A disputa pelo comando político da futura federação entre PDT e PSB começa a produzir consequências em Pernambuco antes mesmo de uma decisão definitiva. A senadora eleita Marília Arraes não estaria disposta a permanecer no PDT caso a direção nacional confirme a união com os socialistas, partido comandado nacionalmente por seu primo, João Campos.
O possível rompimento revela que as divergências entre Marília e o grupo político dos Campos continuam vivas, apesar da composição eleitoral que garantiu à neta de Miguel Arraes uma das duas vagas de Pernambuco no Senado Federal.
A informação foi publicada pelo Blog Dellas, da jornalista Terezinha Nunes, e repercutida por outros veículos pernambucanos. Segundo relatos atribuídos a pessoas próximas à senadora eleita, ela já teria comunicado a aliados que prefere deixar o PDT a aceitar uma federação na qual o PSB teria maior influência sobre as decisões e os espaços de poder.
O PDT procura uma saída para sobreviver politicamente
O impasse acontece em um momento delicado para o PDT. Nas eleições de 2026, a legenda não conseguiu alcançar a cláusula de desempenho, também conhecida como cláusula de barreira, e passou a enfrentar dificuldades para manter acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao tempo de propaganda gratuita.
Diante desse cenário, a direção nacional, comandada por Carlos Lupi, passou a discutir alternativas de federação, fusão ou incorporação com outras legendas.
Entre as possibilidades estão o PSB, o PSDB, o Avante e uma composição envolvendo Solidariedade e PRD. Também aparecem nas conversas outras siglas, como PSOL e Rede Sustentabilidade.
Na convenção nacional realizada em 27 de outubro, no Rio de Janeiro, o PDT aprovou uma resolução transferindo à Executiva Nacional o poder de conduzir as negociações. A federação com o PSB recebeu sinalização de preferência da direção partidária.
É justamente nesse ponto que começa o problema de Marília. Uma eventual federação com o PSB poderia significar, na avaliação de seus aliados, a perda de autonomia e de influência dentro da estrutura partidária, principalmente em Pernambuco.
Wolney Queiroz entra no jogo e acompanha Marília
Um dos aspectos mais importantes dessa disputa é o posicionamento do ministro da Previdência Social e ex-deputado federal Wolney Queiroz.
Historicamente defensor de uma aproximação entre PDT e PSB, Wolney surpreendeu ao se posicionar contra a federação durante a convenção nacional. O argumento apresentado foi o respeito à liderança de Marília em Pernambuco e à construção política que levou a senadora eleita para o partido.
Wolney destacou que Marília preside o PDT estadual e conquistou legitimidade para participar da definição dos rumos da legenda. A manifestação demonstra que o desconforto deixou de ser apenas uma questão individual e passou a envolver uma parte importante da organização pedetista pernambucana.
O movimento também coloca Carlos Lupi diante de uma equação política delicada: preservar a sobrevivência nacional do PDT sem provocar a saída de uma das lideranças mais importantes que o partido conquistou nas últimas eleições.
João Campos e Marília: uma relação que nunca ficou totalmente resolvida
A possível ruptura partidária tem raízes em uma história de divergências políticas e familiares.
Marília e João Campos pertencem a uma das famílias mais tradicionais da política pernambucana. São primos e carregam o legado de Miguel Arraes, uma das maiores referências da história política do estado.
Entretanto, a convivência entre os dois nunca foi simples.
Em 2020, Marília enfrentou João Campos na disputa pela Prefeitura do Recife. Naquele momento, ela estava no PT e João protagonizou uma campanha marcada por fortes críticas aos petistas. A disputa deixou marcas que continuaram aparecendo nos anos seguintes.
Depois da morte de Eduardo Campos, também surgiram questionamentos sobre a participação e o espaço político dos Arraes dentro do PSB, historicamente associado à família.
A aproximação eleitoral de 2026 não significou necessariamente uma reconciliação política definitiva.
Mesmo integrando a chapa de João Campos para o Senado, Marília teria mantido divergências sobre o espaço que receberia no projeto socialista.
