimento. Mas o dado mostra o tamanho do desafio que João Campos tem pela frente. 

E aqui está o ponto que merece uma lupa política mais poderosa.

João Campos cresceu, mas Raquel não despencou.

Essa diferença é fundamental.

Se a governadora tivesse caído cinco, seis ou sete pontos e João tivesse avançado na mesma proporção, estaríamos diante de uma mudança de cenário. Não é o que aconteceu. A fotografia anterior era de 44% para Raquel contra 36% para João. Agora temos 43% contra 37%.

Ou seja: João ganhou um ponto. Raquel perdeu um. A distância diminuiu, mas não houve uma ruptura.

É justamente por isso que seria precipitado anunciar uma virada de João Campos. Da mesma forma, seria um erro político da campanha de Raquel comemorar como se a eleição estivesse liquidada.

O cenário é de liderança consolidada, mas com disputa aberta.

A espontânea ajuda a entender ainda melhor o momento. Quando os nomes não são apresentados aos entrevistados, Raquel aparece com 33%, repetindo o mesmo percentual da pesquisa anterior. João Campos avançou de 22% para 24%. Os indecisos, entretanto, chegam a 40%. Isso mostra que ainda existe uma quantidade considerável de eleitores que não transformou a eleição estadual em uma decisão absolutamente cristalizada. 

Só que há uma contradição interessante: ao mesmo tempo em que 40% permanecem indecisos na espontânea, 76% dos entrevistados dizem que sua escolha já é definitiva. Em agosto eram 72%. Agora são 76%. Apenas 23% afirmam que ainda podem mudar de voto.

Isso significa que a eleição está entrando numa fase diferente.

A janela para uma grande virada começa a ficar menor.

João Campos ainda tem tempo para crescer? Tem.

Pode virar? Pode.

Mas precisará produzir algo mais forte do que simplesmente oscilar um ponto para cima.

Precisará provocar uma mudança perceptível no comportamento do eleitorado.

E esse é o grande problema do candidato do PSB neste momento.

A pesquisa mostra que ele tem espaço para crescer, mas também mostra que Raquel não está em processo de derretimento. Pelo contrário. A governadora mantém 43% no cenário estimulado, 33% na espontânea e permanece numericamente à frente também quando a Quaest simula um segundo turno.

E aí aparece outro dado que merece atenção.

No eventual segundo turno entre Raquel e João, a governadora aparece com 45%, contra 39% de João Campos. Na pesquisa anterior, Raquel tinha 47% e João 37%. Portanto, João avançou dois pontos, enquanto Raquel caiu dois. A vantagem passou de dez para seis pontos.

Esse é provavelmente o melhor argumento que a campanha de João terá para dizer que existe reação.

E existe mesmo.

Seria intelectualmente desonesto ignorar isso.

João cresceu na espontânea, cresceu no primeiro turno, cresceu no segundo turno e reduziu a diferença. Além disso, sua rejeição caiu de 40% para 38%. São sinais positivos.

Mas ainda não são suficientes para caracterizar uma virada.

Raquel continua apresentando uma combinação que, eleitoralmente, é bastante perigosa para quem está atrás: liderança no primeiro turno, vantagem no segundo e menor rejeição.

Na Quaest, 34% afirmam conhecer Raquel e não votar nela, enquanto João aparece com 38% de rejeição. A governadora também registra potencial de voto de 60%, contra 55% do ex-prefeito. 

E aqui está uma das maiores diferenças entre a eleição que muitos imaginavam no começo do ano e a eleição que Pernambuco está vivendo agora.

Raquel conseguiu transformar uma candidatura que começou o ciclo eleitoral em posição defensiva em uma candidatura efetivamente competitiva.

É preciso lembrar que pesquisas anteriores da própria Quaest mostravam João Campos em vantagem muito mais confortável. Em agosto de 2025, por exemplo, João aparecia com 55% contra 24% de Raquel em determinado cenário. Em abril de 2026, João ainda liderava, com 42%, enquanto Raquel tinha 34%. 

O que aconteceu depois foi uma inversão de trajetória.

Raquel cresceu.

João perdeu a enorme vantagem inicial.

E agora os dois chegam à reta final praticamente sozinhos na disputa.

Isso é politicamente relevante.

Os demais candidatos não conseguiram construir uma terceira via capaz de romper a polarização. Ivan Moraes e Renan Hallais aparecem com apenas 1% cada, enquanto os demais nomes não pontuaram na pesquisa estimulada. 

Na prática, Pernambuco vive uma eleição de dois.

E quando uma eleição se transforma em confronto direto, cada ponto passa a valer muito mais.

É aí que entra a grande pergunta: quem tem mais condições de buscar os pontos que ainda estão disponíveis?

João tem um eleitorado muito forte na esquerda e conta com a força política de Lula em Pernambuco. A própria Quaest já mostrou anteriormente que, entre os eleitores identificados como lulistas, João Campos possui vantagem expressiva. Na pesquisa divulgada anteriormente, João chegava a 54% nesse segmento, contra 33% de Raquel. Entre os independentes, entretanto, Raquel aparecia à frente, com 47% contra 31%. Entre eleitores de direita não bolsonarista, a vantagem da governadora era ainda maior.

