E, nesse episódio específico, Raquel Lyra aparece como vítima de um ataque que ultrapassou todos os limites aceitáveis da disputa eleitoral.
O panfleto apócrifo que acusa a governadora de ter matado o marido para ganhar uma eleição não é crítica administrativa, não é divergência ideológica e muito menos confronto político.
É uma acusação pessoal, brutal e sem qualquer relação com o debate que deveria orientar a escolha do próximo governador de Pernambuco.
Raquel reagiu. Procurou as autoridades, acionou os órgãos competentes e agora cobra que a investigação encontre quem está por trás do material.
Está no seu direito.
E mais: é obrigação das instituições esclarecer o caso.
QUANDO A POLÍTICA PERDE A VERGONHA
Uma coisa é adversário atacar adversário.
Isso faz parte da democracia.
Pode-se questionar uma obra, criticar uma decisão, apontar problemas de gestão, comparar governos, contestar números e até fazer oposição dura.
Outra coisa completamente diferente é transformar uma tragédia familiar em instrumento de campanha.
É aí que a disputa perde qualquer verniz de civilidade.
Raquel não está reclamando de uma crítica política. Está denunciando um ataque que atingiu sua história pessoal, sua família e a memória do marido.
E é justamente nesse ponto que a campanha precisa parar e olhar para si mesma.
Até onde vale tudo para ganhar uma eleição?
A VÍTIMA NÃO PODE VIRAR CULPADA POR SER ATACADA
Há algo particularmente perverso quando uma candidata é atacada e, em seguida, precisa gastar energia política explicando que não foi responsável pelo próprio ataque.
Raquel afirmou que, depois de denunciar o episódio, passou a ser colocada no centro da autoria do material.
É uma inversão preocupante.
Quem deveria estar no foco da investigação é quem produziu, financiou ou distribuiu o panfleto — não a pessoa que aparece como alvo da acusação.
Se houver participação de qualquer grupo político, que a investigação revele.
Mas, enquanto isso não acontece, transformar a vítima em suspeita apenas amplia o dano provocado pelo próprio ataque.
A INDIGNAÇÃO SELETIVA
E aqui aparece uma das faces mais desconfortáveis da política.
É fácil defender respeito quando o ataque atinge alguém do nosso lado.
O verdadeiro teste acontece quando a vítima é o adversário.
Será que os mesmos que hoje condenam esse tipo de expediente teriam a mesma indignação se o alvo fosse João Campos?
A pergunta vale para todos.
Porque democracia não pode ter uma regra para o aliado e outra para o adversário.
O limite precisa existir antes do ataque, e não apenas depois que ele atinge quem está no nosso campo.
RAQUEL TAMBÉM ENTRA NA DISPUTA COMO MULHER
Ao relacionar o episódio às dificuldades enfrentadas por mulheres na política, Raquel tenta colocar outra questão em evidência.
Segundo ela, ocupar um espaço de poder já é difícil e permanecer nele seria ainda mais complicado diante da resistência masculina.
A declaração ganha peso justamente porque o ataque não ficou restrito à sua atuação como governadora.
Ele atingiu sua condição de mulher, sua família e sua história pessoal.
É uma diferença importante.
Uma campanha pode questionar a governadora.
Não deveria precisar destruir a mulher para tentar derrotar a candidata.
A TECNOLOGIA PODE PIORAR O QUE JÁ É RUIM
A discussão sobre inteligência artificial entra no mesmo cenário.
Raquel defende o uso da tecnologia, mas afirma que quem ultrapassar os limites precisa responder, seja de sua campanha ou da campanha adversária.
A regra deveria ser simples.
Não interessa quem produziu.
Não interessa para quem serve.
Não interessa contra quem foi feito.
Se é falso, criminoso ou utilizado para manipular o eleitorado, precisa ser investigado.
A tecnologia não pode transformar a eleição em uma fábrica de ataques anônimos onde ninguém assume a autoria e todos apenas exploram o resultado.
O PASSADO POLÍTICO VOLTA COMO MUNIÇÃO
Raquel também falou sobre sua trajetória no PSB e sua relação com Eduardo Campos.
Disse que não apaga “um milímetro” de sua história.
E não deveria mesmo.
Na política pernambucana, alianças mudam, partidos mudam e adversários mudam. A história, porém, permanece.
Raquel esteve ao lado do grupo de Eduardo Campos, passou pelo PSDB e hoje está no PSD. João Campos, filho de Eduardo, está do outro lado da disputa.
O curioso é que aquilo que um dia serviu para aproximar políticos pode, anos depois, ser utilizado para tentar separá-los.
Na política, o passado raramente morre. Apenas muda de narrativa.
NA LUPA
Raquel tem uma eleição para disputar e adversários para enfrentar.
Mas não deveria precisar enfrentar também acusações criminosas lançadas anonimamente contra sua vida pessoal.
O panfleto apócrifo precisa ser investigado.
A autoria precisa aparecer.
Se houver financiamento político, que seja revelado.
Se houver participação de militantes, grupos ou candidatos, que respondam.
E se não houver qualquer vínculo partidário, que isso também seja esclarecido.
O que não pode acontecer é o ataque desaparecer no meio da guerra eleitoral enquanto a vítima continua carregando o peso da acusação.
Raquel pode ser criticada como governadora. Pode ser cobrada como gestora. Pode ser enfrentada como candidata.
Mas transformar a tragédia de sua família em arma eleitoral é outra coisa.
Isso não é disputa política. É o momento em que a política perde a medida — e a candidata passa a ser vítima de uma campanha que parece não reconhecer mais nenhum limite.
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