O segundo turno de Lula aumentou o desconforto
Outro episódio que teria contribuído para aumentar o distanciamento foi a movimentação política durante o segundo turno da eleição presidencial.
Segundo os relatos publicados, Marília participou de compromissos importantes ao lado de Lula, incluindo agendas em Brasília, Natal e Petrolina.
A senadora eleita ganhou visibilidade na campanha petista e esteve próxima do presidente em momentos estratégicos da disputa.
Ainda conforme as informações atribuídas a pessoas próximas dos envolvidos, João Campos teria realizado um café da manhã com lideranças políticas no dia do segundo turno sem convidar Marília.
Nos bastidores socialistas, também teria existido incômodo com a exposição da senadora ao lado de Lula, especialmente diante da estratégia eleitoral adotada em Pernambuco, que envolvia a transferência de votos de eleitores de Raquel Lyra para o presidente, movimento conhecido como Luquel.
Esses episódios são apontados como parte do desgaste, embora não exista manifestação pública dos envolvidos confirmando todos os detalhes dos relatos.
Maria Arraes também aparece no tabuleiro
A situação ganha novos contornos quando entra na conversa o nome da deputada estadual eleita Maria Arraes, irmã de Marília.
Segundo a publicação original, existiram divergências em torno das articulações eleitorais que envolveram a candidatura de Maria e a composição da chapa majoritária de João Campos.
Maria acabou disputando uma vaga na Assembleia Legislativa pelo PSB, enquanto Marília conquistou o mandato de senadora pelo PDT.
O episódio teria contribuído para aumentar a distância política entre as duas irmãs, embora esse afastamento também seja apresentado como informação de bastidores, sem confirmação pública das próprias parlamentares.
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma disputa entre duas legendas. Existe uma questão maior envolvendo o espaço de cada grupo dentro de uma estrutura política que reúne sobrenomes historicamente ligados ao poder em Pernambuco.
A cadeira no Senado facilita uma eventual mudança
Marília também tem uma vantagem jurídica importante caso decida deixar o PDT.
Como foi eleita pelo sistema majoritário para o Senado, a mudança de partido não implica perda do mandato por infidelidade partidária. O entendimento foi consolidado pelo Supremo Tribunal Federal e é reconhecido pela Justiça Eleitoral.
Isso significa que, diferentemente de deputados e vereadores eleitos pelo sistema proporcional, Marília poderá avaliar uma mudança de legenda sem colocar em risco sua cadeira no Senado.
A senadora eleita assumirá o mandato em 1º de fevereiro de 2027, com duração de oito anos. Ela conquistou 2.325.127 votos, consolidando uma expressiva votação em Pernambuco.
O que vem pela frente?
A decisão do PDT poderá provocar uma reorganização importante no tabuleiro político pernambucano.
Se a federação com o PSB avançar, Marília terá de escolher entre permanecer em uma estrutura na qual seu espaço poderá ser disputado com os socialistas ou procurar uma nova legenda que lhe ofereça autonomia para construir seu próprio projeto político.
Uma aproximação com o PSDB, Avante, Solidariedade ou PRD aparece entre as alternativas mencionadas nos bastidores, mas ainda não existe definição sobre seu destino partidário.
Para João Campos, o cenário também exige atenção. Uma eventual saída de Marília representaria mais do que a perda de uma filiada: significaria a continuidade de um distanciamento político dentro de uma família que historicamente teve enorme influência na construção do PSB pernambucano.
NA LUPA: Marília Arraes chega ao Senado com voto próprio, capital eleitoral expressivo e uma história política que não depende exclusivamente do sobrenome Campos. João, por sua vez, tenta fortalecer o PSB nacionalmente e ampliar sua influência no novo cenário político. O problema é que uma federação construída para fortalecer dois partidos pode acabar aprofundando uma divisão que já existe dentro de uma das famílias mais tradicionais da política pernambucana.
A pergunta agora é: Marília continuará no PDT se João Campos ganhar força na condução da federação ou escolherá uma nova casa partidária para construir seu próprio caminho em Brasília?
Edney Souto | Blog do Edney