A eleição em Pernambuco entrou na reta final e, quando parecia que a campanha já tinha colocado todas as cartas na mesa, uma nova revelação joga mais combustível no debate sobre a escolha de Carlos Costa para vice de João Campos.
A frase é curta, mas politicamente pesada: “Pode cortar não.”
Segundo reportagem da revista VEJA, a declaração teria sido dada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, ao advogado Luiz Rennó, em uma conversa registrada em relatório de investigação da Polícia Federal. O assunto era um contrato de R$ 100 mil mensais envolvendo a RI Consulting, empresa que tinha Carlos Costa como sócio e administrador.
A conversa teria ocorrido em fevereiro de 2025. Rennó pergunta a Vorcaro se deveria manter o pagamento. Na mensagem, segundo a VEJA, ele explica que Carlos Costa tinha contrato de R$ 100 mil por mês para acompanhamento de projetos de lei e legislação. O advogado ainda menciona a ligação da família com o então ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, irmão de Carlos.
A resposta atribuída a Vorcaro veio direta: “Ah, sim. Pode cortar não.”
E é justamente aí que a história ganha dimensão política.
Não se trata apenas de saber que uma empresa ligada ao atual candidato a vice de João Campos recebeu dinheiro do Banco Master. Isso já havia vindo a público anteriormente. O que a nova revelação acrescenta é uma conversa atribuída ao próprio banqueiro indicando que o pagamento deveria ser preservado.
A pergunta que inevitavelmente chega à campanha de João Campos é simples: qual era exatamente a natureza dessa relação e por que aquele contrato de R$ 100 mil mensais era tratado dessa maneira pelo comando do Banco Master?
A documentação e as reportagens disponíveis mostram que a RI Consulting tinha Carlos Costa em posição central durante o período dos pagamentos. Uma alteração contratual de outubro de 2023 atribuiu a ele 90% das quotas da empresa e a administração. Em março de 2026, já durante a preparação para a disputa eleitoral, Carlos deixou a sociedade e transferiu sua participação ao pai, Silvio Costa.
Os números também chamam atenção.
Reportagens anteriores apontaram que a RI Consulting recebeu pelo menos R$ 1,1 milhão do Banco Master. Levantamentos posteriores indicaram que o total poderia chegar a R$ 2 milhões, referentes a 20 pagamentos de R$ 100 mil.
A explicação apresentada por Silvio Costa é que não havia nada de irregular na relação comercial. Segundo ele, a RI Consulting prestava serviços de consultoria política e empresarial e, no caso do Master, acompanhava a tramitação da reforma tributária e projetos de lei no Congresso, estados e municípios. Ele também afirmou que eram produzidos relatórios mensais dos serviços prestados e negou reuniões com Banco Central, BRB ou outras instituições mencionadas nas investigações.
Carlos Costa, por sua vez, afirmou que não conhece Daniel Vorcaro e atribuiu ao pai a condução da consultoria. A campanha de João Campos também não assumiu a relação comercial como sendo da campanha ou do candidato ao governo. Até aqui, não há informação pública nas fontes consultadas de que João Campos tenha recebido recursos do Banco Master ou mantido contrato com a instituição.
Mas política é também uma questão de contexto.
E o contexto não ajuda a apagar o episódio.
As mensagens reveladas pela VEJA aparecem em uma sequência na qual Vorcaro e Rennó também conversam sobre articulações em Brasília e mencionam os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. É nesse ambiente que o nome de Carlos Costa aparece associado à necessidade de manutenção do contrato.
O assunto, naturalmente, chegou ao último debate entre Raquel Lyra e João Campos.
A governadora questionou João sobre a relação do seu candidato a vice com o Banco Master e perguntou se ele sabia da existência do contrato antes de convidar Carlos Costa para integrar a chapa. João, por sua vez, respondeu atacando questões envolvendo a vice de Raquel, Priscila Krause, mantendo o confronto no terreno das relações e questionamentos envolvendo os companheiros de chapa.
NA LUPA
A questão central não é transformar uma relação empresarial em condenação política antes de qualquer conclusão das investigações. Também não é atribuir automaticamente a João Campos uma relação financeira que, pelas informações públicas consultadas, não está demonstrada.
A questão é outra.
Por que um contrato de R$ 100 mil mensais era considerado tão importante a ponto de, segundo a mensagem revelada pela VEJA, Daniel Vorcaro responder “pode cortar não”?
Essa é a pergunta que fica.
Carlos Costa deixou a administração da RI Consulting justamente quando entrou na disputa eleitoral. Antes disso, porém, esteve formalmente no comando da empresa durante parte relevante do período em que os pagamentos foram realizados.
Agora, a campanha de João Campos precisa conviver com uma palavra que entrou definitivamente no vocabulário eleitoral pernambucano: Master.
E com uma frase de apenas quatro palavras que promete continuar sendo repetida nos palanques até domingo:
“Pode cortar não.”
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