O incêndio atingiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (DINE), na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife, nas proximidades da Casa do Estudante. O Corpo de Bombeiros foi acionado durante a noite e permaneceu trabalhando no local durante a madrugada desta quinta-feira (8). Ao todo, oito viaturas, entre unidades de combate a incêndio, apoio e resgate, foram utilizadas na ocorrência. O trabalho de rescaldo e isolamento da área terminou por volta das 5h. Não houve registro de vítimas.
O tamanho da tragédia, porém, só começou a aparecer com mais clareza depois que o fogo foi controlado.
Segundo o reitor da UFPE, Alfredo Gomes, o edifício abrigava laboratórios ligados ao Núcleo de Inovação Terapêutica, com pesquisas relacionadas à produção de fármacos, além de estruturas das áreas de informática, computação e genética. Havia equipamentos, amostras e materiais científicos utilizados em trabalhos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Algumas pesquisas armazenavam material produzido ao longo de anos. O reitor informou que o prédio reunia dados de pesquisas que chegavam a duas décadas de produção científica. O levantamento inicial apontado pela universidade indica que o patrimônio em equipamentos existente no local poderia chegar a aproximadamente R$ 100 milhões. Ainda não existe, entretanto, um balanço definitivo do prejuízo, e a própria universidade deverá avaliar a extensão dos danos.
É aí que a dimensão do incêndio deixa de ser apenas financeira.
Um equipamento pode ser substituído. Um laboratório pode ser reconstruído. Um prédio pode ser reformado. Mas há pesquisas que não podem simplesmente ser compradas novamente. Amostras, dados, experimentos e resultados acumulados durante anos podem desaparecer em poucas horas.
Foi justamente esse o drama relatado por servidores e pesquisadores. Segundo relatos publicados pelo Diario de Pernambuco, estudantes mantinham amostras em freezers e geladeiras, enquanto pesquisadores trabalhavam com materiais que faziam parte de dissertações, teses e projetos acadêmicos. Em alguns casos, a perda pode significar a necessidade de recomeçar praticamente do zero.
O fogo também atingiu pesquisas relacionadas a temas de grande interesse científico e social. Entre os trabalhos desenvolvidos no complexo estavam projetos envolvendo câncer, obesidade, coronavírus, TDAH e autismo, além de pesquisas nas áreas de genética, informática e produção de medicamentos.
A velocidade com que as chamas se espalharam chamou atenção. De acordo com informações divulgadas pela universidade, o tipo de material armazenado no prédio contribuiu para a rápida propagação do fogo e provocou grandes danos principalmente na parte superior da edificação. Uma área do térreo, segundo avaliação inicial dos bombeiros, ainda permanecia sem sinais de calor, e os técnicos passaram a verificar a possibilidade de preservar parte da estrutura e dos materiais existentes no local.
Mas existe outro detalhe que transforma o episódio em algo ainda mais preocupante.
Este não foi um caso isolado.
A UFPE registrou três incêndios em um intervalo de apenas oito dias.
No dia 30 de setembro, um laboratório do Departamento de Física, no Centro de Ciências Exatas e da Natureza, foi atingido por chamas. Na ocasião, a suspeita inicial foi de que o fogo tivesse começado durante a utilização de um forno mufla, equipamento empregado para aquecimento de substâncias em altas temperaturas. Ninguém ficou ferido.
Depois, no domingo (4), outro incêndio atingiu o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências. Mais uma vez, não houve vítimas.
Agora, poucos dias depois, um terceiro incêndio atingiu um prédio de maiores proporções e provocou perdas consideráveis.
A sequência naturalmente acendeu o sinal de alerta dentro e fora da universidade.
É importante separar fato de especulação. Até o momento, não existe confirmação oficial de que os três episódios tenham relação entre si. Também não foi determinada a causa do incêndio que destruiu o prédio da DINE. O Corpo de Bombeiros informou que a origem deverá ser esclarecida por meio de perícia técnica.
Nas redes sociais, porém, começaram a circular relatos e suspeitas de que estudantes teriam recebido mensagens ameaçadoras antes do incêndio. O deputado federal eleito Jones Manoel afirmou que recebeu relatos de mensagens com ameaças e defendeu que Polícia Federal e Ministério Público Federal investiguem o caso diante da possibilidade de origem criminosa. Até agora, essa hipótese não foi confirmada pelas autoridades.
É justamente nesse ponto que a investigação precisa ser rigorosa e sem atalhos.
Se foi uma falha elétrica, é preciso saber onde ocorreu, por que ocorreu e se havia sinais anteriores que poderiam ter evitado a tragédia. Se houve problema em equipamento ou armazenamento de materiais, a apuração precisa apontar responsabilidades. Se houver qualquer indício de ação criminosa, a resposta precisa ser ainda mais contundente. E se não houver crime, isso também precisa ficar claro para impedir que boatos tomem o lugar dos fatos.
A universidade não pode trabalhar com especulação.
O que já está comprovado é que pesquisadores perderam equipamentos, amostras e materiais científicos. O que ainda não está comprovado é a origem do fogo.
Enquanto a perícia não apresenta respostas, o prédio permanece isolado.
Apesar da gravidade do incêndio, a UFPE informou que as atividades acadêmicas desta quinta-feira (8) estão mantidas. A Expo UFPE 2026, evento voltado para estudantes do ensino médio interessados em conhecer os cursos e oportunidades oferecidos pela universidade, foi confirmada pelo reitor. Segundo Alfredo Gomes, o prédio atingido fica relativamente afastado da área central onde ocorre a programação e foi isolado pelas equipes responsáveis pela infraestrutura da instituição.
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, manifestou solidariedade à comunidade acadêmica e afirmou que o Ministério da Educação acompanha o caso e está à disposição da universidade. O advogado-geral da União, Jorge Messias, também determinou que a Procuradoria-Geral Federal acompanhe as apurações e adote as medidas necessárias.
Agora começa uma segunda batalha, talvez tão difícil quanto apagar o incêndio: descobrir o que foi perdido e o que ainda pode ser recuperado.
A UFPE terá pela frente a tarefa de contabilizar equipamentos, reconstruir bancos de dados, identificar pesquisas afetadas, levantar amostras destruídas e avaliar o impacto acadêmico para centenas de estudantes e pesquisadores.
Para quem olha de fora, pode parecer apenas mais um prédio queimado.
Para quem estava dentro dos laboratórios, a história é completamente diferente.
Ali havia pesquisas que não começaram ontem. Havia teses, dissertações, projetos de iniciação científica, experimentos, amostras e equipamentos acumulados ao longo de anos. Em alguns casos, uma vida acadêmica inteira pode ter sido reduzida a cinzas.
E é justamente por isso que o incêndio da UFPE não pode terminar quando a fumaça desaparecer.
A pergunta agora é muito maior do que saber onde começou o fogo.
É saber por que ele conseguiu chegar tão longe, por que uma universidade registrou três ocorrências em apenas oito dias e, principalmente, o que precisa ser feito para que a próxima sirene não seja o aviso de uma nova tragédia.
A perícia terá a palavra. E Pernambuco vai precisar ouvir.
Porque quando uma universidade perde seus laboratórios, não é apenas patrimônio público que está em jogo.
É conhecimento. É pesquisa. É futuro.
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