Da REDAÇÃO - Edney Souto
A nova pesquisa Quaest para o Senado em Pernambuco ajuda a organizar o tabuleiro, mas está longe de entregar o desenho da eleição. Pelo contrário. O levantamento divulgado nesta terça-feira (8) mostra uma disputa extremamente aberta pelas duas cadeiras que estarão em jogo em outubro e revela que o eleitor pernambucano ainda está longe de ter tomado uma decisão definitiva.
Marília Arraes aparece numericamente na primeira colocação, com 17%, seguida por Humberto Costa, com 14%, e Mendonça Filho, com 11%. Eduardo da Fonte vem logo atrás, com 7%, enquanto Túlio Gadêlha aparece com 4%. A questão é que, considerando a margem de erro de três pontos percentuais, os três primeiros estão tecnicamente empatados.
Ou seja: não há hoje um líder isolado no Senado de Pernambuco.
E talvez o número mais importante da pesquisa esteja justamente fora da lista dos candidatos.
São 27% de eleitores indecisos e outros 18% que declararam voto branco, nulo ou disseram que não pretendem votar. Na prática, 45% dos entrevistados ainda não estão associados a nenhum dos candidatos apresentados no levantamento. É um volume enorme de votos em aberto.
Isso significa que a fotografia atual pode mudar bastante até a reta final.
A situação fica ainda mais interessante porque a eleição de 2026 não é uma disputa por uma única cadeira. O eleitor pernambucano terá direito a dois votos para o Senado. Por isso, a matemática eleitoral passa pela combinação de nomes. O candidato que conquistar o primeiro voto de determinado eleitor pode, por exemplo, aparecer também como segunda opção de outro eleitor.
É justamente nessa matemática que Eduardo da Fonte pode estar construindo sua estratégia.
O candidato do PP aparece com 7% na Quaest, contra 6% no levantamento anterior. O crescimento foi de apenas um ponto, dentro da margem de erro, portanto não permite afirmar que exista uma tendência consolidada de alta. Mas também seria um erro ignorar o movimento político ao redor de sua candidatura.
Eduardo vem aparecendo ao lado de Raquel Lyra em diferentes agendas pelo Estado e integra oficialmente a chapa governista ao Senado ao lado de Túlio Gadêlha. Nos últimos dias, esteve em mobilizações em municípios como Feira Nova, Quipapá e Cabo de Santo Agostinho, ampliando sua exposição junto à governadora e às lideranças municipais.
E aqui está uma das grandes perguntas da eleição:
até onde vai o voto de Eduardo da Fonte quando a campanha entrar na fase de maior intensidade?
Porque os 7% da Quaest não podem ser lidos isoladamente. O deputado tem uma estrutura política construída ao longo de anos, presença em diferentes regiões do Estado e uma estratégia de associação direta ao projeto de Raquel Lyra. Ao mesmo tempo, existe uma disputa aberta pelo eleitor governista.
Mendonça Filho, que aparece com 11%, também tenta ocupar esse espaço. Embora esteja concorrendo pelo PL e não integre formalmente a chapa majoritária de Raquel, o ex-governador tem explorado publicamente sua proximidade política com a governadora.
Essa movimentação chegou inclusive à Justiça Eleitoral. Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha acionaram o TRE-PE contra propaganda de Mendonça que, segundo a representação, associava sua candidatura à imagem de Raquel Lyra. A Justiça concedeu liminar determinando a retirada das peças questionadas.
Esse episódio mostra que a briga pelo chamado voto governista não é detalhe de campanha. É uma das disputas centrais da eleição para o Senado.
E é aí que a Quaest ganha uma leitura política ainda mais interessante.
Mendonça tem 11%. Eduardo tem 7%. Túlio tem 4%. Mas esses números não necessariamente representam grupos eleitorais completamente separados. Existe sobreposição. Um eleitor pode votar em Mendonça e Eduardo. Outro pode escolher Eduardo e Túlio. Outro pode combinar Marília com Humberto. Outro pode simplesmente ainda não ter escolhido ninguém.
Por isso, a eleição para o Senado não pode ser analisada como se fosse uma corrida tradicional de primeiro colocado, segundo colocado e terceiro colocado.
É uma eleição de combinações.
