A justificativa oficial veio pela voz do líder do governo na Casa, vereador Samuel Salazar (MDB). Segundo ele, o prefeito estava em Brasília cumprindo agenda com o ministro das Cidades, Renan Filho, em busca de recursos e tratativas consideradas estratégicas para o Recife. A missão institucional, de acordo com o governista, seria prioridade absoluta, sobretudo diante de projetos e investimentos em curso. Salazar ainda tratou de minimizar o peso simbólico da sessão, lembrando que não se tratava de início de legislatura nem de um novo biênio, mas apenas da reabertura anual dos trabalhos.
No lugar do prefeito, quem assumiu a missão de representar o Executivo foi o secretário de Planejamento, Jorge Vieira. Coube a ele levar a palavra oficial da gestão, mas o clima já não era protocolar. Logo nos primeiros momentos da sessão, o presidente da Câmara, Romerinho Jatobá, precisou intervir para pedir desculpas públicas ao secretário, após uma abordagem considerada desrespeitosa por parte de um vereador — em referência a Eduardo Moura. O gesto de Jatobá expôs que, mesmo antes dos discursos políticos mais duros, o ambiente já estava longe da cordialidade institucional.
Se na base governista o discurso foi de normalidade administrativa, na oposição o tom foi de cobrança e indignação. O vereador Felipe Alecrim classificou a ausência de João Campos como um desrespeito ao Poder Legislativo e um gesto de desprestígio à própria cidade. Para ele, a sessão era uma oportunidade crucial para o prefeito ouvir críticas, sugestões e demandas dos parlamentares — inclusive daqueles que não integram sua base de apoio.
Alecrim foi além ao resgatar a lembrança da última abertura de trabalhos, quando, segundo ele, João Campos esteve presente, mas deixou o plenário antes de escutar os pronunciamentos tanto da base quanto da oposição. Na avaliação do vereador, o comportamento reforça uma postura de distanciamento político em relação à Câmara justamente no momento em que o prefeito se prepara para trocar o Palácio Capibaribe pelo palanque estadual.
A crítica central da oposição é que o gesto não atinge apenas adversários políticos, mas a instituição Câmara Municipal como um todo. Em ano pré-eleitoral e às vésperas de deixar o cargo, a ausência foi lida como sintoma de prioridades que já estariam mais voltadas para o mapa de Pernambuco do que para o plenário do Recife.
Nos bastidores, a leitura é clara: enquanto aliados vendem a imagem de um prefeito em Brasília “correndo atrás de recursos”, opositores enxergam um gestor que evita o contraditório e prefere agendas controladas a um plenário onde críticas ecoam sem roteiro prévio. Entre a versão oficial e a percepção política, fica o fato concreto — na sessão que poderia marcar um dos últimos balanços presenciais de sua gestão na Câmara, João Campos não estava lá. E, em política, ausências também fazem discurso.