A política pernambucana ganhou mais um capítulo de forte impacto na reta final das articulações partidárias. A decisão da Federação Renovação Solidária, formada pelo PRD e pelo Solidariedade, de abandonar o palanque da governadora Raquel Lyra (PSD) e declarar apoio à candidatura de João Campos (PSB) não representa apenas uma mudança de lado na disputa pelo Governo do Estado. O movimento atinge diretamente o deputado federal Fernando Rodolfo (PRD), que vê desmoronar, em poucos meses, a estratégia política construída para sua tentativa de permanecer na Câmara dos Deputados.
A poucos dias da convenção estadual que oficializará as candidaturas para as eleições de 2026, Fernando Rodolfo enfrenta o maior revés político de sua estratégia eleitoral. A decisão da Federação Renovação Solidária de deixar a base da governadora Raquel Lyra para integrar o palanque de João Campos desmonta a articulação construída pelo deputado desde que assumiu o comando da federação em Pernambuco, quando deixou o PL para assumir o PRD e liderar o novo bloco partidário no Estado.
O episódio chama atenção porque foi justamente Fernando Rodolfo quem protagonizou uma das principais movimentações da janela partidária deste ano. Ao assumir o comando da federação em Pernambuco, o parlamentar apresentou o projeto como estratégico para fortalecer sua reeleição, estruturar uma chapa proporcional competitiva e consolidar a Renovação Solidária como aliada da governadora Raquel Lyra. A expectativa era ampliar a representação da federação na Câmara dos Deputados e fortalecer o grupo dentro da base governista.
Entretanto, o cenário mudou completamente. O prefeito de São Caetano, Josafá Almeida, reassumiu a presidência estadual do PRD, enquanto o presidente do Solidariedade, Edinazio Silva, conduziu as negociações que culminaram na adesão da federação ao palanque de João Campos. A decisão foi oficializada nesta terça-feira (28), consolidando o retorno das duas legendas à Frente Popular de Pernambuco e ampliando o arco de alianças do pré-candidato socialista.
Nos bastidores, a avaliação é de que a definição não foi construída em Pernambuco. Lideranças partidárias relatam que a decisão foi tomada em Brasília, pelas direções nacionais da federação, e comunicada às lideranças estaduais, prevalecendo uma orientação de cima para baixo. Com isso, Fernando Rodolfo acabou perdendo espaço no comando político da federação e viu fracassar a estratégia que havia desenhado para manter o PRD e o Solidariedade no palanque da governadora.
O parlamentar passa a viver uma situação politicamente delicada. Sua trajetória foi marcada pela atuação no campo da direita, pela proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro e pela oposição ao PSB. Agora, a federação à qual está filiado integra oficialmente o palanque de João Campos, adversário histórico desse segmento político, criando um evidente constrangimento político e eleitoral.
O próprio Fernando Rodolfo afirmou que manterá seu apoio pessoal à governadora Raquel Lyra e ao projeto político da direita nacional. Segundo o deputado, a decisão da federação foi tomada pela maioria dos pré-candidatos a deputado federal, ficando assegurada a liberdade para que cada candidato apoie o postulante ao Governo do Estado que considerar mais conveniente.
Na prática, porém, essa liberdade não elimina os efeitos políticos da mudança. Em campanhas proporcionais, a identidade da federação costuma influenciar diretamente a atuação dos candidatos, o discurso nas ruas, o material de campanha e a percepção do eleitorado. Para Fernando Rodolfo, o desafio passa a ser manter o apoio de sua base conservadora enquanto integra uma federação que estará formalmente na campanha de João Campos.
Outro efeito imediato da mudança é o fortalecimento da candidatura socialista. Com a adesão da Federação Renovação Solidária, João Campos amplia sua base partidária, aumenta o tempo de propaganda no rádio e na televisão e chega às convenções demonstrando capacidade de atrair novas forças políticas. Do outro lado, Raquel Lyra perde duas legendas que, até então, integravam sua base de apoio.
A reviravolta acontece justamente no momento mais decisivo das articulações partidárias. A poucos dias da convenção, quando as alianças costumam estar praticamente consolidadas, Fernando Rodolfo vê a federação que ajudou a estruturar seguir um caminho completamente diferente daquele que havia defendido desde o início do ano.
Mais do que uma simples troca de alianças, o episódio evidencia o peso das decisões nacionais sobre as estruturas partidárias estaduais e deixa Fernando Rodolfo diante de um dos maiores desafios de sua carreira política. O deputado, que há poucos meses assumia o comando da federação como símbolo de fortalecimento, chega às convenções enfrentando um cenário de incerteza, isolamento político e questionamentos sobre a viabilidade de seu projeto de reeleição.