A abertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) em 2026 foi marcada por um clima de tensão contida, gestos calculados e um discurso estratégico da governadora Raquel Lyra, que escolheu o tom da conciliação em um cenário político historicamente turbulento entre o Executivo e o Legislativo estadual.
Diante dos deputados estaduais, Raquel reforçou que o novo ano exige “responsabilidade política ainda maior” por se tratar de um período eleitoral, e fez um apelo direto à união entre os poderes. Em sua fala, destacou que o futuro de Pernambuco depende de equilíbrio e maturidade institucional. “O futuro não se constrói com gritos, mas com serenidade, coragem e trabalhando incansavelmente”, afirmou, em uma clara sinalização de que pretende evitar o embate direto, ao menos no discurso público.
A governadora também fez questão de agradecer a parceria da Assembleia Legislativa e dos prefeitos pernambucanos, creditando aos canais de diálogo os avanços obtidos até agora. Segundo ela, as entregas do governo só foram possíveis porque houve “diálogo e respeito acima de tudo”, uma frase que soou como resposta indireta às críticas recorrentes de parte do parlamento.
O tom conciliador contrastou com o discurso feito pouco antes pelo presidente da Alepe, deputado Álvaro Porto, adversário político da governadora. Sem citar nomes, ele falou em “ataques à imagem do Legislativo” e acusou a existência de “tentativas patrocinadas por aqueles que querem um legislativo submisso, acovardado e inerte”. Em tom firme, completou: “Não serei silente diante das agressões, não me apequenarei perante aqueles que, por motivos inconfessáveis, nos querem como um poder subalterno, subserviente e subjugado”.
Apesar da dureza das palavras, Raquel Lyra optou por não rebater. Ignorou o teor do discurso e manteve sua linha de fala institucional, evitando alimentar a disputa no plenário. O gesto foi interpretado por aliados como estratégia de distensionamento, especialmente em um ano em que a pauta política deve se misturar com a agenda eleitoral.
Mesmo com o histórico recente de embates públicos entre os dois poderes, a sessão foi considerada mais serena do que as aberturas legislativas de 2024 e 2025. No ano passado, o clima foi mais pesado: em 2024, Álvaro Porto chegou a usar palavras ofensivas contra a governadora sem perceber que o microfone da mesa estava aberto. Já em 2025, além do discurso duro do presidente da Casa, a governadora também enfrentou críticas diretas do líder da oposição, deputado Diogo Moraes.
Desta vez, a tensão maior veio das galerias. Dois pequenos grupos — policiais civis e defensores do passe livre — protestaram durante a sessão, gritando palavras de ordem. As manifestações, no entanto, foram abafadas pelas palmas de apoiadores, integrantes da base governista e secretários estaduais que acompanharam a governadora.
Nos bastidores, o Palácio do Campo das Princesas também adotou uma estratégia para poupar Raquel de novos desgastes. A confirmação de sua ida à Alepe só foi feita na hora do almoço, e a agenda foi organizada para que ela não precisasse permanecer no plenário durante o discurso do líder da oposição, deputado Cayo Albino. Assim que concluiu sua fala, a governadora deixou o local alegando outros compromissos oficiais.
A saída provocou um esvaziamento quase imediato do plenário e das galerias. Dos 42 deputados que registraram presença no início da sessão, menos de 15 permaneceram para acompanhar os pronunciamentos finais de Cayo Albino e da líder do Governo na Casa, deputada Socorro Pimentel.
O episódio escancarou que, apesar do discurso de união, a relação entre Executivo e Legislativo segue marcada por desconfianças e movimentos táticos. Ainda assim, a abertura de 2026 deixou um recado claro: ao menos publicamente, o governo do Estado quer trocar o confronto direto por uma narrativa de estabilidade institucional — algo que pode pesar tanto na governabilidade quanto no ambiente eleitoral que se desenha em Pernambuco.