Último confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro expôs o limite entre crítica política e ataque pessoal. Declarações contestadas por checadores e a repercussão da provocação contra o presidente colocam o comportamento dos candidatos no centro das discussões antes da votação deste domingo.
A campanha presidencial chega à reta final com uma pergunta que vai além das promessas feitas diante das câmeras: na hora de escolher quem comandará o Brasil, o eleitor vai pesar mais os argumentos, os resultados apresentados ou a maneira como cada candidato trata o adversário?O debate da TV Globo, realizado na noite da sexta-feira (23), colocou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) frente a frente pela última vez antes do segundo turno de 25 de outubro. O confronto começou com discussões sobre propostas para o país, mas terminou marcado por acusações, provocações e episódios que dominaram a repercussão política deste sábado.
Entre os momentos mais comentados esteve a referência de Flávio aos “nove dedos” de Lula. A declaração provocou reação imediata do presidente e obrigou o senador a pedir desculpas no decorrer do programa. Outro ponto de atenção foram as verificações das declarações dos dois candidatos, com informações classificadas como falsas, imprecisas, exageradas ou dependentes de contexto.
Na véspera da eleição, o debate deixou uma mensagem importante: em uma disputa presidencial, não basta falar com convicção. É preciso sustentar o que se diz.
FLÁVIO PASSOU DO PONTO AO USAR A MÃO DE LULA COMO PROVOCAÇÃO?
O episódio aconteceu quando Flávio criticou a proposta de tarifa zero nos ônibus aos fins de semana e afirmou que Lula dava com uma mão e tirava com “os nove dedos”, em referência à perda de um dedo do presidente em um acidente de trabalho.
Lula reagiu e lembrou que perdeu o dedo aos 17 anos, quando trabalhava como metalúrgico. O presidente afirmou que não aceitaria ser tratado daquela maneira e cobrou uma reparação do adversário.
Flávio pediu desculpas caso tivesse ofendido Lula, mas aproveitou a resposta para cobrar do presidente desculpas por problemas que, segundo ele, atingem a população brasileira.
O pedido de desculpas encerrou formalmente aquele momento, mas não eliminou a discussão sobre o limite da provocação política.
A crítica a um presidente é legítima e necessária. O governante deve ser cobrado pela inflação, pelo custo de vida, pela segurança pública, pelos impostos, pela saúde e pelos resultados de sua administração. O que merece questionamento é transformar uma sequela física decorrente de acidente de trabalho em instrumento de ironia.
Lula tem 81 anos e está sujeito ao julgamento dos eleitores como qualquer outro candidato. Sua idade não o torna imune a críticas, mas tampouco transforma características físicas ou marcas de sua trajetória profissional em argumentos políticos.
Aos olhos de parte do público, a cena pode ter sido interpretada como uma provocação comum de campanha. Para outros, pode ter transmitido uma imagem de arrogância e falta de respeito. O impacto real sobre os votos, entretanto, só pode ser avaliado com dados confiáveis.
A repercussão foi registrada pela cobertura do UOL. O colunista Leonardo Sakamoto avaliou que a provocação poderia pegar mal entre indecisos, mencionando impressões de grupos de controle de um instituto de pesquisa. Trata-se de uma análise atribuída ao comentarista, e não de uma comprovação de que os eleitores mudaram de candidato por causa do episódio.
O PLACAR DAS CHECAGENS: DECLARAÇÕES FALSAS E ENGANOSAS ENTRARAM NA DISCUSSÃO
Se o comportamento dos candidatos chamou atenção, o conteúdo das declarações também merece ser examinado.
O UOL Confere publicou, na madrugada deste sábado (24), uma checagem das falas de Lula e Flávio no debate. Entre os pontos destacados estão declarações do candidato do PL sobre obras públicas, segurança e o uso da expressão “cervejinha” em referência a uma suposta fala do presidente sobre roubo de celulares.
Ao afirmar que Lula teria dito que criminosos roubam celulares para tomar cerveja, Flávio reproduziu uma narrativa que o UOL classificou como falsa. Segundo a verificação, a gravação completa da fala do presidente tratava da rivalidade entre torcedores de futebol, que podem ser adversários durante uma partida e depois se encontrar para beber uma cerveja juntos. O contexto original não sustentava a interpretação apresentada pelo senador.
Outro exemplo envolveu as obras paralisadas. Flávio afirmou que um relatório recente do Tribunal de Contas da União apontava mais de 11,5 mil obras interrompidas no governo atual. O UOL Confere classificou a declaração como falsa: o painel do TCU atualizado em julho de 2026 registrava 4.215 obras paralisadas.
A diferença não é pequena. Quando um candidato apresenta um número para demonstrar o fracasso de uma administração, a atualização da informação e a origem dos dados fazem toda a diferença para a compreensão do eleitor.
A checagem também contestou a declaração de Flávio sobre a redução das embalagens de produtos, como ovos, sabão em pó, chocolate e papel higiênico. O senador atribuiu o fenômeno ao atual governo, mas o UOL apontou que a chamada reduflação já era registrada antes do terceiro mandato de Lula, inclusive em reportagens de 2021.
