Governadora reeleita terá cenário mais favorável na Alepe e na Câmara Federal e já sinaliza que pretende virar a página dos conflitos com o Legislativo
A vitória de Raquel Lyra (PSD) nas urnas não terminou apenas com a reeleição para mais quatro anos no comando de Pernambuco. O resultado de 4 de outubro também redesenhou o tabuleiro político do Estado e entregou à governadora uma condição que ela não teve com a mesma tranquilidade durante o primeiro mandato: uma base política numericamente forte no Legislativo.
Com mais de 53% dos votos válidos e uma diferença expressiva sobre João Campos (PSB), Raquel chega ao segundo mandato fortalecida eleitoralmente e, principalmente, com aliados ocupando a maioria das cadeiras da Assembleia Legislativa e com uma bancada favorável também na Câmara Federal.
Na Alepe, os partidos que integram o campo político da governadora elegeram 27 deputados, contra 22 parlamentares ligados à oposição. A conta, porém, não é simplesmente partidária. Há deputados eleitos por legendas que estiveram no palanque de João Campos, mas que durante a campanha declararam apoio a Raquel ou demonstraram disposição de dialogar com o Palácio do Campo das Princesas.
É justamente nessa composição que a governadora pretende trabalhar.
O novo cenário também muda o peso de nomes que, durante o primeiro mandato, fizeram oposição dura ao governo. Alberto Feitosa (PL), por exemplo, foi um dos principais críticos da gestão, enquanto Fabrízio Ferraz (Podemos) esteve no campo de João Campos. Gleide Ângelo (PP), que anteriormente estava no PSB, também não acompanhou Raquel durante a eleição.
Por outro lado, parlamentares eleitos por partidos que estavam formalmente em outro campo político podem acabar integrando a base governista. É o caso dos parlamentares do PV e de um deputado petista, que passam a ser peças importantes na nova aritmética da Assembleia.
Na Câmara Federal, o cenário também é favorável à governadora. 13 deputados eleitos estão no campo governista, enquanto 12 pertencem a partidos que fizeram oposição ao projeto de reeleição de Raquel. A situação ainda pode ganhar novos contornos a partir da postura individual de cada parlamentar.
Um exemplo foi Clodoaldo Magalhães (PV), eleito por uma legenda que esteve no campo da Frente Popular, mas que declarou apoio a Raquel durante a campanha.
RAQUEL QUER VIRAR A PÁGINA
O primeiro mandato foi marcado por momentos de forte tensão entre o Executivo e a Assembleia Legislativa. A relação com o presidente da Alepe, Álvaro Porto (MDB), um dos principais nomes da oposição ao governo, foi um dos símbolos desse confronto.
A disputa política chegou a afetar a tramitação de matérias consideradas estratégicas pelo Executivo, especialmente projetos relacionados a operações de crédito e ao orçamento estadual.
Agora, Raquel parece disposta a mudar a estratégia.
Em entrevista nesta segunda-feira, a governadora reeleita deixou claro que pretende conversar inclusive com quem fez oposição durante a campanha.
O recado é direto: acabou a eleição, começa outra etapa.
Raquel afirmou que espera contar com uma ampla maioria na Assembleia e disse que pretende chamar também parlamentares eleitos por partidos adversários para construir uma relação baseada nos interesses de Pernambuco.
A governadora também fez uma leitura política do resultado das urnas. Para ela, a polarização e os ataques marcaram uma eleição extremamente dura e agora precisam dar lugar a um ambiente de maior tranquilidade.
O discurso é de pacificação, mas não deixa de carregar uma mensagem política importante: Raquel não quer governar apenas com quem esteve no seu palanque. Quer atrair parte de quem estava do outro lado.
A estratégia pode ser fundamental para o segundo mandato.
Com uma base maior e uma oposição numericamente menor, a governadora terá melhores condições para aprovar projetos, discutir orçamento, buscar novos investimentos e avançar em pautas que dependem da Assembleia.
Mais do que contar votos, porém, será necessário administrar egos, interesses e alianças. A política pernambucana mostrou durante os últimos quatro anos que uma maioria no papel não significa necessariamente tranquilidade na prática.
Raquel sabe disso.
Por isso, o discurso adotado após a vitória é de diálogo, mas o movimento político já começa a ser observado de perto nos bastidores. A governadora que passou quatro anos enfrentando uma oposição organizada agora terá a oportunidade de construir uma maioria política mais confortável.
E, pelo tom adotado nesta segunda-feira, ela pretende fazer isso sem olhar para trás.
Pernambuco entra, portanto, em uma nova fase. A eleição terminou. Os palanques começam a ser desmontados. E a governadora reeleita já deixou claro que quer transformar a força conquistada nas urnas em governabilidade nos próximos quatro anos.
Agora começa a parte mais difícil: fazer essa maioria funcionar.
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