A questão não é demonizar publicidade ou fingir que as bets não existem. O problema é outro: até onde pode ir a associação de marcas de apostas com os espaços que deveriam ser destinados prioritariamente ao esporte, ao lazer, às famílias e às crianças?
Durante a gestão de João Campos, os parques da Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu passaram por um modelo de concessão à iniciativa privada. Em 2025, a Folha revelou que anúncios de uma empresa de apostas esportivas foram espalhados em pelo menos três desses equipamentos, incluindo uma pista de corrida na Jaqueira, uma arquibancada no Parque Santana e uma quadra esportiva no Dona Lindu. A concessionária havia assumido a administração dos quatro parques por 30 anos, após pagar R$ 413 milhões pela concessão.
O episódio provocou reação dentro da própria Câmara Municipal. O vereador Thiago Medina denunciou que ainda havia publicidade de bets na quadra poliesportiva do Parque Dona Lindu, equipamento frequentado por crianças e jovens. A frase registrada pelo parlamentar resume a sensação provocada pela situação: “Aqui, no Recife, tudo agora tem o patrocínio de bets”.
A Prefeitura do Recife, à época administrada por João Campos, afirmou que havia notificado a empresa para retirar as publicidades das áreas majoritariamente frequentadas por menores e disse estar seguindo a legislação vigente. Ao mesmo tempo, a gestão defendeu o modelo de negócio, argumentando que a captação de patrocínios, inclusive de bets legalizadas, ajudava a sustentar financeiramente os investimentos previstos nos parques.
É justamente aí que mora a contradição que precisa ser colocada na mesa.
Enquanto Lula agora transforma o combate às bets em uma das bandeiras de sua campanha e, nesta sexta-feira, apareceu no Recife levantando a mensagem “fim das bets”, o grupo político liderado por João Campos precisa explicar qual é exatamente a sua posição sobre a presença dessas empresas nos espaços públicos e esportivos.
Porque uma coisa é a bet anunciar em um ambiente privado, dentro das regras estabelecidas pela legislação. Outra é a marca aparecer em quadras, pistas, arquibancadas e equipamentos públicos de lazer onde circulam diariamente famílias, crianças e adolescentes.
E não estamos falando de uma discussão abstrata. O Recife já viveu esse problema na prática.
A própria Câmara Municipal passou a discutir novas medidas para restringir esse tipo de publicidade. Em 2026, um projeto apresentado pelo vereador Felipe Alecrim propôs vedar a publicidade comercial de plataformas de apostas em bens, equipamentos e espaços públicos do município, além de criar uma campanha permanente de educação financeira e prevenção aos riscos das apostas digitais.
Outro projeto, apresentado pela vereadora Jô Cavalcanti, propôs impedir publicidade de bets num raio de até 200 metros das escolas do Recife. A justificativa da proposta aponta justamente a preocupação com a exposição de crianças e adolescentes a esse tipo de publicidade.
Ou seja: a discussão já chegou ao Legislativo municipal porque existe uma preocupação concreta com os limites da publicidade das apostas.
E tem mais.
A legislação municipal do Recife já estabelece regras para publicidade no espaço urbano e define como espaço público promocional áreas de domínio ou uso do município, equipamentos urbanos, praças e parques.
Por isso, a pergunta que fica é simples e incômoda: se hoje o discurso político é pelo “fim das bets”, por que durante a gestão de João Campos essas marcas chegaram a ocupar justamente espaços associados ao esporte e ao lazer dos recifenses?
João Campos não precisa responder pelo que Lula diz. Mas, como ex-prefeito e atual candidato ao Governo de Pernambuco, pode e deve explicar qual é a sua visão sobre esse modelo.
Ainda mais porque o esporte deveria vender saúde, disciplina, competição, superação e oportunidade. Não a ilusão de dinheiro fácil.
O Recife tem uma tradição esportiva enorme, parques que são utilizados diariamente pela população e pontos turísticos que representam a identidade da cidade. Transformar esses espaços em vitrines para marcas de apostas abre um debate que vai muito além de publicidade.
É uma discussão sobre qual mensagem o poder público quer transmitir.
E a contradição ficou ainda mais evidente nesta sexta-feira: Lula caminhando pelo Recife com o cartaz “fim das bets”, enquanto seu principal aliado na disputa pelo Governo de Pernambuco carrega nas costas a discussão sobre a presença dessas marcas em equipamentos esportivos e de lazer da cidade que administrou.
No mínimo, João Campos precisa explicar onde termina o patrocínio e começa a responsabilidade do poder público.
Porque espaço público não é qualquer vitrine.
E quadra, parque e equipamento de lazer também não deveriam ser tratados apenas como mais um ponto comercial para quem quiser colocar sua marca.
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