A segurança pública deixou de ser apenas uma preocupação cotidiana para se transformar no principal eixo do debate político no Brasil — e Pernambuco caminha na mesma direção. Pesquisas recentes confirmam o que já se percebe nas ruas: o medo da violência passou a ocupar o centro das inquietações da população, superando temas históricos como corrupção e saúde. Levantamento do instituto Ipsos divulgado neste mês mostra que 45% dos brasileiros apontam o crime e a violência como o maior problema do país. Antes disso, em dezembro, o Datafolha revelou que a violência já alterou a rotina de 72% da população, um dado que ajuda a explicar a centralidade do tema no imaginário coletivo.
No contexto pernambucano, esse cenário tende a ganhar ainda mais peso com a proximidade das eleições. Um relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), apresentado em junho do ano passado, reforça o alerta ao apontar que 97% dos municípios enfrentam falhas de gestão na área de segurança pública. O diagnóstico evidencia fragilidades estruturais e administrativas que extrapolam estatísticas e impactam diretamente a sensação de insegurança vivida pela população.
Ciente da relevância do tema, a governadora Raquel Lyra (PSD) tem adotado um discurso firme de enfrentamento à criminalidade e feito da segurança pública uma das vitrines de sua gestão. Entre as promessas anunciadas, está a nomeação de até 7 mil novos profissionais até o fim deste ano. Em agendas oficiais, a chefe do Executivo estadual tem enfatizado os números apresentados pelo governo, além de intensificar a entrega de viaturas e armamentos às forças policiais, numa tentativa de demonstrar presença do Estado e resposta rápida à escalada da violência.
Do outro lado do tabuleiro político, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), tem trilhado um caminho distinto, apostando na reestruturação da guarda municipal como símbolo de uma política de segurança com identidade própria. Uma de suas principais promessas de campanha para a reeleição é o armamento da corporação, com previsão de entrega dos equipamentos até o fim do primeiro semestre deste ano. O projeto inclui ainda o uso de câmeras corporais nos uniformes, medida que dialoga tanto com o discurso de modernização da gestão quanto com a cobrança da população por mais proteção nos espaços urbanos.
Para o professor Marco Túlio Delgobbo Freitas, doutor pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, a segurança pública tende a ocupar posição central não apenas no debate nacional, mas também na disputa estadual em Pernambuco. Segundo ele, a crescente preocupação da população com o tema cria um ambiente propício para que a pauta seja amplamente explorada no embate entre situação e oposição. Mais do que números, o professor chama atenção para um fator decisivo: a percepção de segurança no cotidiano das pessoas.
Na avaliação de Marco Túlio, ampliar efetivos e reforçar a presença policial não é, por si só, suficiente para mudar essa percepção. Ela é construída a partir das experiências individuais e do convívio social, o que exige estratégias mais amplas. Nesse sentido, o desafio da governadora passa não apenas por melhorar indicadores oficiais de criminalidade, mas por implementar ações capazes de gerar, de fato, a sensação de segurança junto à população.
A cientista política Priscila Lapa concorda que a ênfase na segurança pública é um componente natural das disputas estaduais, já que a área é uma atribuição constitucional dos governos estaduais. Ela lembra que, em Pernambuco, o tema já teve protagonismo em eleições anteriores, especialmente durante o auge do Pacto pela Vida, na era Eduardo Campos. Para Priscila, a popularização dos novos policiais militares, apelidados de “laranjinhas”, é mais um sinal de que a segurança pública voltará a ser amplamente explorada na campanha deste ano.
Outro ponto sensível destacado pela cientista política é o enfrentamento aos feminicídios. Para ela, o fato de Raquel Lyra ser mulher confere à governadora um lugar de fala diferenciado e uma representatividade que pode fortalecer o discurso sobre políticas de proteção às mulheres, um tema que também dialoga diretamente com a agenda da segurança pública.
Já em relação a João Campos, Marco Túlio avalia que, caso se consolide como candidato ao governo estadual, o prefeito do Recife deverá adotar um discurso crítico à condução atual da política de segurança, mas sem recorrer a uma retórica exclusivamente punitivista. A tendência, segundo ele, é que Campos combine críticas à eficácia das ações do governo com a apresentação de uma agenda alternativa, buscando se posicionar como uma opção de renovação e eficiência administrativa.
Nesse contexto, o armamento da guarda municipal do Recife surge como um ativo político relevante. Para Priscila Lapa, a iniciativa reforça a imagem de gestão moderna que João Campos procura transmitir e responde diretamente a cobranças feitas pela população nas últimas eleições. Mais do que uma medida administrativa, o projeto se transforma em símbolo de posicionamento político e pode servir como vitrine eleitoral em uma disputa cada vez mais marcada pelo medo da violência e pela busca por soluções concretas.
Com a segurança pública no topo das preocupações dos brasileiros e dos pernambucanos, o tema promete atravessar discursos, embates e estratégias eleitorais. Mais do que uma pauta, tornou-se o fio condutor de uma eleição que será decidida, em grande parte, pela capacidade dos candidatos de convencer a população de que são capazes de devolver algo cada vez mais escasso: a sensação de viver sem medo.