Depois de uma campanha em que manteve uma relação institucional com o Governo Federal, reconheceu publicamente a importância das parcerias e evitou transformar a eleição estadual em uma guerra nacional, Raquel decidiu permanecer neutra no segundo turno presidencial. E a decisão ganha um peso político ainda maior depois da passagem de Lula por Pernambuco, quando o presidente esteve no Recife ao lado de João Campos (PSB) e pediu votos para o então candidato ao Governo do Estado.
Não é segredo que Raquel construiu, ao longo do mandato, uma relação de parceria administrativa com o governo Lula. A própria governadora fez questão de reconhecer isso depois da vitória nas urnas. Em entrevista à Folha, citou a entrega de milhares de moradias, a retomada de obras, ações na BR-104, obras de segurança hídrica e outros investimentos como resultados de uma relação institucional construída entre o Estado e a União.
Raquel também poderia ter usado essa relação para entrar de cabeça na campanha presidencial. Não fez isso.
Durante a eleição para o Governo de Pernambuco, a governadora chegou a defender publicamente que Lula mantivesse neutralidade na disputa estadual. O presidente, entretanto, tomou outro caminho. Na reta final do primeiro turno, desembarcou no Recife, participou de ato ao lado de João Campos e pediu votos para o candidato do PSB.
Agora, depois de derrotar João Campos e conquistar a reeleição no primeiro turno, Raquel está sendo procurada pelos dois lados da disputa presidencial. Aliados de Lula e de Flávio Bolsonaro já fizeram contatos em busca de uma aproximação. Marília Arraes, Humberto Costa e outros nomes ligados ao campo lulista também procuraram abrir diálogo.
A resposta, entretanto, continua sendo a mesma.
Raquel diz que não vai declarar apoio a nenhum dos dois candidatos. Segundo ela, trata-se da mesma coerência que adotou desde 2022: colocar Pernambuco acima da disputa presidencial e manter diálogo institucional com qualquer presidente eleito.
“Eu vou manter minha coerência”, afirmou a governadora nesta quarta-feira. Raquel também voltou a agradecer a Lula pela parceria administrativa e deixou claro que pretende continuar buscando recursos e obras para Pernambuco independentemente de quem vencer a eleição nacional.
É justamente aí que está o componente político mais interessante da história.
Raquel fez questão de separar gratidão administrativa de alinhamento eleitoral. Reconhece o que recebeu do Governo Federal, agradece ao presidente e aos ministros, mas não entende que uma parceria institucional obrigue Pernambuco a entrar em um palanque presidencial.
E há outro detalhe que pesa nessa equação: Raquel não apoiou nem sequer o candidato à Presidência de seu próprio partido durante o primeiro turno. O PSD não fechou questão em torno de uma candidatura presidencial, e a governadora manteve a postura de não escolher lado.
Na leitura de aliados, essa postura reforça a ideia de que a governadora não pretende transformar a relação construída com Brasília em uma dívida eleitoral.
Foi parceira quando Pernambuco precisou. Reconheceu os investimentos federais. Manteve as portas abertas para Lula durante o mandato. Evitou confrontos desnecessários. Mas, na hora da eleição presidencial, decidiu seguir o mesmo caminho que vinha anunciando.
E isso explica também por que Marília Arraes desistiu de insistir numa conversa para tentar levar Raquel ao palanque de Lula. A senadora eleita percebeu que a governadora não pretende mudar a posição adotada desde o começo da disputa.
O curioso é que a neutralidade de Raquel não significa rompimento com Lula. Muito pelo contrário. A governadora continua dizendo ser grata ao presidente e afirma que pretende manter a parceria administrativa com o Governo Federal. Em entrevista, resumiu a relação como uma parceria baseada em trabalho e entrega.
A diferença está justamente aí: uma coisa é trabalhar com o presidente da República; outra é pedir voto para ele.
Raquel parece ter escolhido separar as duas coisas.
Depois de vencer a eleição estadual com 53,3% dos votos válidos contra 44,8% de João Campos, a governadora ganhou ainda mais espaço para sustentar essa posição.
Lula fez sua escolha em Pernambuco. Raquel agora faz a dela no segundo turno nacional: não subir no palanque de ninguém.
E, politicamente, a mensagem é clara: a governadora quer preservar a relação institucional com Brasília, mas não pretende transformar a parceria construída durante o mandato em compromisso eleitoral.
No fim das contas, a neutralidade de Raquel pode ser lida como gratidão sem submissão política. Ela reconhece o que Lula fez por Pernambuco, mas também não esquece que, quando chegou a hora da eleição estadual, o presidente escolheu outro palanque.
Agora, cada um segue o seu caminho.
Raquel continua dizendo que Pernambuco vem primeiro. Lula continua buscando votos para sua própria eleição.
E Marília Arraes, que tentou aproximar os dois lados, já percebeu que, pelo menos por enquanto, a governadora não pretende mudar de posição.
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