Pedro Campos foi o mais votado, Jones Manoel surpreendeu com votação expressiva e Juliana de Chaparral consolidou sua força eleitoral. Nova composição terá 25 parlamentares, seis mulheres e disputas que vão muito além da briga entre João Campos e Raquel Lyra.
Por Edney Souto | Blog do Edney
A eleição passou, as urnas foram fechadas, mas a disputa pelo poder em Pernambuco está longe de terminar. O resultado para a Câmara Federal deixou um recado claro: ninguém pode reivindicar sozinho o controle político do estado. A nova bancada pernambucana chega a Brasília com forças tradicionais, nomes estreantes, lideranças ideológicas e parlamentares que terão de provar, na prática, o tamanho de sua influência.
Pernambuco elegeu 25 deputados federais para a legislatura de 2027 a 2031. A nova composição terá representantes de 13 partidos, seis mulheres e uma renovação significativa, com a chegada de nomes que nunca ocuparam uma cadeira na Câmara Federal. Ao mesmo tempo, 13 parlamentares conseguiram a reeleição, demonstrando que a experiência política e as estruturas eleitorais continuam pesando na decisão do eleitor.
O resultado mais expressivo individualmente foi o de Pedro Campos (PSB), que recebeu 261.555 votos e terminou na primeira colocação. Logo atrás veio Jones Manoel (PSOL), com 249.077 votos, uma votação que chamou atenção pela força de uma candidatura identificada com a esquerda ideológica. Anderson Ferreira (PL), com 185.429 votos, completou os três primeiros lugares.
A mensagem das urnas é clara: Pernambuco continua sendo um estado de disputas intensas, mas o eleitor não está preso a uma única corrente política. A votação dos três primeiros colocados revela diferentes formas de mobilização, que vão da tradição partidária à identidade ideológica e à força de lideranças consolidadas.
JONES MANOEL E O RECADO DA ESQUERDA IDEOLÓGICA
A segunda colocação de Jones Manoel é um dos resultados que merecem atenção especial. Com quase 250 mil votos, o novo deputado federal demonstra que existe espaço eleitoral para candidaturas que apostam em posicionamentos ideológicos definidos, discurso combativo e presença nas redes sociais.
A votação também representa uma conquista para o PSOL, que passa a ter um representante pernambucano na Câmara Federal. O resultado amplia a diversidade dentro da própria esquerda, que não depende exclusivamente das estruturas tradicionais do PT e do PSB para disputar espaço político.
A chegada de Jones a Brasília poderá trazer novos embates no debate nacional, especialmente em temas econômicos, sociais e relacionados aos direitos dos trabalhadores. Sua votação, porém, não deve ser interpretada automaticamente como uma transferência de apoio a qualquer liderança estadual. O eleitor pode votar em uma candidatura nacionalmente identificada com a esquerda e, ao mesmo tempo, fazer escolhas diferentes na política local.
PEDRO CAMPOS MANTÉM O PSB NA DIANTEIRA
O PSB continua sendo a maior bancada partidária de Pernambuco, com quatro deputados federais eleitos. Apesar da liderança, a legenda perdeu uma cadeira em relação à composição anterior, quando tinha cinco representantes.
Pedro Campos confirmou sua força eleitoral e terminou como o candidato mais votado do estado. Também foram eleitos Felipe Carreras, com 148.971 votos; Gabriel Porto, com 114.860; e Eliane Soares, com 102.396.
O resultado mantém o PSB em posição privilegiada na política pernambucana, mas a eleição também mostra que o peso histórico da legenda não impede o crescimento de outras forças.
Para o grupo de João Campos, a bancada federal é um ativo político importante. Entretanto, a influência do partido dependerá da capacidade de transformar votos em articulação, recursos, projetos e participação efetiva nas decisões nacionais.
Ter a maior bancada estadual não significa, por si só, controlar as decisões em Brasília.
PT TRIPLICA REPRESENTAÇÃO E PODE AMPLIAR INFLUÊNCIA
O PT saiu fortalecido da disputa para deputado federal em Pernambuco. A legenda passou de um representante na bancada anterior para três eleitos: Carlos Veras, com 133.118 votos; Rosa Amorim, com 144.101; e Liana Cirne, com 85.039.
O crescimento coloca o partido entre as principais forças da representação pernambucana na Câmara, ao lado do Podemos, que também conquistou três cadeiras.
A expansão petista fortalece a presença do partido ligado ao presidente Lula no estado e amplia sua capacidade de participação nos debates nacionais. Mas a quantidade de cadeiras não resolve tudo: a influência de cada parlamentar dependerá também das comissões que integrar, das alianças construídas e da capacidade de negociar dentro da Câmara.
Rosa Amorim aparece entre os destaques dessa renovação, enquanto Carlos Veras mantém seu mandato. Liana Cirne, por sua vez, chega à Câmara Federal depois de sua trajetória na política municipal do Recife.
JULIANA DE CHAPARRAL MOSTRA FORÇA E ENTRA NO JOGO GRANDE
Entre as mulheres, Juliana de Chaparral (União Brasil) foi a mais votada, com 183.089 votos. Sua votação a colocou na quinta posição geral do estado, praticamente empatada com Marcelo Gouveia, que recebeu 183.124 votos.
O desempenho confirma a capacidade de articulação eleitoral de Juliana e amplia sua projeção na política pernambucana. A eleição para a Câmara Federal muda o tamanho do palco: a partir de 2027, sua atuação será observada não apenas pela presença política em Pernambuco, mas também pelo desempenho em Brasília.
Juliana terá a oportunidade de consolidar sua liderança, ampliar interlocuções e demonstrar como pretende representar os municípios que contribuíram para sua votação.
Em uma bancada marcada por diferentes grupos e interesses regionais, a força nas urnas abre portas, mas é a atuação parlamentar que determinará o peso político ao longo do mandato.
RAQUEL LYRA E JOÃO CAMPOS: QUEM SAIU GANHANDO?
A nova bancada também alimenta uma pergunta inevitável nos bastidores: quem terá mais força em Brasília, os aliados de Raquel Lyra ou os aliados de João Campos?
A resposta não cabe em uma simples soma de cadeiras.
Os partidos que participaram das alianças estaduais elegeram representantes para a Câmara, mas a distribuição não significa que todos os parlamentares agirão de maneira uniforme durante os quatro anos de mandato. As prioridades municipais, os interesses partidários, a relação com o governo federal e as negociações em torno de recursos podem modificar alianças conforme cada votação.
A eleição proporcional também tem uma dinâmica própria. Diferentemente da disputa pelo governo, em que o eleitor escolhe diretamente entre candidaturas majoritárias, a distribuição das vagas para deputado federal depende do desempenho dos partidos e das federações, conforme as regras eleitorais.
Por isso, atribuir automaticamente cada deputado a um dos dois principais grupos estaduais pode produzir uma leitura incompleta.
Raquel Lyra chega à nova legislatura depois de conquistar a reeleição para o governo estadual no primeiro turno. João Campos, por sua vez, mantém no PSB uma estrutura partidária relevante e uma bancada com quatro representantes. Os dois grupos terão motivos para disputar protagonismo, mas a verdadeira dimensão dessa força será percebida nas articulações por investimentos, emendas e projetos de interesse de Pernambuco.
No fim das contas, o que importa não é apenas quem estará ao lado de quem na fotografia política, mas quem conseguirá abrir portas e apresentar resultados para a população.
O CENTRÃO CONTINUA SENDO PEÇA-CHAVE
Se a esquerda avançou e a direita conservadora manteve presença, os partidos de centro e as legendas com forte capacidade de negociação continuam ocupando um espaço estratégico.
O Podemos elegeu Marcelo Gouveia, Gilson Machado e Ricardo Teobaldo. A legenda não tinha representantes na bancada pernambucana anterior e agora passa a dividir com o PT o posto de segunda maior força partidária do estado, atrás do PSB.
A União Brasil e o PP elegeram dois deputados cada. O PSD também conquistou duas cadeiras, enquanto Republicanos, PL e outras legendas completam o mosaico político.
O resultado evidencia uma característica recorrente da política brasileira: a força de uma bancada não é medida exclusivamente pela identidade ideológica de seus integrantes. A capacidade de negociação, a relação com o Executivo e o acesso aos espaços de decisão também contam.
Em Brasília, partidos com perfis diferentes podem convergir em determinadas pautas e divergir em outras. É justamente nesse ambiente que a articulação política se transforma em poder efetivo.
SEIS MULHERES: A BANCADA FEMININA DOBRA DE TAMANHO
Outro resultado importante foi o crescimento da representação feminina. Pernambuco elegeu seis deputadas federais, o dobro das três mulheres que integravam a bancada eleita em 2022.
Além de Juliana de Chaparral e Rosa Amorim, foram eleitas Clarissa Tércio (PP), com 110.608 votos; Iza Arruda (MDB), com 103.758; Eliane Soares (PSB), com 102.396; e Liana Cirne (PT), com 85.039.
A presença feminina ganhou espaço em diferentes campos políticos. A nova bancada reúne representantes de partidos de esquerda, centro e direita, demonstrando que o avanço não ficou restrito a uma única corrente ideológica.
O crescimento numérico é positivo, mas ainda não significa igualdade de representação. As seis mulheres ocupam 24% das cadeiras pernambucanas na Câmara Federal, enquanto os homens continuam representando a maioria da bancada.
O desafio agora será transformar essa presença em participação efetiva nos espaços de decisão, na condução de comissões, na relatoria de projetos e na distribuição de recursos políticos.
A eleição abre uma porta importante. A consolidação desse avanço dependerá do que acontecerá durante os próximos quatro anos.
E A DIREITA? PL E NOVO GARANTEM ESPAÇO
A direita conservadora também garantiu presença na nova bancada. Anderson Ferreira e Thiago Medina foram eleitos pelo PL, que conquistou duas cadeiras em Pernambuco. O Partido Novo terá Eduardo Moura como representante, depois de uma votação de 113.482 votos.
Anderson, terceiro colocado no ranking geral, demonstra que o campo conservador mantém uma base eleitoral expressiva no estado. Thiago Medina, por sua vez, estreia na Câmara Federal, enquanto Eduardo Moura chega ao Congresso representando uma legenda que não tinha cadeira pernambucana na composição anterior.
A nova bancada não deve ser tratada como um bloco uniforme. Existem diferenças de estratégia, de posicionamento e de prioridades entre os partidos, mesmo quando compartilham pautas conservadoras ou liberais.
O desempenho dos parlamentares será observado especialmente nas discussões econômicas, nos debates sobre segurança pública e nos temas ligados aos costumes.
EVANGÉLICOS: PRESENÇA POLÍTICA EXIGE MAIS DO QUE IDENTIDADE RELIGIOSA
Clarissa Tércio mantém espaço na Câmara Federal, enquanto Anderson Ferreira retorna ao cenário parlamentar federal e Thiago Medina estreia pelo PL. Os resultados mostram a permanência de lideranças que dialogam com setores religiosos e conservadores.
Entretanto, é necessário distinguir a identidade religiosa individual da representação política de toda a comunidade evangélica. Nem todo parlamentar evangélico atua da mesma maneira, e o eleitor desse segmento também considera fatores como partido, avaliação de governo, realidade econômica e interesses locais.
Por isso, qualquer comparação rigorosa entre a bancada evangélica de 2022 e a eleita em 2026 exige critérios claros: vínculos com igrejas, atuação parlamentar e participação em articulações organizadas do segmento.
O que se pode afirmar a partir dos resultados é que lideranças com esse perfil continuam competitivas. Para concluir se a influência evangélica aumentou ou diminuiu, porém, é preciso ir além da religião declarada e observar o comportamento político dos parlamentares.
RENOVAÇÃO COM CONTINUIDADE: QUEM CHEGA E QUEM FICA
A nova composição combina 13 reeleitos com parlamentares que chegam pela primeira vez à Câmara Federal ou retornam à Casa. Entre os novos nomes estão Jones Manoel, Juliana de Chaparral, Rosa Amorim, Gilson Machado, Marcelo Gouveia, Gabriel Porto, Eliane Soares, Liana Cirne, Thiago Medina e Eduardo Moura, entre outros.
Ao mesmo tempo, nomes conhecidos conseguiram preservar seus mandatos, como Pedro Campos, Felipe Carreras, Carlos Veras, Fernando Filho, Fernando Monteiro, Clarissa Tércio, Iza Arruda, Guilherme Uchoa Júnior, Waldemar Oliveira, Augusto Coutinho, Clodoaldo Magalhães, Lula da Fonte e Silvio Costa Filho.
A lista também revela mudanças importantes em relação à legislatura anterior. O PSB perdeu uma cadeira, o PT triplicou sua representação e o Podemos estreou com três deputados. PSOL e Novo também conquistaram espaço.
Essas alterações mostram que o eleitorado pernambucano preservou parte de suas referências, mas abriu espaço para novas candidaturas e diferentes discursos políticos.
O TESTE COMEÇA EM BRASÍLIA
A fotografia eleitoral está pronta, mas o mandato ainda precisa começar. A partir de fevereiro de 2027, os 25 representantes pernambucanos terão a oportunidade de transformar a votação recebida em atuação parlamentar.
A população cobrará recursos para os municípios, investimentos em infraestrutura, saúde, educação e segurança pública. Também será necessário acompanhar o posicionamento de cada deputado em votações importantes e sua participação na fiscalização do governo federal.
A bancada chega a Brasília sem um dono incontestável. O PSB mantém a maior representação partidária, o PT avança, o Podemos surpreende, a direita conserva espaço e as mulheres ampliam sua presença.
O verdadeiro resultado dessa eleição não será medido apenas pelos votos contabilizados em outubro, mas pela capacidade de cada parlamentar de representar Pernambuco durante os próximos quatro anos.
Na política, eleição garante mandato. Influência se constrói no exercício dele.
Edney Souto
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