terça-feira, 6 de outubro de 2026

PREFEITOS MEDIRAM FORÇA NAS URNAS E TRANSFORMARAM PODER MUNICIPAL EM MANDATOS

As urnas de 2026 deixaram uma mensagem bem clara em Pernambuco: prefeito que tem grupo político forte não se limita a administrar prefeitura. Também quer mandar na Assembleia Legislativa, em Brasília e, quando possível, colocar a própria família no jogo.

A eleição para deputado estadual e federal virou uma espécie de teste de musculatura para prefeitos de várias regiões do Estado. Alguns provaram que conseguem transferir votos e eleger aliados, filhos, esposas, maridos e irmãos. Outros descobriram, da forma mais dura possível, que o eleitorado municipal não é propriedade particular de ninguém.

Em Jaboatão dos Guararapes, o prefeito Mano Medeiros (PSD) saiu das urnas com um resultado expressivo. A esposa, Andréa Medeiros, estreou na política eleitoral e conquistou uma cadeira na Alepe com 49.263 votos. Só no município administrado pelo marido foram cerca de 33 mil votos. Um recado direto de que o grupo Medeiros tem força eleitoral no segundo maior colégio eleitoral de Pernambuco.

No Cabo de Santo Agostinho, a força familiar também funcionou. Batista Cabral (PSB), irmão do prefeito Lula Cabral (SD), garantiu uma vaga na Assembleia com cerca de 73 mil votos. A votação colocou o nome do grupo entre os vencedores da disputa estadual.

Em Ipojuca, a operação eleitoral foi ainda mais robusta. O prefeito Carlos Santana (Republicanos) conseguiu eleger a filha, Lara Santana (PV), para a Alepe. E não foi com votação apertada. Lara recebeu 104.652 votos, uma das maiores marcas da eleição para deputado estadual. A cidade administrada pelo pai foi o principal motor da candidatura.

Lara, aliás, chega à Assembleia para ocupar o espaço político que já pertenceu à mãe, Simone Santana (PSB). Na política pernambucana, a cadeira muda de ocupante, mas continua dentro de casa.

No Litoral Norte, Júnior de Irmã Teca (PSD), prefeito de Itapissuma, também mostrou que o sobrenome continua sendo patrimônio eleitoral. O gestor apoiou o irmão e ex-prefeito Zé de Irmã Teca (PSD), que foi eleito deputado estadual com mais de 43 mil votos.

Em Serra Talhada, a prefeita Márcia Conrado (PT) também conseguiu levar o projeto familiar para a Alepe. O marido, Breno Araújo (PT), recebeu 47.722 votos e conquistou uma das 49 cadeiras do Legislativo estadual. Cerca de 15 mil votos vieram justamente do município administrado pela prefeita.

No Sertão de Itaparica, Petrolândia também entrou nessa conta. O prefeito Fabiano Marques (Republicanos) conseguiu eleger o filho, Bruno Marques (PSB), para deputado estadual.

Em Floresta, a família Maniçoba manteve seu espaço. Kaio Maniçoba (PP), filho da prefeita Rorró Maniçoba (PP), foi reeleito para a Assembleia. O resultado preserva a presença do grupo político na Alepe.

Garanhuns também confirmou a força do grupo comandado pelo prefeito Sivaldo Albino (PSB). Cayo Albino (PSB), filho do gestor, conquistou definitivamente uma cadeira na Alepe com 60.753 votos. Ele já havia exercido o mandato duas vezes como suplente durante a atual legislatura e agora chega ao cargo de titular eleito pelas urnas.

O mapa mostra que, em diferentes regiões de Pernambuco, a eleição serviu para consolidar verdadeiros núcleos familiares de poder. São prefeitos que não apenas disputaram a própria influência, mas utilizaram a estrutura política construída nos municípios para projetar parentes para o Legislativo.

E quando a conta chega a Brasília, a história não é muito diferente.

Em Surubim, o prefeito Cléber Chaparral (União Brasil) viu a esposa, Juliana de Chaparral (União Brasil), conquistar uma das maiores votações de Pernambuco para a Câmara dos Deputados. Foram impressionantes 183.089 votos.

Em Vitória de Santo Antão, Paulo Roberto (MDB) conseguiu reelegar a filha, Iza Arruda (MDB), para a Câmara Federal. Iza já havia conquistado o mandato em 2022 e agora garantiu mais quatro anos em Brasília. O outro filho do prefeito, Túlio Arruda, entretanto, tentou uma vaga na Alepe e acabou ficando pelo caminho.

Petrolina apresentou um cenário ainda mais emblemático. O grupo político ligado ao prefeito Simão Durando (União Brasil) conseguiu garantir Fernando Filho (União Brasil) novamente na Câmara dos Deputados e Antonio Coelho (União Brasil) na Assembleia Legislativa.

Mas nem todo mundo da família passou pelo crivo das urnas. Miguel Coelho, ex-prefeito de Petrolina e irmão dos dois eleitos, tentou chegar à Câmara Federal, mas não conseguiu.

E é justamente aí que está o detalhe mais importante dessa eleição: sobrenome ajuda, estrutura ajuda, prefeitura ajuda, grupo político ajuda. Mas nada disso garante mandato.

Em Olinda, a prefeita Mirella Almeida (PSD) não conseguiu transformar seu apoio em uma vaga para o ex-prefeito Professor Lupércio (PSD). Depois de dois mandatos à frente da Prefeitura, Lupércio tentou retornar à política pela porta da Alepe, mas ficou fora da lista dos eleitos.

Em Abreu e Lima, o prefeito Flávio Gadelha (PSB) também não conseguiu eleger o filho, Flávio Gadelha Filho (MDB), para a Assembleia.

O mesmo aconteceu em Moreno. Edmilson Cupertino (PP) apoiou o filho, Tierry Cupertino (PP), mas o projeto familiar não alcançou votos suficientes para garantir uma cadeira na Alepe.

Na Zona da Mata, Henrique Queiroz (PP) também sofreu um revés. O prefeito de Buenos Aires não conseguiu manter o filho, Henrique Queiroz Filho (PP), na Assembleia. O deputado estadual buscava a reeleição, mas ficou fora da nova composição da Casa.

Em Caruaru, outro exemplo de que prefeitura não é urna particular. O prefeito Rodrigo Pinheiro (PSDB) apoiou o secretário municipal de Articulação Social, Anderson Luiz (PSD), na corrida pela Alepe. O candidato, porém, não conseguiu se eleger.

No fim das contas, a eleição de 2026 deixou duas lições políticas bem claras.

A primeira é que prefeitos continuam sendo peças fundamentais na montagem das chapas e na transferência de votos. Quem controla uma máquina municipal organizada, tem grupo, lideranças e presença nos bairros e comunidades pode fazer a diferença numa eleição proporcional.

A segunda é que o eleitor também sabe dizer não. Em vários municípios, estruturas poderosas foram colocadas à prova e não conseguiram produzir o resultado esperado.

Pernambuco sai das urnas com uma nova fotografia do poder. Famílias tradicionais ampliaram espaços, novos sobrenomes chegaram à Alepe e Brasília e alguns grupos conseguiram transformar prefeitura em trampolim eleitoral.

Mas também houve prefeito que descobriu que apoio político tem limite.

Porque, no final, quem aperta o botão é o eleitor. E sobrenome nenhum vota sozinho.

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