Por Edney Souto | Blog do Edney
Se tem um grande derrotado nestas eleições, além de quem perdeu a disputa nas urnas, são os institutos de pesquisa. O resultado deixou uma pergunta incômoda no ar: até que ponto os levantamentos conseguiram enxergar o que realmente estava acontecendo nas ruas e dentro da cabeça do eleitor brasileiro?
Ao longo da campanha, pesquisas apontaram cenários que não se confirmaram integralmente nas urnas. No primeiro turno, as projeções colocaram Lula em posição de destaque. No segundo, levantamentos divulgaram cenários favoráveis a Flávio Bolsonaro. O desfecho expôs a distância que pode existir entre os números apresentados durante a campanha e a decisão tomada pelo eleitor no momento de votar.
Pesquisa não é resultado eleitoral. É fotografia de um momento, construída a partir de metodologia, amostragem e entrevistas. Mas, quando a fotografia sai muito diferente da realidade, é legítimo cobrar explicações, transparência e uma avaliação rigorosa dos métodos utilizados. A credibilidade desse setor depende justamente da capacidade de reconhecer erros e aperfeiçoar seus instrumentos.
Outro aspecto que merece atenção é a força das mobilizações populares. O vermelho voltou a ocupar espaços, as manifestações ganharam visibilidade e a disputa eleitoral mostrou que a política não acontece apenas nos estúdios de televisão, nos gabinetes ou nos números divulgados diariamente. A rua também fala. E, em uma eleição polarizada, ignorar os sinais que vêm dela pode custar caro.
Mas houve um episódio que merece uma análise particular: o debate da Globo, às vésperas da votação. Naquele momento, a disputa não era apenas sobre propostas, economia ou segurança pública. Era também uma batalha de comportamento, equilíbrio e capacidade de demonstrar preparo para ocupar a Presidência da República.
Ao recorrer à expressão “nove dedos” para atacar Lula, Flávio Bolsonaro entrou em um terreno perigoso. A provocação, em vez de necessariamente produzir o efeito desejado entre os seus apoiadores, abriu espaço para que o adversário transformasse o episódio em um confronto sobre respeito, trajetória pessoal e postura política.
Na minha avaliação, foi um erro de estratégia. Em uma eleição apertada, cada gesto tem peso, cada palavra pode repercutir para além do público que acompanha a campanha e cada minuto de televisão pode alterar a percepção de quem ainda está decidindo o voto.
Lula aproveitou a oportunidade para reagir. Ao responder à provocação, trouxe para o centro do debate a própria história de trabalhador e voltou a questionar a experiência política do adversário. A discussão deixou de ser apenas uma troca de ataques e passou a colocar em evidência duas maneiras diferentes de se apresentar ao eleitor.
Flávio pediu desculpas pela expressão, mas o episódio já havia ganhado repercussão. Em política, pedir desculpas pode ser necessário e correto, mas nem sempre é suficiente para apagar o impacto de uma declaração. O problema é que o eleitor não avalia apenas o conteúdo de um discurso. Ele também observa o tom, a postura e a capacidade de um candidato de manter o controle em situações de pressão.
É importante, entretanto, separar análise de certeza: não há como afirmar, sem dados específicos, quantos votos foram perdidos por causa daquela fala. Uma eleição é resultado de múltiplos fatores, que vão da economia à rejeição dos candidatos, passando pela mobilização partidária, pelas redes sociais e pelas alianças políticas. Ainda assim, o episódio se tornou um dos momentos mais emblemáticos da reta final da disputa.
A lição vale para qualquer candidato, de qualquer partido. Arrogância não substitui preparo. Ataque pessoal não ocupa o lugar de uma proposta convincente. E a convicção de que uma eleição já está ganha pode ser justamente o começo de uma sequência de erros.
O eleitor brasileiro pode até tolerar provocações durante uma campanha, mas também cobra responsabilidade de quem pretende governar o país. A Presidência da República exige mais do que frases de efeito, capacidade de confronto e disposição para atacar adversários. Exige equilíbrio, maturidade e compreensão do tamanho da responsabilidade que acompanha o cargo.
As pesquisas precisam rever seus métodos, os políticos precisam aprender a interpretar os sinais das ruas e os candidatos precisam entender que a campanha não se vence apenas no grito. No fim, o voto pertence ao eleitor, não aos institutos, aos marqueteiros ou às certezas dos palanques.
Na política, um erro pode mudar o rumo de uma disputa. E quem confunde arrogância com força corre o risco de descobrir, tarde demais, que a eleição não se decide pela confiança de quem disputa, mas pela escolha de quem vota.
Edney Souto
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