quarta-feira, 28 de outubro de 2026

OPINIÃO - O PAÍS QUE AMA A IMPUNIDADE: QUASE 60 MILHÕES DE VOTOS E UMA PERGUNTA QUE O BRASIL NÃO PODE IGNORAR

Por Edney Souto | Blog do Edney

O que mais assusta no Brasil não é apenas a notícia de um político que deixa o país depois de uma derrota eleitoral. O que deveria tirar o sono de qualquer cidadão é a dimensão do apoio que esse mesmo personagem recebeu nas urnas poucas horas antes. Quando quase 60 milhões de brasileiros escolhem alguém para governar a nação, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre um candidato e passa a envolver a sociedade que o colocou naquela posição.

A pergunta é incômoda, mas necessária: o Brasil está se acostumando tanto com a impunidade que já não enxerga contradição entre o discurso de ordem e o comportamento de quem pede para governar?

Flávio Bolsonaro recebeu quase 60 milhões de votos na eleição presidencial de 2026 e, dois dias depois, sua viagem aos Estados Unidos foi confirmada pela imprensa. O episódio ganhou repercussão porque, segundo a Reuters, o senador havia afirmado na véspera que não pretendia deixar o Brasil. A agência também noticiou que ele não cumpriu o prazo determinado pelo ministro Alexandre de Moraes para a entrega de seus passaportes. 

Os fatos, por si só, já exigem explicações. Mas a reflexão vai além da viagem. O que merece ser discutido é a distância entre o discurso apresentado durante uma campanha e a responsabilidade que se espera de alguém que pretende ocupar a Presidência da República.

Durante meses, o eleitor ouviu palavras como pátria, família, ordem, autoridade e respeito às leis. A bandeira brasileira foi exibida como símbolo de compromisso nacional. O patriotismo apareceu como credencial política. Depois da derrota, porém, a notícia da ida aos Estados Unidos colocou a coerência desse discurso sob questionamento.

É importante separar as coisas. Uma investigação não equivale a uma condenação, e viajar para o exterior não comprova, por si só, a intenção de fugir da Justiça. Acusações de crimes precisam ser sustentadas por provas e examinadas pelos órgãos competentes. Mas a existência dessas garantias não impede que a sociedade cobre explicações de figuras públicas, especialmente quando há decisões judiciais e declarações anteriores em discussão.

O problema brasileiro começa quando a cobrança deixa de ser um princípio e passa a depender da camisa política de quem está sendo questionado.

Se o investigado pertence ao grupo adversário, exige-se rigor absoluto. Se está do nosso lado, aparecem as justificativas, as teorias conspiratórias, a desconfiança seletiva e a tentativa de transformar qualquer questionamento em perseguição. A lei, que deveria ser uma regra comum, vira instrumento de conveniência. A indignação passa a ter partido, sobrenome e endereço.

É assim que a impunidade encontra terreno fértil: não necessariamente porque todos desejam a prática de crimes, mas porque parte da sociedade aceita relativizar a responsabilidade quando o suspeito representa suas preferências políticas.

O eleitor não precisa concordar com o Supremo Tribunal Federal. Pode criticar ministros, contestar decisões e defender mudanças na legislação. Isso faz parte da democracia. O que não deveria acontecer é a transformação da lealdade política em autorização para ignorar fatos, desprezar determinações judiciais ou tratar suspeitas como irrelevantes apenas porque envolvem alguém admirado.

O Brasil conhece bem esse mecanismo. Escândalos se sucedem, investigações ocupam as manchetes, acusações são lançadas de todos os lados e, pouco depois, a indignação é substituída por uma nova disputa. O cidadão se cansa, a memória coletiva encurta e a responsabilidade pública acaba soterrada pelo próximo conflito.

Nesse ambiente, o político aprende uma lição perigosa: não precisa necessariamente convencer todos de sua inocência; basta manter mobilizada uma parcela de seus apoiadores, alimentando a ideia de que qualquer cobrança é uma conspiração contra o grupo.

