A versão do patrocínio bancário tropeça na certidão oficial. Se o dinheiro não aparece nos registros do Master, quem bancaria o filme de Jair Bolsonaro? A pergunta está feita. Agora, falta a resposta.
A história do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, ganhou um capítulo indigesto para quem precisa explicar a origem dos recursos da produção. O liquidante do Banco Master informou, em certidão datada de 13 de outubro, que não encontrou documentos, contratos ou registros contábeis que comprovem patrocínio, financiamento ou transferência de dinheiro do conglomerado bancário para o longa.
O documento foi obtido após requerimento do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e atinge em cheio a versão de que os recursos solicitados por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro teriam relação com um patrocínio institucional do banco.
Traduzindo sem rodeios: o patrocínio foi apresentado como explicação, mas o rastro documental não apareceu nos registros examinados.
E dinheiro não costuma desaparecer por mágica. Quando alguém pede recursos, alguém precisa explicar de onde eles sairiam, por qual caminho passariam e quem assumiria a conta.
A certidão informa que não foram identificadas operações para financiar o filme, nem diretamente pelas instituições do conglomerado nem por meio de terceiros, dentro dos limites da análise. Também não foram localizadas operações relacionadas à produção envolvendo o Havengate Development Fund LP.
Sobre a Entre Investimentos e Participações, o liquidante alegou o sigilo bancário para não fornecer informações sobre operações financeiras. Portanto, a documentação apresentada não esclarece todos os possíveis caminhos do dinheiro.
É justamente aí que começa o problema político.
Se não há registro de patrocínio no Banco Master, de onde viriam os recursos que Flávio Bolsonaro teria pedido a Vorcaro? Quem colocaria o dinheiro? Qual empresa faria a operação? Quem receberia? Existe contrato? Há comprovantes de transferência? Quem financiaria a produção e com quais interesses?
Não adianta vender uma explicação e deixar a papelada falando outra língua. Em qualquer negócio sério, a origem dos recursos precisa ser demonstrável. Quando o assunto envolve um senador da República, um banqueiro e um filme sobre um ex-presidente, a cobrança por transparência é ainda maior.
É importante deixar claro: a certidão não prova, sozinha, que houve crime, nem revela definitivamente a origem dos recursos. Mas também não oferece o respaldo documental esperado para a versão de um patrocínio formal do conglomerado.
E aqui está o ponto: se o dinheiro não saiu oficialmente do Master para bancar o filme, quem pagaria essa conta?
A pergunta não é detalhe burocrático. É o centro da história. Se existem outros financiadores, que apareçam os documentos. Se houve intermediários, que se esclareça o papel de cada um. Se a explicação é outra, que seja apresentada com provas.
Na política brasileira, explicação nunca falta quando o dinheiro é dos outros. O problema começa quando chega a hora de mostrar os recibos.
O caso ainda exige respostas. E, até que elas apareçam, a pergunta continuará perseguindo os envolvidos: cadê o dinheiro, Flávio?
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