terça-feira, 6 de outubro de 2026

PSD FICA NEUTRO ENTRE LULA E FLÁVIO E LIBERA BASES PARA ESCOLHER CAMINHO NO SEGUNDO TURNO

Decisão de Gilberto Kassab preserva alianças regionais e deixa governadores, parlamentares e diretórios livres para apoiar Lula ou Flávio Bolsonaro; em Pernambuco, posição de Raquel Lyra ganha ainda mais peso

O PSD decidiu não vestir a camisa de nenhum dos dois candidatos que sobreviveram à disputa presidencial de 2026. Depois de ver Ronaldo Caiado terminar o primeiro turno em quarto lugar, com 2,18% dos votos válidos, o partido comandado nacionalmente por Gilberto Kassab anunciou neutralidade no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Na prática, o PSD não terá candidato oficial na disputa presidencial e também não vai impor uma orientação nacional aos seus filiados. Cada diretório estadual, parlamentar, governador, prefeito, liderança ou militante poderá escolher de que lado ficará na disputa marcada para 25 de outubro.

A decisão foi anunciada por Kassab na noite do domingo (4), poucas horas depois da confirmação do segundo turno. Em nota oficial, o presidente nacional da legenda argumentou que a posição é consequência da própria estratégia adotada pelo partido durante a eleição, já que as estruturas estaduais tiveram liberdade para construir alianças diferentes de acordo com a realidade política de cada região. 

A conta política é simples: o PSD não quer transformar uma eleição presidencial em uma camisa de força capaz de comprometer seus interesses nos estados.

E aí está a parte mais importante da decisão.

O PSD chega ao segundo turno dividido. Há setores da legenda mais próximos de Lula, especialmente em estados do Norte e Nordeste, enquanto grupos do Centro-Oeste, Sul e Sudeste possuem maior afinidade com a candidatura de Flávio Bolsonaro. Uma decisão nacional por um dos dois lados poderia criar problemas justamente onde o partido construiu alianças locais diferentes ao longo dos últimos anos. 

CAIADO SAI DA DISPUTA, MAS PSD SAI GRANDE DO PRIMEIRO TURNO

Ronaldo Caiado foi a aposta presidencial do PSD em sua primeira candidatura nacional. O resultado, porém, ficou muito abaixo do que o partido pretendia.

O ex-governador de Goiás terminou o primeiro turno com aproximadamente 2,18% dos votos válidos e não conseguiu entrar na briga pelo segundo turno. A candidatura também não conseguiu furar a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, que concentrou a maior parte do eleitorado.

Mesmo assim, Kassab tratou de separar o desempenho presidencial do resultado geral da legenda.

O PSD elegeu 43 deputados federais, dois senadores e quatro governadores no primeiro turno. Além disso, Omar Aziz disputa o segundo turno no Amazonas e Eduardo Paes está na disputa pelo Governo do Rio de Janeiro. Nas Assembleias Legislativas, a legenda elegeu 103 deputados estaduais. 

O partido também chega ao pós-eleição com uma estrutura municipal robusta. São cerca de 1.350 prefeitos e aproximadamente 7 mil vereadores espalhados pelo país, segundo o próprio PSD.

Ou seja: Caiado não conseguiu chegar ao segundo turno, mas Kassab continua sentado sobre uma máquina política considerável.

E é justamente essa estrutura que agora está sendo colocada à disposição das diferentes realidades estaduais.

KASSAB NÃO QUER PAGAR A CONTA DE UMA ESCOLHA NACIONAL

A neutralidade também pode ser lida como uma decisão pragmática de Gilberto Kassab.

Se o PSD escolhesse Lula, correria o risco de criar um problema com lideranças de direita que integram seus quadros. Se escolhesse Flávio, poderia provocar desconforto entre governadores, prefeitos e parlamentares que possuem relações políticas com o governo Lula.

Ao liberar todos, Kassab preserva a legenda para qualquer que seja o resultado de 25 de outubro.

É uma velha lógica da política brasileira: quando não é possível controlar o resultado, tenta-se preservar espaço com os dois lados.

Na nota divulgada após o primeiro turno, Kassab lamentou a derrota de Caiado e afirmou que o país perdeu uma oportunidade ao não escolher o candidato do PSD. Ao mesmo tempo, deixou claro que a legenda continuará trabalhando independentemente de quem vencer a eleição presidencial. 

O partido, portanto, abandona a disputa presidencial como legenda organizada e entra no segundo turno como uma espécie de federação informal de interesses regionais.

Cada estado seguirá seu próprio caminho.

EM PERNAMBUCO, RAQUEL LYRA GANHA AINDA MAIS LIBERDADE

É justamente nesse ponto que Pernambuco entra no radar.

Reeleita governadora pelo PSD, Raquel Lyra tem sinalizado que não pretende simplesmente seguir uma orientação nacional para declarar apoio no segundo turno. A governadora vem resistindo a assumir uma posição automática entre Lula e Flávio Bolsonaro, o que agora se torna mais confortável diante da decisão tomada por Kassab. 

A situação é politicamente delicada.

Raquel manteve relação institucional com Lula durante o primeiro mandato e recebeu investimentos e ações federais em Pernambuco. Ao mesmo tempo, construiu uma trajetória política própria e, depois da reeleição, não demonstrou disposição para transformar o PSD pernambucano em uma extensão da campanha presidencial petista.

Com a neutralidade nacional do PSD, a governadora ganha margem para decidir o próprio posicionamento sem precisar enfrentar uma determinação formal da direção nacional.

E isso vale não apenas para Raquel.

Deputados estaduais e federais, prefeitos, lideranças e demais integrantes do partido também estão liberados para tomar suas próprias decisões.

