sexta-feira, 4 de setembro de 2026

NA LUPA | RAQUEL VIRA ALVO DE UMA CAMPANHA QUE DESCEU AO TERRENO MAIS BAIXO DA POLÍTICA

A eleição de Pernambuco já não está apenas disputada nas ruas, nas pesquisas e nos palanques. Em alguns momentos, ela parece ter descido para um terreno muito mais perigoso: o da tentativa de destruir a imagem pessoal dos candidatos.

E, nesse episódio específico, Raquel Lyra aparece como vítima de um ataque que ultrapassou todos os limites aceitáveis da disputa eleitoral.

O panfleto apócrifo que acusa a governadora de ter matado o marido para ganhar uma eleição não é crítica administrativa, não é divergência ideológica e muito menos confronto político.

É uma acusação pessoal, brutal e sem qualquer relação com o debate que deveria orientar a escolha do próximo governador de Pernambuco.

Raquel reagiu. Procurou as autoridades, acionou os órgãos competentes e agora cobra que a investigação encontre quem está por trás do material.

Está no seu direito.

E mais: é obrigação das instituições esclarecer o caso.

QUANDO A POLÍTICA PERDE A VERGONHA

Uma coisa é adversário atacar adversário.

Isso faz parte da democracia.

Pode-se questionar uma obra, criticar uma decisão, apontar problemas de gestão, comparar governos, contestar números e até fazer oposição dura.

Outra coisa completamente diferente é transformar uma tragédia familiar em instrumento de campanha.

É aí que a disputa perde qualquer verniz de civilidade.

Raquel não está reclamando de uma crítica política. Está denunciando um ataque que atingiu sua história pessoal, sua família e a memória do marido.

E é justamente nesse ponto que a campanha precisa parar e olhar para si mesma.

Até onde vale tudo para ganhar uma eleição?

A VÍTIMA NÃO PODE VIRAR CULPADA POR SER ATACADA

Há algo particularmente perverso quando uma candidata é atacada e, em seguida, precisa gastar energia política explicando que não foi responsável pelo próprio ataque.

Raquel afirmou que, depois de denunciar o episódio, passou a ser colocada no centro da autoria do material.

É uma inversão preocupante.

Quem deveria estar no foco da investigação é quem produziu, financiou ou distribuiu o panfleto — não a pessoa que aparece como alvo da acusação.

Se houver participação de qualquer grupo político, que a investigação revele.

Mas, enquanto isso não acontece, transformar a vítima em suspeita apenas amplia o dano provocado pelo próprio ataque.

A INDIGNAÇÃO SELETIVA

E aqui aparece uma das faces mais desconfortáveis da política.

É fácil defender respeito quando o ataque atinge alguém do nosso lado.

O verdadeiro teste acontece quando a vítima é o adversário.

Será que os mesmos que hoje condenam esse tipo de expediente teriam a mesma indignação se o alvo fosse João Campos?

A pergunta vale para todos.

Porque democracia não pode ter uma regra para o aliado e outra para o adversário.

O limite precisa existir antes do ataque, e não apenas depois que ele atinge quem está no nosso campo.

RAQUEL TAMBÉM ENTRA NA DISPUTA COMO MULHER

Ao relacionar o episódio às dificuldades enfrentadas por mulheres na política, Raquel tenta colocar outra questão em evidência.

Segundo ela, ocupar um espaço de poder já é difícil e permanecer nele seria ainda mais complicado diante da resistência masculina.

A declaração ganha peso justamente porque o ataque não ficou restrito à sua atuação como governadora.

Ele atingiu sua condição de mulher, sua família e sua história pessoal.

É uma diferença importante.

Uma campanha pode questionar a governadora.

Não deveria precisar destruir a mulher para tentar derrotar a candidata.

A TECNOLOGIA PODE PIORAR O QUE JÁ É RUIM

A discussão sobre inteligência artificial entra no mesmo cenário.

Raquel defende o uso da tecnologia, mas afirma que quem ultrapassar os limites precisa responder, seja de sua campanha ou da campanha adversária.

A regra deveria ser simples.

Não interessa quem produziu.

Não interessa para quem serve.

Não interessa contra quem foi feito.

Se é falso, criminoso ou utilizado para manipular o eleitorado, precisa ser investigado.

A tecnologia não pode transformar a eleição em uma fábrica de ataques anônimos onde ninguém assume a autoria e todos apenas exploram o resultado.

O PASSADO POLÍTICO VOLTA COMO MUNIÇÃO

Raquel também falou sobre sua trajetória no PSB e sua relação com Eduardo Campos.

Disse que não apaga “um milímetro” de sua história.

E não deveria mesmo.

Na política pernambucana, alianças mudam, partidos mudam e adversários mudam. A história, porém, permanece.

Raquel esteve ao lado do grupo de Eduardo Campos, passou pelo PSDB e hoje está no PSD. João Campos, filho de Eduardo, está do outro lado da disputa.

O curioso é que aquilo que um dia serviu para aproximar políticos pode, anos depois, ser utilizado para tentar separá-los.

Na política, o passado raramente morre. Apenas muda de narrativa.

NA LUPA

Raquel tem uma eleição para disputar e adversários para enfrentar.

Mas não deveria precisar enfrentar também acusações criminosas lançadas anonimamente contra sua vida pessoal.

O panfleto apócrifo precisa ser investigado.

A autoria precisa aparecer.

Se houver financiamento político, que seja revelado.

Se houver participação de militantes, grupos ou candidatos, que respondam.

E se não houver qualquer vínculo partidário, que isso também seja esclarecido.

O que não pode acontecer é o ataque desaparecer no meio da guerra eleitoral enquanto a vítima continua carregando o peso da acusação.

Raquel pode ser criticada como governadora. Pode ser cobrada como gestora. Pode ser enfrentada como candidata.

Mas transformar a tragédia de sua família em arma eleitoral é outra coisa.

Isso não é disputa política. É o momento em que a política perde a medida — e a candidata passa a ser vítima de uma campanha que parece não reconhecer mais nenhum limite.

Nenhum comentário: