Os Bolsonaros foram procurar proteção política nos Estados Unidos e acabaram criando uma dor de cabeça para Donald Trump. O que deveria ser uma demonstração de prestígio internacional virou munição para os democratas, que agora cobram explicações sobre a entrada de Flávio Bolsonaro e seus familiares no território americano.
A família Bolsonaro parece ter dificuldade para entender que os Estados Unidos não são uma extensão do seu quintal político. Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami depois de perder a eleição presidencial brasileira para Lula, mas a viagem que deveria representar uma ofensiva internacional da oposição começou a produzir um efeito bastante diferente: constrangimento para Donald Trump.
E o problema chegou ao Congresso americano.
Pelo menos 25 deputados democratas enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, com 15 perguntas sobre a entrada de Flávio e de seus familiares nos Estados Unidos. Querem saber quem autorizou o procedimento, qual foi a justificativa e se houve participação de representantes diplomáticos americanos na operação.
O prazo para respostas é 13 de novembro. Ou seja, a família que gosta de cobrar explicações dos outros agora também terá de conviver com perguntas bastante inconvenientes.
A CONTA PODE CHEGAR PARA TRUMP
O momento não poderia ser mais delicado para o presidente americano. No dia 3 de novembro, os Estados Unidos realizam eleições legislativas que podem alterar o controle do Congresso.
Os democratas já encontraram um assunto para explorar: enquanto o governo Trump adota um discurso duro sobre imigração, um senador brasileiro derrotado nas urnas e seus familiares conseguem entrar nos Estados Unidos em circunstâncias que agora estão sendo questionadas.
A deputada democrata Pramila Jayapal não ficou apenas nas críticas. Ela afirmou que, se os democratas conquistarem a maioria da Câmara, pretende usar os instrumentos de fiscalização parlamentar para investigar a atuação do governo Trump e também a influência da Meta nas eleições brasileiras.
Flávio, portanto, pode ter conseguido um endereço em Miami, mas também entrou no radar de uma disputa política que não é pequena.
TRUMP NÃO QUER COMPRAR O PACOTE COMPLETO
Existe uma diferença entre Trump gostar de Bolsonaro e assumir todas as brigas da família Bolsonaro. E essa diferença está ficando cada vez mais evidente.
Segundo reportagem da Reuters, Trump não pretende endossar a declaração de Flávio de que seria o verdadeiro presidente eleito do Brasil.
O secretário Marco Rubio também tratou de colocar limites na história. Neste sábado (31), afirmou que os Estados Unidos não organizaram a saída de Flávio do Brasil, embora Trump tenha autorizado sua entrada quando soube que ele chegaria ao país.
Traduzindo: uma coisa é abrir a porta. Outra, bem diferente, é assumir a confusão que veio junto.
A CASA BRANCA TERIA MANDADO FLÁVIO BAIXAR A BOLA
Segundo reportagem do ICL Notícias, fontes do governo americano relataram que a Casa Branca demonstrou irritação com a primeira carta divulgada por Flávio, na qual ele se apresentou como verdadeiro presidente eleito do Brasil.
A orientação atribuída a Washington teria sido de discrição, evitando declarações que vinculassem o governo americano à contestação do resultado eleitoral brasileiro.
É uma situação constrangedora para quem apostava na força da influência internacional da família. Flávio foi buscar respaldo e, segundo os relatos publicados, recebeu um recado para não transformar a viagem em um espetáculo político.
EDUARDO, FLÁVIO E A EXPORTAÇÃO DA BRIGA
Eduardo Bolsonaro já vinha trabalhando nos Estados Unidos para aproximar a família de setores republicanos e estimular medidas de pressão contra autoridades brasileiras.
Agora, com Flávio em Miami, a operação ganha outra dimensão. Os democratas querem saber se houve favorecimento, qual foi o papel das autoridades americanas e como se deu a movimentação diplomática.
A oposição americana encontrou um novo argumento contra Trump, enquanto os Bolsonaros continuam tentando transformar uma derrota eleitoral brasileira em uma disputa internacional.
O detalhe é que os Estados Unidos têm seus próprios interesses, suas próprias eleições e seus próprios problemas. Nem tudo gira em torno do sobrenome Bolsonaro.
NA LUPA: FORAM BUSCAR PRESTÍGIO E PODEM TER ENTREGADO UM PROBLEMA
A estratégia bolsonarista parece ter produzido um resultado inesperado. A família queria mostrar que continuava influente internacionalmente, mas acabou colocando Trump diante de questionamentos que chegam em péssima hora.
O presidente americano precisa defender sua agenda, seus candidatos e sua maioria no Congresso. Não precisa, necessariamente, carregar no colo uma família política estrangeira que perdeu a eleição e continua tentando prolongar a disputa fora das urnas.
Flávio pode fazer oposição de Miami, Eduardo pode continuar suas articulações e os aliados americanos podem manter seus contatos. Mas existe uma pergunta que ninguém deveria ignorar: até onde Trump está disposto a gastar capital político com os Bolsonaro?
A família queria internacionalizar a crise brasileira. O que talvez não tenha calculado é que também poderia importar a crise para dentro da política americana.
E, em Washington, ninguém costuma oferecer abrigo político sem fazer contas.
Edney Souto | Blog do Edney
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