Marília Arraes, por exemplo, oscilou de 16% para 17%. Humberto Costa passou de 13% para 14%. Mendonça Filho teve a maior evolução entre os quatro principais nomes, saindo de 9% para 11%. Eduardo da Fonte foi de 6% para 7%, enquanto Túlio Gadêlha avançou de 3% para 4%.
Nenhuma dessas movimentações, isoladamente, é suficiente para decretar tendência definitiva. Mas o crescimento de Mendonça merece atenção porque ele passou a entrar no debate como um candidato competitivo e pode pressionar diretamente a estratégia governista.
Eduardo, por sua vez, continua sendo a grande incógnita.
Não porque esteja fora do jogo. Muito pelo contrário.
Ele está dentro de uma equação política que pode ser muito maior do que os 7% registrados na pesquisa. A questão é saber se conseguirá transformar estrutura política, alianças municipais e presença ao lado de Raquel em voto efetivo para o Senado.
E existe ainda outro ponto: Eduardo pode ser beneficiado pela lógica do segundo voto.
Se conseguir se consolidar como um nome competitivo entre os eleitores que já escolheram outro candidato para a primeira vaga, poderá avançar rapidamente. Essa é uma das razões pelas quais uma pesquisa com 45% de eleitores entre indecisos, brancos, nulos e não votantes ainda não permite cravar praticamente nada.
O cenário é tão aberto que até a liderança de Marília Arraes precisa ser observada com cautela. Ela aparece numericamente na frente, mas sua vantagem sobre Humberto Costa é de apenas três pontos. E, considerando a margem de erro, os três primeiros estão tecnicamente empatados.
O mesmo vale para Humberto e Mendonça.
Portanto, a manchete correta não é simplesmente dizer que Marília lidera.
A manchete mais precisa é: Marília está numericamente na frente, mas a disputa pelas duas vagas permanece completamente aberta.
E isso muda bastante a leitura política.
Outro dado relevante é que a corrida para o Senado ainda apresenta um nível de indefinição muito maior do que a disputa pelo Governo de Pernambuco. A própria Quaest divulgada no mesmo dia colocou Raquel Lyra com 43% e João Campos com 37% no primeiro turno, enquanto a disputa pelo Senado aparece pulverizada entre vários nomes e com um enorme contingente de eleitores ainda sem escolha.
Isso significa que os candidatos ao Senado terão uma batalha própria para travar.
Não basta estar na chapa de determinado candidato a governador. É necessário convencer o eleitor a apertar o número duas vezes, escolhendo dois nomes diferentes.
E essa é a parte da eleição que ainda está muito nebulosa.
Eduardo da Fonte é hoje uma incógnita porque sua pesquisa não traduz necessariamente o tamanho de sua estrutura política, mas também porque ainda não existe evidência suficiente para dizer que ele já conseguiu converter essa estrutura em voto.
A campanha terá que responder essa pergunta.
Se Eduardo conseguir crescer dos atuais 7% e transformar-se em uma opção natural para o segundo voto do eleitorado governista, poderá entrar de maneira muito mais forte na disputa pelas duas cadeiras. Se permanecer estacionado nessa faixa enquanto Marília, Humberto e Mendonça avançam, sua situação ficará mais complicada.
A mesma lógica vale para Túlio Gadêlha, que aparece com 4% e também terá que transformar sua presença na chapa governista em competitividade eleitoral.
Enquanto isso, Marília, Humberto e Mendonça começam a disputar uma faixa de eleitor que parece mais consolidada.
O detalhe é que ninguém pode dormir tranquilo.
Com 27% de indecisos e 18% de brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar, ainda existe uma quantidade gigantesca de votos disponíveis
E quando quase metade do eleitorado ainda não definiu uma escolha válida entre os candidatos, a eleição pode mudar de maneira muito rápida.
A Quaest de setembro, portanto, não fecha a conta do Senado pernambucano. Ela abre ainda mais a disputa.
Marília está na frente numericamente. Humberto mantém competitividade. Mendonça cresce e entra de vez na briga. Eduardo da Fonte segue como a grande incógnita, com uma estrutura política relevante e uma candidatura que ainda precisa provar, nas pesquisas, o tamanho que seus aliados acreditam possuir. Túlio tenta encontrar espaço em uma corrida extremamente congestionada.
Hoje, qualquer aposta definitiva sobre os dois eleitos seria precipitada.
O que existe é uma fotografia.
E, para o Senado, a fotografia ainda está bastante desfocada.