O eleitor pernambucano pode votar no presidente para governar o Brasil e escolher outro nome para comandar o estado. A derrota de João Campos para Raquel Lyra em 2026 reforça uma lição que atravessa diferentes eleições: padrinho político ajuda, mas não ganha eleição sozinho.
A política pernambucana acaba de dar mais uma demonstração de que prestígio nacional não é garantia de vitória estadual. Lula tem força eleitoral em Pernambuco, mas essa popularidade não funciona como um cheque em branco para os candidatos que recebem sua bênção. João Campos sentiu isso na disputa de 2026 ao perder para Raquel Lyra, mesmo contando com o apoio do presidente.
O resultado escancara uma diferença que muita gente insiste em ignorar: votar em Lula não significa, necessariamente, votar nos candidatos escolhidos por Lula. O eleitor tem suas próprias razões, avalia os nomes, compara projetos e, no fim, decide conforme seus interesses e sua percepção de cada candidatura.
A história recente de Pernambuco oferece exemplos claros dessa separação.
Em 2006, Lula venceu a eleição presidencial no estado, mas Humberto Costa, candidato petista ao governo, terminou em terceiro lugar. Na disputa estadual, quem cresceu foi Eduardo Campos, que recebeu o apoio do PT e derrotou Mendonça Filho. A força do presidente não foi suficiente para levar o próprio candidato do partido ao segundo turno.
O roteiro se repetiu, com outras peças, em 2014. Lula e Dilma Rousseff apoiaram Armando Monteiro, mas Paulo Câmara venceu a eleição para governador ainda no primeiro turno. Dilma, por sua vez, saiu vitoriosa em Pernambuco nas duas etapas da disputa presidencial. Mais uma vez, o eleitor mostrou que a escolha para Brasília não precisava acompanhar a preferência para o governo estadual.
É verdade que o apadrinhamento também produziu vitórias. Eduardo Campos foi reeleito em 2010 com o apoio de Lula, enquanto Paulo Câmara conquistou novo mandato em 2018, numa aliança que envolveu o PT. Seria incorreto, portanto, afirmar que o presidente não consegue ajudar seus aliados. Consegue, sim. O que não pode é transformar apoio político em garantia antecipada de vitória.
Em 2022, o contraste voltou a chamar atenção. Lula venceu em Pernambuco nos dois turnos, mas Danilo Cabral, candidato apoiado pelo campo petista ao governo estadual, terminou a disputa em quarto lugar. Na sequência, o apoio de Lula a Marília Arraes não foi suficiente para impedir a vitória de Raquel Lyra.
Agora, em 2026, João Campos entra nessa relação de candidatos que descobriram, nas urnas, que o prestígio do padrinho tem limites. Lula venceu a votação presidencial em Pernambuco no primeiro turno, mas seu aliado perdeu a disputa estadual para Raquel Lyra.
A derrota de João não representa, por si só, uma rejeição dos pernambucanos a Lula. O resultado mostra que a eleição estadual tem dinâmica própria e que o eleitor não entrega seu voto por fidelidade automática a lideranças nacionais.
Para Raquel Lyra, a vitória representa também a confirmação de que uma candidatura pode superar a força política de um adversário respaldado pelo presidente da República. Para João Campos, fica a necessidade de compreender que o sobrenome, a estrutura partidária e o apoio de Lula não substituem a conquista direta da confiança popular.
Na política, padrinho abre portas, fortalece palanques e ajuda a construir alianças. Mas não aperta o botão da urna pelo eleitor.
Em Pernambuco, Lula pode até emprestar seu prestígio. O voto, porém, continua sendo propriedade do eleitor. E eleição não se ganha apenas com bênção política: ganha-se convencendo a população.