Pesquisa eleitoral tem dessas coisas: às vezes, o número mais importante não está necessariamente no primeiro ou no segundo colocado.
Na nova Quaest, divulgada nesta quarta-feira, Raquel Lyra aparece com 41% e João Campos com 39%. A diferença caiu para apenas dois pontos. É o tipo de resultado que permite comemoração dos dois lados e, ao mesmo tempo, recomenda cautela para quem quiser transformar pesquisa em fotografia definitiva da eleição.
Mas existe um número que talvez mereça mais atenção do que os 41% ou os 39%.
São os 12% que ainda não escolheram candidato.
Faltando dez dias para a eleição, esse contingente permanece praticamente intacto. Não migrou de forma significativa para João, não apareceu de maneira relevante para Raquel e também não provocou alteração expressiva nos percentuais de Ivan Moraes e Renan Hallais.
É como se uma parte do eleitorado ainda estivesse assistindo à disputa da arquibancada.
E isso muda bastante a leitura da reta final.
João cresceu dois pontos. Raquel recuou dois. A diferença, que antes era maior, agora está reduzida. Mas seria precipitado imaginar que todo esse movimento representa uma migração definitiva de votos de um lado para o outro.
Pesquisa registra momento. Não revela o que cada eleitor fará daqui a dez dias.
E talvez seja justamente aí que esteja a grande batalha da campanha.
O ELEITOR QUE AINDA NÃO ENTREGOU O VOTO
A Quaest mostra outro dado interessante: 79% dizem que a escolha já é definitiva, enquanto 20% admitem que ainda podem mudar de voto.
Traduzindo para a linguagem das ruas: uma parte expressiva do eleitorado já fechou questão, mas existe gente que ainda está olhando, comparando, ouvindo e esperando.
Esse eleitor pode estar em qualquer lugar.
Pode ser aquele que ainda não decidiu entre continuidade e mudança. Pode ser quem não se empolgou com nenhum dos dois principais candidatos. Pode ser alguém que só pretende escolher na última semana. Pode ser simplesmente quem ainda não transformou intenção em voto.
E eleição se ganha justamente no detalhe.
JOÃO ENXERGA A PORTA ABERTA
Para João Campos, a pesquisa oferece combustível.
O socialista avançou dois pontos e chegou a 39%, enquanto Raquel caiu para 41%. A diferença numérica ficou pequena e, dentro da margem de erro, configura empate técnico.
O resultado permite que a campanha de João sustente uma narrativa de crescimento e de aproximação.
O peso de Lula, a estratégia de comunicação e a mobilização da militância entram naturalmente no discurso dos aliados do prefeito do Recife.
Mas existe uma questão que ainda precisa ser respondida: quanto desse crescimento é consolidado e quanto ainda depende da movimentação dos eleitores que permanecem indecisos?
Essa resposta não está na pesquisa.
RAQUEL NÃO DESAPARECEU DO MAPA
Também não existe, nos números, qualquer espaço para decretar que a governadora perdeu terreno de maneira definitiva.
Raquel continua numericamente à frente no primeiro turno. Na pesquisa espontânea, quando o eleitor não recebe uma lista de nomes, ela aparece com 32%, contra 25% de João.
Esse dado merece atenção porque mede algo diferente da pesquisa estimulada: a lembrança espontânea do eleitor.
Além disso, a avaliação do governo continua sendo um ativo político importante para a governadora.
Na Quaest, a aprovação da gestão aparece em 61%.
Portanto, a campanha de Raquel também possui argumentos para atravessar os dez dias finais com confiança.
O JOGO AGORA É OUTRO
Até aqui, a eleição foi marcada por pesquisas, alianças, palanques, debates, propaganda e grandes atos.
Agora começa a fase em que cada voto passa a ter um peso ainda maior na narrativa eleitoral.
João precisa transformar aproximação em preferência consolidada.
Raquel precisa preservar sua posição e impedir que a parcela ainda aberta seja atraída pela narrativa de mudança.
E os dois precisam falar com um eleitor que talvez já esteja cansado da guerra política, mas que ainda não decidiu quem receberá seu voto.
É aí que entram os 12%.
Não são necessariamente votos de João.
Não são votos de Raquel.
São votos que, neste momento da pesquisa, ainda não têm dono declarado.
E talvez essa seja a informação mais importante da Quaest.
A eleição está apertada nos números apresentados, mas ainda existe uma parcela relevante do eleitorado que não fechou a conta.
NA LUPA: João ganhou terreno. Raquel continua à frente numericamente. A diferença caiu. A espontânea favorece Raquel. A aprovação do governo continua alta. E 12% seguem sem escolher ninguém.
Portanto, a corrida entrou oficialmente na fase em que cada campanha terá que convencer não apenas quem já está do seu lado, mas principalmente quem ainda está olhando para os dois lados antes de decidir.
Dez dias.
É pouco tempo para quem já decidiu.
Mas pode ser uma eternidade para quem ainda não escolheu.
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