Com estilo inconfundível, bordões marcantes e uma maneira dramática de narrar os acontecimentos, jornalista deixou sua marca no rádio e na televisão brasileira
Algumas vozes atravessam gerações. Outras se tornam parte da própria história da comunicação brasileira. Gil Gomes foi uma delas. Com voz grave, pausas calculadas, gestos característicos e uma narrativa carregada de suspense, o jornalista conquistou milhões de brasileiros e se transformou em um dos nomes mais conhecidos do jornalismo policial no país.
Dono do inesquecível bordão “Aqui, agora!”, Gil ganhou projeção nacional ao integrar o programa *Aqui Agora*, do SBT, nos anos 1990. Sua maneira de contar histórias, reconstituir crimes e apresentar personagens transformava cada reportagem em uma narrativa que prendia a atenção do público do começo ao fim.
Cândido Gil Gomes Júnior morreu em 16 de outubro de 2018, aos 78 anos, no Hospital São Paulo, na capital paulista, em decorrência de complicações de um câncer. Oito anos depois, sua trajetória continua sendo lembrada como um capítulo marcante da história do rádio e da televisão no Brasil.
UMA INFÂNCIA DE DESAFIOS E UMA VOZ QUE SE TORNOU MARCA REGISTRADA
Nascido em 1940, em Sorocaba, no interior de São Paulo, Gil Gomes enfrentou dificuldades na infância e na adolescência por causa de uma forte gagueira. Para superar o problema, começou a imitar a fala acelerada dos locutores esportivos que acompanhava pelo rádio.
O que começou como uma tentativa de vencer uma dificuldade acabou ajudando a desenvolver uma das características mais marcantes de sua carreira: o domínio da voz e do ritmo da narrativa.
Aos 18 anos, depois de realizar locuções em quermesses de igreja, conseguiu seu primeiro emprego profissional na Rádio Progresso, trabalhando como locutor esportivo. A experiência abriu as portas para uma trajetória que passaria por diferentes emissoras e formatos de comunicação.
A entrada definitiva no jornalismo policial aconteceu em 1968, na Rádio Marconi. Na ocasião, Gil trabalhava com reportagens variadas quando soube de um caso de violência sexual nas dependências do prédio da emissora. Interrompeu a atividade que realizava e foi acompanhar o episódio.
A repercussão surpreendeu. Os ouvintes começaram a telefonar para a rádio em busca de mais informações, e aquela cobertura acabou mudando os rumos de sua vida profissional. Gil, que inicialmente não desejava seguir pelo caminho das notícias policiais, encontrou nesse segmento o espaço em que construiria sua identidade.
NO RÁDIO, ELE FAZIA O OUVINTE IMAGINAR CADA CENA
Nas décadas de 1970 e 1980, Gil Gomes se consolidou como um dos grandes nomes da crônica policial radiofônica, especialmente na Rádio Record.
Seu programa alcançava uma audiência expressiva em São Paulo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 1983, o jornalista relatou que sua atração começava às 8h, logo depois do programa de Zé Bettio, e chegava a pouco mais de um milhão de ouvintes na cidade.
A abertura era um espetáculo à parte. Antes de pronunciar o tradicional “Bom dia!”, Gil fazia uma pausa que criava expectativa e preparava o público para a história que viria a seguir.
Sua técnica misturava frases curtas, repetições, mudanças de entonação e silêncios prolongados. Ele não apenas relatava os acontecimentos: reconstruía as cenas com a voz, apresentava os personagens e conduzia o ouvinte por uma narrativa cheia de tensão.
Também recebia denúncias e cartas de pessoas que procuravam o comunicador para expor situações de violência e injustiça. Dessa forma, sua atuação ultrapassava o relato dos crimes e estabelecia uma relação direta com o público.
Uma de suas características mais conhecidas era o encerramento de suas participações com uma frase que resumia sua indignação diante das injustiças: “Se você agir com dignidade, pode não consertar o mundo, mas tenha certeza de uma coisa: na Terra haverá sempre um canalha a menos!”
DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA AO CARANDIRU
Ao longo da carreira, Gil Gomes esteve diante de personagens e acontecimentos que marcaram o noticiário policial brasileiro.
Em 1997, entrevistou João Acácio Pereira da Costa, conhecido nacionalmente como Bandido da Luz Vermelha, depois que ele deixou a prisão, onde havia passado cerca de três décadas. O criminoso carregava uma história que havia provocado enorme repercussão no país desde os anos 1960.
Gil também acompanhou episódios relacionados à violência urbana. Na televisão, esteve no complexo penitenciário do Carandiru cerca de um mês depois do massacre de 1992, registrando vestígios do que havia acontecido naquele local.
Essas coberturas ajudaram a consolidar sua imagem como um repórter que buscava os cenários dos acontecimentos e apresentava ao público histórias que provocavam indignação, curiosidade e debate.
