Por Edney Souto | Blog do Edney
Respeito a leitura feita pelo colega Roberto Almeida sobre o resultado das eleições em Capoeiras e reconheço que os números dos candidatos apoiados pelo prefeito Nêgo do Mercado (PSD) foram expressivos. Entretanto, discordo inteiramente da interpretação de que o resultado representa o enfraquecimento definitivo da oposição ou uma espécie de consagração de uma liderança política sem adversários no município.
A política não pode ser analisada apenas pela votação dos candidatos proporcionais. É preciso olhar o conjunto da eleição, comparar os números e, principalmente, entender o que cada resultado representa.
E é justamente quando observamos a disputa para o Governo de Pernambuco que encontramos um dado que merece atenção.
Raquel Lyra, apoiada pelo grupo do prefeito, recebeu 6.621 votos em Capoeiras, correspondentes a 59,75% dos votos válidos. João Campos, por sua vez, alcançou 4.361 votos, o equivalente a 39,36%.
São mais de 4,3 mil eleitores que fizeram uma escolha diferente daquela defendida pelo grupo governista municipal. Não é pouca coisa. Não é uma oposição inexistente. E muito menos um campo político que possa ser considerado sepultado.
Se Nêgo do Mercado fosse absoluto eleitoralmente em todas as circunstâncias, seria necessário explicar por que quase quatro em cada dez eleitores que votaram para governador escolheram João Campos.
É verdade que a votação de Silvio Costa Filho, com 6.140 votos, e de Aglailson Victor, com 5.083, demonstra capacidade de articulação, estrutura e transferência de votos do prefeito. Mas eleição proporcional tem uma dinâmica diferente da disputa majoritária. São campanhas com alianças, estruturas, compromissos e estratégias próprias.
Outro aspecto que não pode ficar fora dessa análise é o peso da máquina administrativa. Um prefeito no exercício do mandato, com visibilidade, estrutura política e capacidade de mobilização, naturalmente parte de uma posição privilegiada. Isso não diminui seus méritos, mas também não autoriza transformar todo resultado eleitoral em prova de que os adversários perderam sua capacidade de reação.
A discussão sobre a força da oposição precisa considerar também a ausência de unidade. Em Capoeiras, diferentes lideranças que poderiam representar um campo político alternativo não conseguiram construir uma estratégia conjunta capaz de enfrentar o grupo governista em condições mais competitivas.
E aí está uma questão importante: uma oposição fragmentada não é necessariamente uma oposição fraca. Muitas vezes, é uma oposição que ainda não encontrou o nome, o projeto ou a circunstância capazes de unir suas forças.
O resultado presidencial também merece uma leitura cuidadosa. Lula alcançou 86,71% dos votos em Capoeiras, com 11.285 votos. É uma votação extraordinária, mas não pode ser creditada exclusivamente a qualquer liderança municipal. O voto presidencial tem componentes nacionais, ideológicos e sociais que ultrapassam os limites da política local.
A política é dinâmica. Quem hoje parece dono do cenário pode amanhã descobrir que o eleitor tem outros planos.
Basta lembrar a eleição presidencial. Flávio Bolsonaro chegou à disputa com expectativas de vitória e acabou derrotado por Lula. A força política de um grupo, por maior que seja, não representa garantia permanente de vitória.
Em Capoeiras, podem surgir novas lideranças, nomes que hoje não estão no centro das articulações e até surpresas vindas de onde menos se espera. Uma composição política bem construída, com unidade, diálogo e objetivos comuns, pode mudar completamente o cenário de uma futura eleição municipal.
Não se trata de negar o tamanho eleitoral de Nêgo do Mercado. Ele demonstrou força, tem uma administração que precisa ser avaliada pelo conjunto de suas entregas e saiu das urnas com capital político importante. Mas uma coisa é reconhecer sua liderança; outra, bem diferente, é decretar que não existe espaço para adversários.
A eleição de outubro não entregou a ninguém um título de propriedade sobre os votos de Capoeiras.
NÊGO É FORTE, MAS NÃO É IMBATÍVEL.
E na política existe uma velha lição: o rei pode até estar confortável no seu trono, mas precisa lembrar que a coroa não é permanente. Às vezes, a mudança começa justamente de onde ninguém estava olhando.
Essa é a leitura deste blogueiro, feita com respeito à opinião de Roberto Almeida, mas com uma interpretação diferente dos números e, sobretudo, com a convicção de que a política de Capoeiras continua aberta a novos capítulos.
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