quarta-feira, 28 de outubro de 2026

FLÁVIO NÃO TINHA PLANO DE GOVERNO, TINHA UM PLANO DE FUGA: O PODER COMO ESCUDO PARA O CLÃ BOLSONARO

A candidatura que deveria apresentar soluções para o Brasil terminou cercada por questionamentos sobre os interesses da própria família. Depois da derrota, a notícia da ida aos Estados Unidos e o descumprimento de uma ordem judicial colocaram o senador no centro de uma crise política.

Na política, há candidaturas que nascem de um projeto para o país. Outras levantam suspeitas de que o projeto mais importante está dentro de casa. A campanha de Flávio Bolsonaro terminou deixando uma pergunta incômoda: o que, afinal, ele pretendia fazer com a Presidência da República?

Durante a eleição, o senador tentou se apresentar como alternativa para comandar o Brasil. Mas, diante do desfecho das urnas, o debate sobre suas propostas perdeu espaço para uma sequência de acontecimentos que exige explicações. A derrota veio, e a notícia que dominou Brasília foi a de que Flávio havia viajado para os Estados Unidos, segundo fontes ouvidas pela Reuters em 27 de outubro.

A viagem ganhou contornos ainda mais delicados porque, na véspera, o próprio senador havia afirmado que não pretendia deixar o país e que entregaria seus passaportes para cumprir a determinação judicial. Segundo a Reuters, ele não cumpriu o prazo estabelecido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A ordem estava relacionada a uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro, na qual Flávio e o advogado Willer Tomaz negam irregularidades. 

É nesse contexto que a candidatura presidencial passa a ser questionada politicamente. Flávio queria governar o Brasil, mas sua trajetória pública está profundamente ligada à defesa do pai, Jair Bolsonaro, e dos integrantes do grupo político que sustenta o bolsonarismo. A pergunta é legítima: quanto da candidatura estava dedicado a um projeto nacional e quanto estava relacionado à sobrevivência política do próprio clã?

Não há como afirmar, sem provas, que a intenção de disputar a Presidência era escapar de investigações ou proteger familiares e aliados de responsabilização criminal. Mas também não há motivo para blindar o senador de perguntas sobre seus interesses, suas prioridades e as consequências de suas decisões.

O histórico recente da família ajuda a explicar por que o assunto ganhou tanta repercussão. Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na trama golpista. Flávio, por sua vez, enfrenta investigações distintas e nega irregularidades. São situações juridicamente diferentes, que precisam ser tratadas com precisão, mas que inevitavelmente pesam sobre o discurso político da família. 

A oposição também esperava outra postura. Rogério Marinho, coordenador da campanha, declarou que ficou surpreso com a notícia da viagem, pois havia conversado com Flávio sobre a necessidade de ele assumir a liderança da oposição após receber quase 60 milhões de votos. A declaração expôs o desconforto dentro do próprio grupo.

A ironia é evidente: quem pretendia comandar o país precisava, antes de tudo, convencer os brasileiros de que suas prioridades estavam acima dos interesses particulares. Depois da eleição, porém, a discussão passou a girar em torno do paradeiro do candidato, de uma ordem judicial e das explicações que ainda eram cobradas.

No fim das contas, a Presidência não pode ser tratada como instrumento de proteção pessoal, familiar ou partidária. O cargo existe para servir à população, e não para funcionar como escudo contra investigações ou cobranças das instituições.

NA LUPA: Flávio Bolsonaro queria chegar ao Palácio do Planalto, mas a derrota colocou sob os holofotes uma questão muito maior do que o resultado eleitoral: a diferença entre disputar o poder para governar um país e buscar no poder uma possível proteção para interesses particulares. A primeira é uma finalidade legítima da democracia. A segunda, se comprovada, seria uma grave distorção da função pública. O Brasil merece respostas, não apenas discursos.

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