Quaest aponta empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto cresce o percentual de brasileiros que temem a volta da família Bolsonaro ao poder. A campanha do PL agora precisa lidar com um dado que vai além da intenção de voto.
A política tem dessas coisas: o resultado das urnas cria expectativas, mas a primeira pesquisa do segundo turno mostra que a disputa continua aberta e que o clima eleitoral pode mudar rapidamente.
O levantamento da Quaest, citado na análise que serve de base para esta coluna, apresenta Lula com 44% das intenções de voto, contra 46% de Flávio Bolsonaro. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, caracterizando empate técnico.
O dado merece atenção porque Flávio começou o segundo turno embalado pelo resultado da primeira etapa, por adesões partidárias e pela repercussão política de sua votação. Havia expectativa de que esse movimento se transformasse em vantagem mais confortável. Até aqui, porém, os números apresentados pela pesquisa não mostram ampliação da distância entre os dois candidatos.
Lula avançou de 42% para 44%, enquanto Flávio passou de 44% para 46%. Os dois cresceram na mesma proporção. A fotografia continua praticamente a mesma, mas o ambiente em torno da disputa começa a apresentar sinais que merecem ser observados.
O MEDO DA VOLTA DOS BOLSONAROS ENTROU NO CENTRO DO DEBATE
Um dos indicadores mais relevantes está na percepção dos eleitores sobre os riscos associados à continuidade de Lula ou ao retorno da família Bolsonaro ao poder.
Na pesquisa divulgada antes do primeiro turno, em 3 de outubro, 43% dos entrevistados afirmavam ter mais medo da continuidade do governo Lula, enquanto 40% temiam mais a volta dos Bolsonaro.
No levantamento agora citado, os dois grupos aparecem com 43%.
O movimento chama atenção porque o receio em relação à continuidade de Lula permaneceu estável, enquanto o temor da volta da família Bolsonaro aumentou três pontos percentuais.
Entre os jovens de 16 a 34 anos, a mudança foi ainda mais expressiva: o medo de Lula caiu de 48% para 45%, enquanto o receio do retorno dos Bolsonaro subiu de 39% para 45%.
A diferença de nove pontos que existia anteriormente desapareceu.
É importante fazer uma ressalva: a pesquisa, por si só, não comprova o que provocou essa mudança. O resultado, entretanto, mostra que a rejeição associada ao medo político é uma variável que as duas campanhas precisam acompanhar de perto.
A SOBERBA PODE CUSTAR CARO NA POLÍTICA
Flávio Bolsonaro saiu da primeira etapa com motivos para comemorar. O problema começa quando a comemoração se transforma em certeza antecipada de vitória.
A repercussão favorável do resultado, as adesões e a movimentação de lideranças criaram um ambiente de confiança em torno do candidato do PL. A questão é saber se esse capital político está sendo convertido em ampliação efetiva de apoio popular.
Pelos números apresentados, ainda não há essa ampliação da distância sobre Lula.
A discussão sobre a antecipação de movimentos políticos, inclusive a suposta movimentação em torno de nomes para ministérios, também merece atenção. Quando uma campanha começa a tratar o poder como se já estivesse conquistado, corre o risco de transmitir uma imagem de vitória consumada antes que o eleitor tenha encerrado sua decisão.
Mas é preciso separar a percepção política dos fatos: os números da Quaest não provam, isoladamente, que a postura de Flávio tenha provocado o crescimento do temor da volta dos Bolsonaro.
O que eles mostram é que o candidato não conseguiu transformar, até o momento retratado pelo levantamento, o impulso inicial em uma vantagem maior sobre o adversário.
LULA ENCONTRA ESPAÇO, MAS A DISPUTA SEGUE ABERTA
Para Lula, o levantamento oferece elementos para manter a campanha em movimento. O presidente aparece numericamente atrás, mas dentro da margem de erro, e o indicador sobre o medo da volta dos Bolsonaro revela uma mudança no sentimento de parte do eleitorado.
Isso não significa que a eleição esteja decidida, nem que a tendência vá necessariamente continuar. Pesquisas são retratos de determinado momento, e campanhas podem alterar o cenário ao longo do segundo turno.
A mensagem política, contudo, é clara: o resultado do primeiro turno não encerrou a disputa pela narrativa. Flávio precisa demonstrar que consegue ampliar sua base sem alimentar resistências, enquanto Lula busca transformar os sinais captados pela pesquisa em apoio eleitoral efetivo.
NA LUPA: na eleição, largar na frente não significa ter chegado primeiro. A pesquisa mostra dois candidatos separados por uma diferença pequena e um eleitorado cujo sentimento em relação aos dois campos políticos merece atenção. O segundo turno continua sendo uma disputa por votos, confiança e percepção de futuro. E nenhuma campanha deveria confundir o entusiasmo de seus apoiadores com uma vitória já garantida.
*Blog do Edney | Coluna Política na Lupa*
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