Essa divisão explica muito da eleição.

João Campos possui uma base ideológica e eleitoral bastante definida.

Raquel, por sua vez, vem tentando construir uma candidatura que atravesse diferentes campos políticos.

É justamente aí que está uma das maiores forças da governadora.

Raquel tem buscado apresentar sua campanha menos como uma guerra ideológica e mais como uma disputa sobre Pernambuco. A estratégia de se colocar como uma governadora que conversa com diferentes setores, inclusive mantendo diálogo institucional com o governo Lula apesar de o PSD ter candidatura própria à Presidência, faz parte desse movimento. Recentemente, ela resumiu essa posição ao afirmar que é "pernambuquista" e que seus dois pés estão em Pernambuco. 

Pode funcionar?

Até aqui, os números indicam que funcionou.

A governadora conseguiu chegar a uma posição em que reúne setores de direita, centro e eleitores independentes, sem necessariamente depender de uma identificação automática com o bolsonarismo.

Esse talvez seja o maior mérito político da estratégia de Raquel.

E é também o maior problema estratégico para João.

Porque João precisa tirar votos de Raquel justamente onde ela construiu sua vantagem: no eleitorado independente e em parcelas da direita que passaram a enxergar a governadora como uma alternativa viável.

A eleição, portanto, não será decidida apenas pela capacidade de João de mobilizar o eleitorado de esquerda.

Ele já possui uma parcela muito importante desse eleitorado.

O desafio será ampliar a fronteira.

Raquel, por sua vez, precisa fazer exatamente o contrário: conservar o que conquistou.

Quem está na frente joga uma partida diferente de quem está atrás.

João precisa acelerar.

Raquel precisa administrar.

E isso produz comportamentos eleitorais completamente diferentes.

A campanha de João terá de encontrar uma narrativa capaz de produzir urgência no eleitor que hoje está confortável com Raquel. Terá de convencer esse eleitor de que a mudança é necessária e que a continuidade não é o melhor caminho.

Raquel, enquanto isso, terá de evitar tropeços.

Uma campanha que lidera por seis pontos não pode se comportar como se estivesse quinze atrás. Mas também não pode entrar em clima de comemoração antecipada.

Porque há uma eleição inteira pela frente.

E Pernambuco já mostrou nesta campanha que as coisas podem mudar.

O mais interessante da pesquisa Quaest é justamente isso: ela não entrega um vencedor definitivo; ela entrega uma governadora liderando e um adversário pressionado pelo calendário.

Faltam poucas semanas.

Cada debate passa a ter peso.

Cada entrevista pode produzir efeito.

Cada evento de rua pode representar mobilização ou desgaste.

Cada erro pode custar caro.

Cada prefeito, vereador, liderança comunitária ou cabo eleitoral que entrar efetivamente em campo poderá fazer diferença em uma disputa que, embora tenha uma liderança clara no momento, continua matematicamente aberta.

E há ainda outro elemento: a eleição está cada vez mais nacionalizada.

João Campos carrega Lula consigo.

Raquel tenta carregar Pernambuco.

Esse choque de estratégias será um dos grandes temas da reta final.

João pode dizer que Pernambuco precisa de um governador alinhado ao presidente Lula.

Raquel pode responder que Pernambuco precisa de uma governadora capaz de conversar com qualquer presidente.

São duas narrativas completamente diferentes.

Uma busca transformar a eleição estadual em extensão da disputa nacional.

A outra tenta transformar a eleição estadual em um plebiscito sobre a gestão local e a capacidade de articulação da governadora.

A população decidirá qual narrativa será mais convincente.

Na Lupa, a leitura é direta: a Quaest não mostra uma virada de João Campos. Mostra uma aproximação. E aproximação é diferente de virada.

João reduziu a diferença de oito para seis pontos, melhorou na espontânea, melhorou no segundo turno e reduziu a rejeição. É uma reação real.

Mas Raquel continua com 43%, mantém 33% na espontânea, possui menor rejeição, lidera o primeiro turno e também aparece à frente no segundo.

Mais importante: a parcela de eleitores que considera sua escolha definitiva aumentou.

Portanto, a pergunta que a pesquisa deixa não é mais "Raquel vai conseguir crescer?".

Ela já cresceu.

A pergunta agora é outra:

João Campos conseguirá crescer mais rápido do que Raquel consegue preservar sua vantagem?

Essa é a corrida.

E, neste momento, a largada da reta final ainda favorece Raquel Lyra.

Mas há uma diferença importante: a governadora está na frente, porém não está passeando.

João está atrás, mas está vivo.

E quando uma eleição chega ao mês final com dois candidatos concentrando praticamente toda a disputa, seis pontos podem ser uma vantagem importante — ou podem se transformar rapidamente em história política.

A urna, como sempre, terá a última palavra. É isso!

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