O SUCESSO NACIONAL NO “AQUI AGORA”
Em 1991, Gil Gomes chegou ao *Aqui Agora*, do SBT, programa que revolucionou a maneira de apresentar o noticiário popular na televisão brasileira.
A atração apostava em reportagens de rua, denúncias, flagrantes e histórias do cotidiano, com uma linguagem direta e próxima da população. Ao lado de profissionais como Sônia Abrão, Celso Russomanno, Wagner Montes e Jacinto Figueira Júnior, Gil participou de uma fase que marcou época na televisão.
Foi diante das câmeras que suas características ganharam ainda mais força. As camisas de estampas coloridas, a voz inconfundível e o movimento circular da mão enquanto segurava o microfone se tornaram marcas registradas.
O público reconhecia o jornalista não apenas pelo rosto, mas pelo jeito de andar, gesticular e narrar. Seu estilo passou a ser imitado por humoristas e entrou definitivamente no repertório da cultura popular brasileira.
O *Aqui Agora* chegou a ter duas edições diárias e permaneceu no ar até 1997. Para Gil Gomes, a passagem pelo programa representou o auge da popularidade nacional.
Depois do SBT, o jornalista também participou do programa *Mulheres*, da TV Gazeta, em 1998, e da *Escolinha do Barulho*, da Record, em 1999, mostrando um lado humorístico diferente daquele pelo qual havia conquistado fama.
Entre 2004 e 2005, voltou ao formato policial ao apresentar o *Repórter Cidadão*, na RedeTV!. Mesmo com as mudanças de emissora, o rádio continuou sendo uma parte importante de sua identidade profissional.
UM ESTILO QUE FEZ HISTÓRIA, MAS TAMBÉM PROVOCOU DEBATES
A trajetória de Gil Gomes não pode ser contada sem mencionar as discussões sobre o sensacionalismo no jornalismo policial.
Sua maneira dramática de narrar crimes, explorar o suspense e destacar detalhes das ocorrências conquistava audiência, mas também levantava questionamentos sobre os limites entre informar a população e transformar a violência em espetáculo.
O debate permanece atual: até que ponto a dramatização ajuda a chamar atenção para problemas sociais e em que momento pode ultrapassar os limites da informação responsável?
Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 1983, Gil falou sobre ameaças relacionadas ao trabalho jornalístico e manifestou oposição à pena de morte e à atuação de grupos de extermínio.
As declarações revelavam posicionamentos sobre segurança pública e violência em um período no qual o Brasil enfrentava discussões intensas sobre criminalidade, punição e direitos humanos.
Seu legado, portanto, também convida a refletir sobre a responsabilidade de quem transforma acontecimentos reais em notícia.
A DOENÇA, O AFASTAMENTO E A DESPEDIDA
Em 2005, Gil Gomes foi diagnosticado com doença de Parkinson. Com o avanço das limitações provocadas pela enfermidade, precisou reduzir suas atividades e permaneceu afastado da televisão por um longo período.
Em 2014, participou do *Domingo Show*, da Record, apresentado por Geraldo Luís. Durante a atração, emocionou-se ao recordar momentos importantes de sua trajetória e reencontrar parte de sua história diante das câmeras.
Dois anos depois, voltou a trabalhar como comentarista em um programa ligado à TV Ultrafarma. Na ocasião, demonstrou satisfação por recuperar parte do entusiasmo e da vontade de trabalhar.
Na noite de 15 de outubro de 2018, Gil passou mal em casa, na Zona Sul de São Paulo, e foi socorrido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Levado ao Hospital São Paulo, morreu na madrugada do dia seguinte, aos 78 anos.
Ele deixou quatro filhos e nove netos.
Ao recordar o pai, Vilma Gil Gomes destacou a indignação do jornalista diante das desigualdades e injustiças sociais. “É uma pessoa única para a comunicação. Sempre muito indignado com as injustiças sociais”, afirmou
O LEGADO DE UMA VOZ QUE O BRASIL NÃO ESQUECEU
Gil Gomes pertence a uma geração de comunicadores que compreendeu a força da linguagem popular e a capacidade do rádio e da televisão de estabelecer uma ligação direta com milhões de pessoas.
Sua voz, suas pausas, seus gestos e sua maneira peculiar de narrar acontecimentos fizeram dele muito mais do que um repórter policial. Gil se tornou um personagem da história da comunicação brasileira, reconhecido por uma identidade profissional que dificilmente se confundia com a de qualquer outro jornalista.
Entre aplausos, críticas e debates sobre os rumos do jornalismo policial, uma coisa permanece incontestável: Gil Gomes construiu um estilo próprio, conquistou o público e deixou uma marca que atravessou gerações.
E, para quem acompanhou suas reportagens, basta lembrar a voz grave, o microfone na mão e aquele jeito inconfundível de começar uma história para trazer de volta a memória de um dos comunicadores mais emblemáticos da televisão brasileira.