Em um discurso breve e carregado de ironia, o ministro comentou o tempo extrapolado das falas anteriores e sugeriu, de forma indireta, uma referência ao ato que havia praticado mais cedo. “Ninguém cumpriu os três minutos, o que quase me fez tomar algumas medidas, mas eu me contive hoje. Acho que hoje já fiz o que tinha que fazer”, afirmou, arrancando reações do público presente. A declaração foi interpretada como uma alusão direta à decisão que determinou a transferência de Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, para a chamada Papudinha, ala especial do Complexo Penitenciário da Papuda.
A mudança de local ocorreu no mesmo dia da solenidade acadêmica. Jair Bolsonaro estava detido desde o dia 22 de novembro em uma sala adaptada da Polícia Federal, sob alegação de segurança e por sua condição de ex-chefe de Estado. Com a nova decisão, ele passa a cumprir a prisão na Papudinha, oficialmente o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, espaço administrado pela PM e historicamente reservado para autoridades condenadas, especialmente policiais e militares.
O local é conhecido por oferecer um regime diferenciado em relação às alas comuns do sistema prisional do Distrito Federal. Bolsonaro ficará em uma cela de aproximadamente 65 metros quadrados, sendo 55 metros de área coberta, com capacidade formal para até quatro pessoas, mas destinada ao uso individual. A estrutura inclui quarto, sala, banheiro com vaso sanitário convencional e chuveiro com água quente, além de cozinha, lavanderia e uma área externa.
O ex-presidente também passa a ter direito a cinco refeições diárias — café da manhã, almoço, lanche, jantar e ceia — além de visitas autorizadas às quartas e quintas-feiras, com duração de até duas horas. O regime interno da Papudinha é considerado mais flexível do que o da Papuda tradicional, permitindo, por exemplo, o uso de roupas coloridas e a entrada de determinados alimentos levados por visitantes.
Na mesma ala especial está preso Anderson Torres, ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro, condenado no processo que apurou a tentativa de golpe de Estado. A presença de Torres reforça o simbolismo político da unidade, que se tornou um dos principais espaços de custódia de personagens centrais dos desdobramentos judiciais relacionados aos atos antidemocráticos investigados pelo STF.
A estrutura da Papudinha já havia sido inspecionada pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes ainda em novembro, antes mesmo da efetivação da prisão de Bolsonaro, o que indica que a transferência já estava no horizonte das decisões da Corte. A medida consolida mais um capítulo do processo que envolve o ex-presidente e reafirma o protagonismo de Moraes na condução dos casos ligados à ruptura institucional.
Entre o ambiente solene da academia e o rigor das decisões judiciais, a frase dita pelo ministro na USP sintetizou o momento político e jurídico vivido pelo país, ecoando além das paredes da faculdade e reforçando o peso simbólico de suas ações no cenário nacional.