A manifestação política de um dos integrantes da dupla sertaneja Jorge & Mateus terminou provocando consequências que ultrapassaram as redes sociais. As prefeituras do Recife e de Fortaleza decidiram cancelar as apresentações dos artistas nas festas de Réveillon depois de uma onda de críticas à participação do cantor Jorge em um encontro de apoio a Flávio Bolsonaro (PL), durante a campanha presidencial de 2026.
O episódio ganhou força após voltar a circular um vídeo no qual Jorge adapta o refrão de um dos sucessos da dupla e canta: “Pode chorar, mas eu não voto no PT”. A gravação foi feita no dia 20 de outubro, em uma fazenda localizada em Nerópolis, na região metropolitana de Goiânia, durante um encontro de artistas sertanejos com Flávio Bolsonaro.
A declaração, feita em plena campanha eleitoral, dividiu opiniões e provocou uma reação especialmente forte entre internautas nordestinos. A região teve ampla maioria de votos para Lula (PT) na disputa presidencial, e parte do público passou a questionar a presença da dupla nas festas de duas capitais historicamente identificadas com o eleitorado petista.
A polêmica, entretanto, precisa ser compreendida com uma distinção importante: Jorge declarou oposição ao PT e manifestou apoio político a Flávio Bolsonaro, mas não há, no vídeo que desencadeou a controvérsia, uma declaração direta contra o Nordeste ou contra os nordestinos. Mateus também não aparece no encontro e não há comprovação de que tenha participado daquela manifestação política.
VÍDEO, PRESSÃO NAS REDES E CANCELAMENTO
O encontro em Goiás reuniu mais de 30 representantes da música sertaneja. Entre os nomes presentes estavam Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Marrone, Murilo Huff e Felipe Araújo. A mobilização foi organizada pelo senador Wilder Morais (PL-GO), em sua propriedade, e contou também com a participação de políticos e do empresário Pablo Marçal.
Na ocasião, Flávio Bolsonaro apresentou críticas ao governo Lula e buscou ampliar o apoio de artistas à sua candidatura. Jorge participou da movimentação e deixou pública sua preferência eleitoral. Em entrevista após o encontro, afirmou que o Brasil estava cansado de ser enganado.
A repercussão ganhou outra dimensão quando a dupla foi anunciada como atração dos Réveillons de Recife e Fortaleza. Nas redes sociais, internautas passaram a cobrar das administrações municipais o cancelamento das apresentações. O argumento dos críticos era que as cidades não deveriam contratar uma atração cuja manifestação política havia provocado tanta rejeição entre parte do público local.
RECIFE VOLTOU ATRÁS APÓS PRESSÃO POPULAR
No Recife, o episódio teve um capítulo particular. Inicialmente, o prefeito Victor Marques (PCdoB) defendeu a contratação e destacou que a festa da capital pernambucana deveria respeitar a pluralidade de opiniões.
Entretanto, diante da continuidade das manifestações contrárias, o prefeito mudou de posição na terça-feira (3) e anunciou a retirada da dupla da programação.
A apresentação estava prevista para o dia 27 de dezembro. Ao comunicar a decisão, Victor Marques afirmou que o período de festas deveria ser marcado pela união, fraternidade e renovação da esperança. Segundo ele, não havia mais clima para a apresentação de Jorge & Mateus dentro da programação municipal.
Em Fortaleza, o prefeito Evandro Leitão (PT) também anunciou o cancelamento. O gestor explicou que questões posteriores envolvendo a dupla provocaram uma polêmica que acabou desviando a atenção do verdadeiro objetivo da festa popular.
A Prefeitura de Fortaleza informou que o cancelamento foi acordado legalmente e que os cachês dos artistas eram integralmente custeados por patrocinadores privados, sem utilização de recursos municipais para essa finalidade.
JORGE SE PRONUNCIA E NEGA ATAQUES AO NORDESTE
Nesta quarta-feira (4), Jorge resolveu se manifestar publicamente sobre a repercussão. O cantor negou ter feito declarações ofensivas ao Nordeste e afirmou que frases atribuídas a ele nas redes sociais não correspondem à verdade.
Em sua manifestação, destacou o carinho, a admiração e o respeito que tem pela região, lembrando sua trajetória profissional e os shows realizados nos estados nordestinos.
O sertanejo também fez questão de separar sua manifestação individual da imagem da dupla. Segundo ele, a situação diz respeito exclusivamente a uma questão pessoal e não deve ser atribuída a Mateus ou à história construída pelos dois artistas.
Jorge afirmou ainda que respeita opiniões diferentes e defendeu que o diálogo e a empatia prevaleçam mesmo diante das divergências políticas.
Um detalhe importante veio à tona em uma apuração publicada pelo UOL nesta quarta-feira. As duas prefeituras informaram que não receberam nem identificaram vídeos com declarações xenofóbicas do cantor e negaram que os cancelamentos tenham sido motivados por supostos ataques aos nordestinos. O que efetivamente desencadeou a crise foi a repercussão do posicionamento político de Jorge e a pressão nas redes sociais.
Portanto, é necessário separar os fatos: uma coisa é o direito do artista de manifestar sua preferência política; outra é a reação do público, que também tem liberdade para criticar, boicotar e questionar a escolha de atrações para eventos populares.
FÃS SAEM EM DEFESA DO CANTOR
Enquanto parte dos internautas comemorou o cancelamento, admiradores da dupla também se mobilizaram em defesa de Jorge. Uma carta aberta começou a circular nas redes sociais, pedindo respeito à trajetória do cantor e criticando os ataques pessoais motivados por suas posições políticas.
O documento foi divulgado pela página @centraljorgebarcelos e sustenta que divergências ideológicas não deveriam justificar humilhações ou tentativas de desqualificar a carreira de um artista.
Os fãs reconhecem que Jorge está sujeito a críticas por suas escolhas, mas defendem que discordar de uma posição política não significa ter o direito de promover agressões pessoais.
A polêmica deixa uma discussão que vai além da música sertaneja. Em um país ainda marcado pela polarização eleitoral, artistas têm liberdade para escolher seus candidatos, assim como o público tem liberdade para demonstrar aprovação ou rejeição. No caso de Jorge & Mateus, a repercussão chegou ao palco antes mesmo da virada do ano e acabou retirando a dupla de duas das maiores festas populares do Nordeste.
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