A consequência é devastadora. A política deixa de ser uma disputa sobre projetos para o país e se transforma em uma guerra de identidades, na qual admitir um erro do próprio lado passa a ser visto como traição.

Mas existe uma diferença fundamental entre defender um candidato e entregar a ele um cheque em branco. Democracia não significa suspender o senso crítico a cada eleição. Votar é escolher representantes, não renunciar à capacidade de questioná-los.

Os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro demonstram a força eleitoral de seu projeto e a existência de uma parcela expressiva da população que se identificou com sua candidatura. Não autorizam, entretanto, concluir que todos esses eleitores conheciam as mesmas informações, compartilhavam as mesmas motivações ou aprovavam qualquer atitude posterior do candidato.

O eleitorado é diverso. Há quem vote por ideologia, por rejeição ao adversário, por identificação religiosa, por questões econômicas ou por influência familiar. Reduzir milhões de pessoas a uma única explicação seria repetir o mesmo erro que alimenta a polarização.

Ainda assim, a votação expressiva levanta uma questão legítima: quais critérios a sociedade utiliza para decidir quem merece sua confiança? Quanto pesam os fatos diante da propaganda? Até que ponto a rejeição ao adversário se torna tão forte que leva alguém a ignorar problemas do próprio candidato?

Essas perguntas não devem ser dirigidas apenas aos eleitores de Flávio Bolsonaro. Valem para qualquer partido, qualquer liderança e qualquer grupo político. O Brasil não resolverá sua crise de confiança se continuar exigindo honestidade apenas dos adversários e concedendo indulgência automática aos aliados.

O país não precisa de cidadãos que concordem uns com os outros. Precisa de cidadãos capazes de aplicar os mesmos princípios a todos. Se a lei vale para o adversário, deve valer também para o aliado. Se uma investigação merece atenção quando atinge um político de esquerda, merece atenção quando envolve um político de direita. Se uma decisão judicial pode ser criticada, também deve ser respeitada enquanto estiver em vigor, sem prejuízo dos recursos legais disponíveis.

A impunidade não nasce apenas nos tribunais. Ela também é fortalecida quando a sociedade perde a disposição de cobrar, quando os partidos protegem seus integrantes a qualquer custo e quando o eleitor transforma sua preferência política em defesa incondicional.

É nesse ponto que o debate deixa de ser sobre Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem. Passa a ser sobre o tipo de país que queremos construir.

Um país sério não condena antecipadamente, mas também não fecha os olhos. Não transforma investigação em sentença, mas não trata suspeitas relevantes como se fossem assunto proibido. Não exige perfeição de seus representantes, mas cobra transparência, respeito às instituições e responsabilidade diante da população.

O Brasil não pode continuar confundindo fidelidade partidária com licença moral. Nenhum candidato está acima da lei, assim como nenhum adversário está autorizado a condenar alguém sem provas. O equilíbrio entre esses dois princípios é justamente o que separa uma democracia madura de uma sociedade dominada pela paixão política.

No fim, a pergunta mais importante não é por que milhões de pessoas votaram em determinado candidato. É o que cada uma de nós está disposta a aceitar em nome de uma vitória eleitoral.

Se o patriotismo só vale quando o nosso lado vence, não é patriotismo: é conveniência. Se a indignação desaparece quando o investigado é um aliado, não é compromisso com a justiça: é seletividade. E se a democracia só merece respeito quando entrega o resultado desejado, o problema é muito maior do que qualquer disputa presidencial.

O país que tolera tudo de seus próprios líderes não está apenas escolhendo representantes. Está ensinando a eles até onde podem ir sem prestar contas.

A história não registra somente os votos depositados nas urnas. Registra também as escolhas feitas depois, as explicações exigidas — ou dispensadas — e os princípios que uma sociedade decidiu preservar.

O Brasil precisa decidir se quer continuar alimentando a cultura do privilégio ou se está disposto a exigir de todos, sem distinção de partido, sobrenome ou popularidade, a mesma responsabilidade diante da lei.

Porque a democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta desrespeitar suas regras. Ela também se enfraquece quando a sociedade decide que essas regras só devem valer para os outros.

Edney Souto

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