No debate, também houve controvérsia sobre o agronegócio e a transposição do Rio São Francisco. São temas em que o histórico das obras, o contexto das declarações e a participação de diferentes governos precisam ser considerados antes de se atribuir todo o resultado a uma única administração.
O cuidado jornalístico é importante: uma afirmação classificada como falsa não prova, por si só, que houve intenção deliberada de enganar. O que a checagem demonstra é que a declaração não corresponde às evidências disponíveis ou não se sustenta na forma em que foi apresentada.
LULA TAMBÉM TEVE DECLARAÇÕES QUESTIONADAS
A análise não pode ignorar as afirmações do presidente. A mesma checagem registrou informações de Lula que precisaram de correção ou contextualização.
Ao falar sobre obras paralisadas, o presidente afirmou ter herdado cerca de 6 mil empreendimentos interrompidos. O levantamento do TCU citado na análise indicava 8.603 obras paradas em abril de 2023.
Lula também afirmou que os investimentos em infraestrutura de seu governo teriam sido três ou quatro vezes maiores que os da administração de Jair Bolsonaro. A análise do Aos Fatos, reproduzida em levantamento posterior, apontou que os investimentos cresceram, mas que a multiplicação apresentada pelo presidente era excessiva.
Esses pontos precisam entrar na conta porque a função da checagem é avaliar os dois lados. Não existe compromisso com a verdade quando se cobra rigor de um candidato e se ignora a imprecisão do outro.
O eleitor deve exigir explicações de Lula sobre os resultados de sua administração e cobrar de Flávio a sustentação factual de suas acusações. A mesma régua precisa valer para os dois.
O que diferencia uma crítica consistente de uma narrativa eleitoral é a possibilidade de conferir os dados, consultar documentos e comparar o que foi prometido com o que efetivamente aconteceu.
ARROGÂNCIA, TOM DE VOZ E RESPEITO PODEM PESAR ENTRE OS INDECISOS
Debates presidenciais não são apenas uma sequência de perguntas e respostas. São também uma oportunidade para o público observar como os candidatos reagem à pressão, enfrentam questionamentos e tratam quem está do outro lado.
A provocação dos “nove dedos” ganhou força justamente porque desviou a discussão de uma proposta de transporte público para uma característica física do adversário. Em vez de manter o foco no financiamento da tarifa zero e nos efeitos da medida sobre os contribuintes, o confronto passou a girar em torno da frase e do pedido de desculpas.
A repercussão pode ter efeitos diferentes entre os eleitores. Quem já apoia Flávio pode enxergar o episódio como uma provocação política sem maior importância. Quem rejeita Lula pode considerar que o pedido de desculpas encerrou a questão. Já quem ainda não decidiu o voto pode observar o comportamento dos candidatos como parte de sua avaliação.
Mas há uma diferença entre identificar um possível desgaste de imagem e afirmar que ele mudou o resultado da eleição. Até o momento da publicação desta análise, não há evidência independente suficiente para atribuir uma alteração mensurável nas intenções de voto especificamente ao episódio.
O debate, portanto, não autoriza decretar que os indecisos migraram para Lula ou para Flávio. Autoriza, sim, discutir os riscos políticos de uma estratégia baseada em provocações pessoais, assim como os efeitos de declarações que não resistem à verificação dos fatos.
A ÚLTIMA PALAVRA SERÁ DO ELEITOR
Neste domingo (25), os brasileiros irão às urnas para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro. O debate da Globo será um dos últimos registros da campanha a que muitos eleitores recorrerão para avaliar os dois candidatos.
A disputa envolve temas concretos: preço dos alimentos, endividamento das famílias, segurança pública, impostos, saúde, infraestrutura, programas sociais e geração de empregos. É sobre esses assuntos que os candidatos precisam apresentar propostas claras e demonstrar como pretendem executá-las.
O eleitor também pode avaliar a postura de cada um. Reconhecer um erro, apresentar uma fonte, responder diretamente a uma pergunta e respeitar o adversário são atitudes que ajudam a qualificar o debate público. Ataques pessoais e números sem contexto, por outro lado, podem desviar a discussão do que realmente importa.
A provocação de Flávio contra Lula e as declarações contestadas dos dois candidatos deixam uma lição para a reta final: discurso forte não é sinônimo de argumento correto, assim como uma frase de efeito não substitui uma proposta viável.
Na véspera da eleição, não cabe antecipar o comportamento das urnas com base em impressões de comentaristas ou na repercussão das redes sociais. A resposta virá dos votos depositados neste domingo.
Flávio passou do ponto? Para parte dos observadores, a provocação ultrapassou o limite da crítica política. Lula também precisa responder pelas imprecisões apontadas em suas falas. Agora, a decisão cabe ao eleitor, que terá a oportunidade de comparar propostas, conferir os fatos e fazer sua escolha.
Amanhã, as urnas vão falar. E o resultado será a expressão da decisão dos brasileiros.
Edney Souto | Blog do Edney — a notícia verdade. Você atualizado o tempo todo
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