Em Pernambuco, portanto, o PSD poderá ter integrantes defendendo Lula, outros apoiando Flávio e alguns preferindo ficar neutros.

Tudo dentro da regra estabelecida pelo próprio partido.

UMA ELEIÇÃO DENTRO DA ELEIÇÃO

O segundo turno começa, assim, com uma disputa que não será apenas entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Será também uma corrida pelos apoios daqueles que ficaram pelo caminho.

Os votos de Caiado, somados aos de outros candidatos que não chegaram à segunda etapa, passaram a ser cobiçados pelas duas campanhas. O PSD, entretanto, decidiu não entregar esse patrimônio eleitoral em um pacote fechado.

Cada liderança terá sua própria negociação.

A estratégia evita que Kassab tenha de escolher um lado nacionalmente e, ao mesmo tempo, permite que seus quadros regionais negociem de acordo com seus interesses políticos.

Não por acaso, a decisão foi tomada logo após a consolidação do primeiro turno.

A diferença entre Lula e Flávio é suficientemente apertada para transformar qualquer apoio relevante em ativo eleitoral. Segundo dados divulgados após a apuração, os dois chegaram ao segundo turno separados por pouco mais de dois milhões de votos. Somados, os votos recebidos por Caiado e Renan Santos ultrapassaram essa diferença. 

Isso explica por que as próximas semanas serão marcadas por uma verdadeira corrida aos partidos e lideranças que ficaram fora da disputa presidencial.

O PSD PODE SER NEUTRO, MAS SEUS POLÍTICOS NÃO PRECISAM SER

A decisão de Kassab não significa que o PSD ficará completamente distante da campanha.

Significa que o partido, enquanto direção nacional, não vai pedir voto oficialmente para Lula ou Flávio.

Os seus políticos, porém, podem fazer exatamente o contrário.

Governadores poderão declarar apoio. Prefeitos poderão participar de atos. Parlamentares poderão subir em palanques. Diretórios estaduais poderão construir alianças. Filiados poderão fazer campanha.

Tudo está liberado.

Um exemplo já aparece no Rio Grande do Sul. O governador Eduardo Leite, também do PSD, afirmou que tende à neutralidade pessoal no segundo turno, embora ainda fosse discutir a questão com o partido. Em Pernambuco, Raquel Lyra também aparece entre as principais lideranças do PSD que não demonstraram disposição de embarcar automaticamente em uma das candidaturas presidenciais. 

Isso mostra como a neutralidade de Kassab não é apenas uma decisão burocrática.

Ela reflete a própria diversidade interna do partido.

UM PSD MAIS FORTE NO CONGRESSO E NOS ESTADOS

Apesar do tropeço de Caiado, o PSD termina o primeiro turno com motivos para comemorar.

A legenda recebeu 9,39 milhões de votos para deputado federal e cresceu 13% em relação a 2022. Passou a ocupar a terceira posição entre os partidos mais votados para a Câmara e elegeu representantes em 17 estados. 

Nas Assembleias Legislativas, o crescimento foi ainda mais expressivo: foram 11,48 milhões de votos e 103 deputados eleitos, 24 a mais que em 2022.

Nos governos estaduais, o PSD também ampliou sua presença.

Em Pernambuco, Raquel Lyra foi reeleita com 53,27% dos votos válidos. Fábio Mitidieri venceu novamente em Sergipe, enquanto Eduardo Braide conquistou o Maranhão e Antônio Furlan venceu no Amapá. Omar Aziz e Eduardo Paes continuam na disputa pelo segundo turno no Amazonas e no Rio de Janeiro. 

Portanto, o partido perdeu a eleição presidencial, mas ganhou musculatura regional.

E essa musculatura será importante para o próximo governo, seja ele comandado por Lula ou por Flávio Bolsonaro.

A CARTA DE KASSAB PARA 2027

Por trás da neutralidade existe também uma aposta para o futuro.

O PSD não sabe quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 1º de janeiro de 2027. Mas sabe que terá uma bancada relevante no Congresso, governadores, deputados estaduais, prefeitos e uma estrutura municipal espalhada pelo país.

Manter as portas abertas para os dois lados pode ser mais interessante do que escolher antecipadamente um vencedor.

Se Lula ganhar, o PSD poderá apresentar seus governadores e parlamentares como aliados disponíveis para uma composição institucional.

Se Flávio Bolsonaro vencer, a mesma legenda poderá argumentar que não fez oposição ao novo governo e que seus quadros estavam livres para apoiar o candidato eleito.

É o velho centro político fazendo aquilo que sabe fazer melhor: sobreviver às mudanças de vento.

E AGORA?

A decisão do PSD coloca seus principais líderes estaduais diante de uma escolha individual.

Em Pernambuco, a atenção se volta especialmente para Raquel Lyra. Reeleita com uma votação expressiva, dona de uma estrutura política ampliada e agora respaldada pela neutralidade nacional do próprio partido, a governadora terá liberdade para decidir se entra na campanha de Lula, se se aproxima de Flávio Bolsonaro ou se permanece fora da disputa presidencial.

E qualquer uma das três opções terá consequência política.

A neutralidade de Kassab, portanto, não encerra a discussão.

Pelo contrário.

Ela abre espaço para uma nova rodada de negociações nos estados.

O PSD não escolheu Lula.

Também não escolheu Flávio.

Escolheu deixar cada pedaço do partido escolher o seu próprio caminho.

E, no segundo turno mais polarizado da eleição, essa liberdade pode valer tanto quanto um apoio formal.

A decisão oficial do PSD e a repercussão nacional confirmam esse desenho: neutralidade nacional, liberdade estadual e forte preservação da autonomia política das lideranças. 

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